quarta-feira, 24 de dezembro de 2008


"Que não me espqueça,para terminar,de dizer o essencial: retorna-se renascido de semelhantes abismos,de semelhantes doenças graves,mesmo da doença da suspeita grave,retorna-se como se tivesse trocado de pele,mais irritadiço,mais maldoso,com um gosto mais sutil para a alegria,com uma lingua mais sensivel para todas as coisa boas,com o espirito mais alegre,com uma segunda inocencia,mais perigosa,na alegria;retorna-se mais criança e, ao mesmo tempo,cem vezes mais refinado do que nunca se havia sido antes."

Nietzsche


-A Gaia Ciência.


sábado, 20 de dezembro de 2008

Saudade


Sinto saudade do que poderia ter sido
e não foi.
Saudade do que idealizei
e não aconteceu.
Saudade do que sonhei
sem ter adormecido.
Saudade de alguém que vinha
e não chegou.
Saudade do que minha mão quase alcançou
sem ter conseguido segurar.
Saudade do beijo que já foi,
do toque que já senti,
do olhar que não tornarei a rever.
Porque poderia ter sido,
mas, não foi.
Valéria Nogueira Eik

Sem Ensaio


 
Hoje


pode fazer sol
pode chover
até cair raio
hoje
eu canto
e danço
sem ter feito
nenhum ensaio



Zhô Bertholini

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Os Sonhos




De repente acordo e vejo bem perto

De mim, colado quase ao meu, desnudo,

Também, cansado, inerte no veludo,

O corpo dela, sem censura, aberto

O coração, de sentimento incerto,

Às vezes, mesmo, indiferente a tudo.

De tanto vê-la assim me desiludo

E me entristeço sempre que desperto.

Sem esperança de acordar com ela,

Eu fico preso ao meu amor constante

E paro, e penso e sinto, num instante,

Quando ela dorme, assim, imóvel, bela:

...Eu dos seus sonhos estou tão distante,

Que nem parece que estou junto dela.


João Pessoa, 1981

Abdias Sá

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Rumo ao sumo


Disfarça, tem gente olhando.
Uns, olham pro alto,
cometas, luas, galáxias.
Outros, olham de bando,
lunetas, luares, sintaxes.
De frente ou de lado,
sempre tem gente olhando,
olhando ou sendo olhado.

Outros olham para baixo,
procurando algum vestígio
do tempo que a gente acha,
em busca do espaço perdido.
Raros olham para dentro,
já que dentro não tem nada.
Apenas um peso imenso,
a alma, esse conto de fada.

(Paulo Leminski)

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Rain Down.


"Doeria mais tarde, quem sabe, de maneira insensata e ilusória como doem as perdas para sempre perdidas, e portanto irremediáveis, transformadas em memórias iguais pequenos paraísos-perdidos. Que talvez, pensava agora, nem tivessem sido tão paradisíacos assim." 


Caio Fernando Abreu - Anotações Insensatas

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008



Ela pega a bolsa, ajeita a blusa e vai

Vai correndo pela rua feito um trem


Sem olhar para nada nem ninguém


Sem freio vai enfrentando o atrito
do ar


Vai sem conseguir nem ao menos respirar


Ela só pensa em alcançar aqueles braços


Percorrer com a língua todos os seus traços


Vai correndo porque quer penetrar
em outra pele


Falecer num gozo que a revele.



Ménage à Trois -












Penso nela como possuindo uma capacidade especial.
Quando entorpecida pela dor de sua doença assistia ao desenrolar do filme de sua vida.
Isto sua doença lhe dava: o distanciamento.
Penso nela como um daqueles tipos de mulheres que não teme a solidão das tardes de domingo ou o vazio que toma as cidades,de assalto,na madrugada.Apenas dos problemas.A vida só seria um susto se fosse uma queda breve.Porque se a vida fosse uma queda sem fim,podia-se dormir,amar,fazer planos;podia-se até mesmo ter esperanças e,ainda assim,continuar caindo.
Helena Gold

Adélia Prado




Necessitarei ainda de quantas paixões para
Amansar meu orgulho e me deixar ver de
Frente, de costas, de quatro, comendo,
Descomendo, sem turvar meus olhos?”
“Ó Senhor, eu quero amar tudo.”


Penso nela como sendo capaz de ter escrito o que Frida Kahlo registrou em seu diário:
“Eu não sou uma surrealista, eu nunca pintei sonhos. Eu pintei minha própria realidade”.
Igual à pintora mexicana, ela se acidentou, um dia.



Penso nela como uma mulher que não teme
o silêncio da noite ou a claridade do meio-dia.
Nunca penso nela como alguém que diz:
“Olhe só o que a dor fez comigo: 
transformou-me numa louca.”.

Mesmo que isso fosse verdade.


Helena Gold


A estrada

"A multidão dos meus erros

Me torna clarividente"

Adélia Prado



Ela acabou descobrindo que de nada valia, de nada; o chão era o mesmo após ter percorrido milhares (?) de quilômetros. Tomar a grande auto-estrada e ir-se até o limite de suas forças não era o suficiente. Então parou o carro.

O céu claro, muitíssimo; um passarinho aquilo ali?Sim. Nada faltava: era verão. Aprendera que no verão nada faltava. Do azul profundo do céu de brigadeiro ao brilho do sol no aslfato. Tudo refletia o que era bom. O mundo quedava-se perfeito em meio à tarde de verão. Até onde sua vida alcançava, tudo era perfeito. Ela se assemelhando à natureza daquela perfeição.

Estava cansada, dirigir não era pra mulheres, já disseram. Mas quem se lembrava de ser mulher enquanto guiava?Então ela pensou num banho - no banho sim, ou quando olhava no espelho seu rosto comum, mas de algum modo atraente. Como uma ave estranha e escura. Difícil não desejar um banho, com todo aquele calor e o ar-condicionado do carro quebrado.


Deus, suspirou. Naquele momento um banho seria a coisa certa a fazer. Mas ela não queria pensar em nada por enquanto. Era do valor que ela fugia. Como se conceitos como bom e ruim tivessem acabado. Desde sempre, o valor fizera parte de sua vida, chegara a ser o topo do que fora sua vida,fora acima dela,como a coisa mais importante.E tudo isso tinha acabado.Ela estava como o céu do meio-dia: vasta,sem nenhuma nuvem.azul.

Tirou o sutiã. Com um gesto, passou a peça pela manda da blusa. Branco e transparente, ela pendeu ao lado de sua perna enquanto ela olhava o horizonte,enquanto os seus seios,rápidos e duros,arranharam a sutileza da blusa fina,igualmente brancos e inocentes.Sem espelhos era difícil dizer se eram belos- só via a si mesma no espelho,ou quando menina;lá,no rosa da infância,era fácil encontrar olhando-se.Como se ser adulta fosse sempre sinônimo de passar mais tempo diante do espelho e gostar cada vez menos.O marido,por exemplo,jamais admirara aqueles peitos.

Voltou ao carro, à estrada. Não havia nenhuma dificuldade. Estava tudo claro. Agora ela não passava de uma ex-jornalista, ex-esposa, ex-escritora, ex-maníaca depressiva e, provavelmente, assassina. Ela pensou nessas coisas e suspirou. Ninguém poderia dizer que ela não tinha motivos para pisar fundo no acelerador. E ela acelera. À sua frente apenas a imensidão do mundo apontando para a estrada deserta, o azul do céu, a passagem de um livro guardada na memória: “Quer ouvir uma verdade? Uma grande verdade? Se lhe restar alguma coisa nesta vida, qualquer coisa, ame-a.”E agora ela amava a liberdade.Do corpo,da ação,do pensamento.Era o que lhe havia restado,o desejo pela liberdade e o Grande Desconhecido.Dirigir até a estrada acabar- em algum ponto tudo acaba.Naturalmente que seus eitos eram belos,ainda que o marido tivesse dito um dia “é,são...”,com total desinteresse.Deus,suspirou outra vez.

Estava pensando no quanto sujara a saia ao descer, em suas roupas cor de poeira, quando um caminhão começou a despontar ao longe.

A BR-107 era pouco trafegada, quase obsoleta para quem não ficasse em suas proximidades. O que lhe era conveniente. Ela não queria chegar tão cedo ao seu destino, não sabia nem se queria chegar, nem como. Uma única vez em toda a sua vida ela se sentira assim, desconexa, fora da realidade: quando uma criança fora flagrada olhando o pai, nu. A coisa que ele levava por entre as pernas lhe pareceu torta, confusa e imensamente grande, principalmente depois do episódio. Também era verão naquela tarde; ele, à beira da piscina, bêbado, a mãe... Não, ela não se lembrava onde estava a mãe, possivelmente estava procurando-a quando o encontrou,quando chegou até a piscina.Ele esquecera que estava nu,riu pra ela,estendeu os braços,ela foi,devagarinho,mas foi.Bêbado,súbito,ele berrou,e ela tão próxima,olhando-o fixamente como nunca olharia pra mais nada nesta vida.Então ela saiu em disparada.Correu,correu,num momento parecia brincadeira.

Um jogo cansativo. Ela chegou à cozinha só e só ficou. Porém a presença dele era ameaçadora e a acompanhava enquanto buscava a mãe. A necessidade de um copo d’água era menor que o conforto de sentar-se à mesa,quieta.Ela não ousava ir até a geladeira pois teria que passar em frente da janela que dava para fora,para a piscina.Na mesa havia uns talheres decorados com os personagens de Disney,novos- começou a empilha-los,caíam,sempre caíam,ficavam como a coisa do pai:deitados,desequilibrados e extravagantes,e ela os segurava fortemente e de novo recomeçava.Tentava se absorver,não pensar,e não pôde:era grande e feio e ele gritara com ela por causa daquilo.Os garfos e facas eram muito mais belos,contudo não paravam empilhados;nada parecia estar sob controle.Demorou-se na cozinha,até que,quase esquecida do episódio,foi perambular pelo corredor.

Ele esperava-a, e estava diferente, a coisa inclusive, a coisa principalmente. Ela deslizou pelas paredes e entrou no primeiro quarto: tudo sem um grito ou gesto brusco, e só parou na entrada do armário embutido. Das mãos descendo sobre os ombros ela se lembra (naquela época nem precisava de sutiã). Das mãos fazendo descer sua peça íntima até os joelhos, ela se lembra. Do cabelo grisalho dele, colado a testa pelo suor. Da voz da mãe chamando-a ao longe, depois. Quando já não era necessário.

Era quente o dia e também por isso ela se lembrava de tudo agora, e se lembrava também dos sonhos que acompanharam na adolescência: neles o pai entrava furioso e a violentava em cima da mesa, entre os talheres, o Pato Donald rindo, colheres, facas, garfos caindo aos milhões em câmera lenta, enchendo o ar com um fino repicar de sinos, no infinito. Da ultima vez que o sonho se repetiu, o homem em cima dela com o hálito barrento de álcool num passe de mágica ficou com a cara do marido.


Deus busca aquilo que foge (Ecl 3.15).



"E todos, de alguma maneira, levamos
algo de ilegal no coração.
Todos, enfim, estamos em fuga."

-João Anzanello Carrascoza, 

Hotel Solidão






A escada


Durante quase nova anos ela subiu e desceu aquela escada; devagar, vezes depressa, algumas vezes sonolenta. Fizera sexo nessa escada. Outras vezes pendurara enfeites no Natal. Parada agora estava, no ponto exato entre o sopé e o topo - olhando o homem estendido no chão, lá embaixo. Um fio vermelho partia de uma das narinas dele.Ele treme muito levemente: sua mão no corrimão,tão ávida por segurança.Porém,aos poucos,um a um, conseguiu vender os degraus,passar ao largo do corpo e chegar à porta- esses que foram os passos mais duramente firmados de toda a sua vida.

Lá fora a espera uma claridade tão grande que chegava a ser violenta. Uma manhã de sol como nunca.

Um dia particularmente tranqüilo.







Eu sou divino.



Querido Osho,

O que é iluminação? É uma revelação divina?


"Ela não é uma revelação divina, ela é uma realização divina. E a diferença é grande.Revelação divina significa que alguma coisa objetiva, como Deus, lhe é revelada. Você vê algum Deus; mas você está separado dele e ele está separado de você.


Eu não acredito num Deus que esteja separado de nós, que esteja separado da existência. Eu não acredito em um Deus que seja um criador; eu acredito num Deus que é criatividade.Dizendo isso em outras palavras, eu não acredito num Deus como uma pessoa, eu acredito em divindade como uma qualidade.


Assim, eu digo que ela não é uma revelação divina, mas uma realização divina. Você percebe quevocê é Deus, e ao perceber que é Deus, você percebe que tudo é Deus que somente Deus existe e nada mais existe. Nas pedras, nas árvores, nos pássaros, nas pessoas quer eu as conheça ou não o mesmo princípio, a mesma qualidade está escondida no verdadeiro centro de todo ser.
Iluminação é tornar-se tão cheio de luz que você consegue ver o seu próprio centro e perceber a sua divindade.


Isso faz uma grande diferença com Deus sendo separado, o homem é apenas um fantoche. Ele nunca pode ser livre, ele irá permanecer sempre um escravo. Como você pode se livrar do criador? Ele o criou. E por que ele o criou num determinado momento? Por que não antes?
Existe eternidade no passado e o cristianismo diz que Deus criou o mundo há quatro mil e quatro anos antes de Jesus Cristo. Deve ter sido no dia primeiro de janeiro obviamente. Mas, então, o que ele estava fazendo antes? Estava apenas sentado e nada fazendo por toda a eternidade? E então, de repente, ele criou este mundo. Um caos - não uma grande idéia.
Eu ia viajar e fui ao meu alfaiate. Disse-lhe, Você tem que fazer o meu robe em sete dias. Nesse prazo, sem truque: sete dias significa sete dias.


Ele disse, Como você quiser. Mas lembre-se de uma coisa, Deus criou o mundo em seis dias e dê uma olhada no mundo. Eu posso criar o seu robe em sete dias, mas depois não me pergunte, o que você fez? Vai ser um caos! Ele estava certo.
Em seis dias... E após os seis dias Deus estava cansado e descansou. E tem estado descansando desde então. Estranho cansaço! E parece ter sido um capricho, de repente, decidir criar o mundo. Mas você não pode depender de tal capricho de Deus. Amanhã ele pode decidir que já é o bastante e resolver destruí-lo. O que você pode fazer? Com um Deus que é um criador você está justo nas mãos de uma outra pessoa que pode fazer ou desfazer você. Então a sua liberdade e a sua individualidade não têm significado.


Nietzsche está certo quando diz, Deus está morto, e agora o homem está livre. Ele está colocando duas coisas juntas; este foi o insight dele: Deus está morto e agora o homem está livre. Com Deus vivo, o homem não pode ser livre.
Eu não digo que Deus esteja morto porque ele nunca viveu! Deus não é um objeto fora da existência. Ele não é um criador, ele é a realidade mais interna da existência. Ele é eterno; ele tem estado sempre aqui e agora; e ele sempre estará aqui e agora. A criação não terminou em seis dias, ela ainda está acontecendo. Ela é um processo que continua. Ela é uma evolução.
Mas Deus tem que ser colocado dentro dela, não do lado de fora. Com Deus do lado de fora, o mundo se torna morto e Deus se torna um ditador. Com Deus do lado de dentro, na existência, toda vida se torna mais viva e tudo vibra e Deus não é mais um perigo.
Assim, eu não direi que a iluminação é uma revelação divina, não. Todos aqueles que disseram ter tido uma revelação divina, simplesmente sonharam com isso, estiveram alucinando. Foi uma ilusão e nada mais.


Iluminação é perceber como realidade que eu não sou apenas um mortal. Eu não sou apenas material. Eu sou divino. No meu coração dos corações Deus está vivo, e o que está acontecendo em mim está acontecendo em todo mundo. A única diferença entre aquele que nós chamamos iluminado e os outros é que ele conhece; ele reconheceu o seu ser interior, e os outros estão dormindo profundamente. Mas não existe diferença qualitativa. Aqueles que estão dormindo, podem ser despertados amanhã.


E nesta eternidade, o que importa se você despertar hoje ou amanhã? Não importa. Você pode despertar de manhã cedinho ou pode se despertar mais tarde a eternidade está disponível. Você é livre para escolher quando despertar. Você é livre para escolher se quiser dormir um pouco mais. Então vire para o lado, puxe o cobertor e desfrute o sono um pouco mais... Porque é Deus que está desfrutando isso. Não se preocupe. Por que perturbar Deus se ele quer dormir um pouco mais? Mais cedo ou mais tarde você vai despertar. Por quanto tempo você consegue ficar dormindo?


A iluminação é um despertar de um sono profundo, vindo do estado de inconsciência para a consciência. Isso não precisa de nenhum Deus de fora.
O Deus de fora é muito perigoso. Suas implicações são feias, porque o Deus de fora significa adoração, exaltação dele, rezar e pedir a ele, ir ao mosteiro, ir à igreja, ir à sinagoga. O Deus de fora nunca permite que você entre dentro de si mesmo: os seus olhos estão focados do lado de fora e não existe nenhum Deus de fora. Você está olhando para um céu vazio. 
A verdadeira essência da vida está dentro de você.


Neste exato momento você pode se voltar para dentro de si mesmo, olhar para dentro de si. Nenhuma adoração é necessária, nenhuma reza é necessária. Tudo o que se precisa é uma jornada silenciosa em direção ao seu próprio ser. Eu chamo isso meditação uma peregrinação silenciosa ao seu próprio seu. E no momento em que você encontrar o seu centro, você terá encontrado o centro de toda a existência.


Arquimedes, um dos grandes cientistas, costumava dizer, Se eu conseguir encontrar o centro do mundo, eu poderei revolucionar tudo. Mas o pobre homem nunca encontrou; ele procurava na direção errada. Se por acaso em alguma vida eu encontrá-lo, eu lhe direi, Arquimedes, você ainda está procurando o centro do lado de fora? O centro está dentro de você. E isso é verdadeiro: se você conseguir encontrar o centro dentro de si, você terá encontrado o centro de todo o mundo, e conseguirá revolucioná-lo."


Fonte: Site oficial do Osho.