segunda-feira, 1 de dezembro de 2008



A estrada

"A multidão dos meus erros

Me torna clarividente"

Adélia Prado



Ela acabou descobrindo que de nada valia, de nada; o chão era o mesmo após ter percorrido milhares (?) de quilômetros. Tomar a grande auto-estrada e ir-se até o limite de suas forças não era o suficiente. Então parou o carro.

O céu claro, muitíssimo; um passarinho aquilo ali?Sim. Nada faltava: era verão. Aprendera que no verão nada faltava. Do azul profundo do céu de brigadeiro ao brilho do sol no aslfato. Tudo refletia o que era bom. O mundo quedava-se perfeito em meio à tarde de verão. Até onde sua vida alcançava, tudo era perfeito. Ela se assemelhando à natureza daquela perfeição.

Estava cansada, dirigir não era pra mulheres, já disseram. Mas quem se lembrava de ser mulher enquanto guiava?Então ela pensou num banho - no banho sim, ou quando olhava no espelho seu rosto comum, mas de algum modo atraente. Como uma ave estranha e escura. Difícil não desejar um banho, com todo aquele calor e o ar-condicionado do carro quebrado.


Deus, suspirou. Naquele momento um banho seria a coisa certa a fazer. Mas ela não queria pensar em nada por enquanto. Era do valor que ela fugia. Como se conceitos como bom e ruim tivessem acabado. Desde sempre, o valor fizera parte de sua vida, chegara a ser o topo do que fora sua vida,fora acima dela,como a coisa mais importante.E tudo isso tinha acabado.Ela estava como o céu do meio-dia: vasta,sem nenhuma nuvem.azul.

Tirou o sutiã. Com um gesto, passou a peça pela manda da blusa. Branco e transparente, ela pendeu ao lado de sua perna enquanto ela olhava o horizonte,enquanto os seus seios,rápidos e duros,arranharam a sutileza da blusa fina,igualmente brancos e inocentes.Sem espelhos era difícil dizer se eram belos- só via a si mesma no espelho,ou quando menina;lá,no rosa da infância,era fácil encontrar olhando-se.Como se ser adulta fosse sempre sinônimo de passar mais tempo diante do espelho e gostar cada vez menos.O marido,por exemplo,jamais admirara aqueles peitos.

Voltou ao carro, à estrada. Não havia nenhuma dificuldade. Estava tudo claro. Agora ela não passava de uma ex-jornalista, ex-esposa, ex-escritora, ex-maníaca depressiva e, provavelmente, assassina. Ela pensou nessas coisas e suspirou. Ninguém poderia dizer que ela não tinha motivos para pisar fundo no acelerador. E ela acelera. À sua frente apenas a imensidão do mundo apontando para a estrada deserta, o azul do céu, a passagem de um livro guardada na memória: “Quer ouvir uma verdade? Uma grande verdade? Se lhe restar alguma coisa nesta vida, qualquer coisa, ame-a.”E agora ela amava a liberdade.Do corpo,da ação,do pensamento.Era o que lhe havia restado,o desejo pela liberdade e o Grande Desconhecido.Dirigir até a estrada acabar- em algum ponto tudo acaba.Naturalmente que seus eitos eram belos,ainda que o marido tivesse dito um dia “é,são...”,com total desinteresse.Deus,suspirou outra vez.

Estava pensando no quanto sujara a saia ao descer, em suas roupas cor de poeira, quando um caminhão começou a despontar ao longe.

A BR-107 era pouco trafegada, quase obsoleta para quem não ficasse em suas proximidades. O que lhe era conveniente. Ela não queria chegar tão cedo ao seu destino, não sabia nem se queria chegar, nem como. Uma única vez em toda a sua vida ela se sentira assim, desconexa, fora da realidade: quando uma criança fora flagrada olhando o pai, nu. A coisa que ele levava por entre as pernas lhe pareceu torta, confusa e imensamente grande, principalmente depois do episódio. Também era verão naquela tarde; ele, à beira da piscina, bêbado, a mãe... Não, ela não se lembrava onde estava a mãe, possivelmente estava procurando-a quando o encontrou,quando chegou até a piscina.Ele esquecera que estava nu,riu pra ela,estendeu os braços,ela foi,devagarinho,mas foi.Bêbado,súbito,ele berrou,e ela tão próxima,olhando-o fixamente como nunca olharia pra mais nada nesta vida.Então ela saiu em disparada.Correu,correu,num momento parecia brincadeira.

Um jogo cansativo. Ela chegou à cozinha só e só ficou. Porém a presença dele era ameaçadora e a acompanhava enquanto buscava a mãe. A necessidade de um copo d’água era menor que o conforto de sentar-se à mesa,quieta.Ela não ousava ir até a geladeira pois teria que passar em frente da janela que dava para fora,para a piscina.Na mesa havia uns talheres decorados com os personagens de Disney,novos- começou a empilha-los,caíam,sempre caíam,ficavam como a coisa do pai:deitados,desequilibrados e extravagantes,e ela os segurava fortemente e de novo recomeçava.Tentava se absorver,não pensar,e não pôde:era grande e feio e ele gritara com ela por causa daquilo.Os garfos e facas eram muito mais belos,contudo não paravam empilhados;nada parecia estar sob controle.Demorou-se na cozinha,até que,quase esquecida do episódio,foi perambular pelo corredor.

Ele esperava-a, e estava diferente, a coisa inclusive, a coisa principalmente. Ela deslizou pelas paredes e entrou no primeiro quarto: tudo sem um grito ou gesto brusco, e só parou na entrada do armário embutido. Das mãos descendo sobre os ombros ela se lembra (naquela época nem precisava de sutiã). Das mãos fazendo descer sua peça íntima até os joelhos, ela se lembra. Do cabelo grisalho dele, colado a testa pelo suor. Da voz da mãe chamando-a ao longe, depois. Quando já não era necessário.

Era quente o dia e também por isso ela se lembrava de tudo agora, e se lembrava também dos sonhos que acompanharam na adolescência: neles o pai entrava furioso e a violentava em cima da mesa, entre os talheres, o Pato Donald rindo, colheres, facas, garfos caindo aos milhões em câmera lenta, enchendo o ar com um fino repicar de sinos, no infinito. Da ultima vez que o sonho se repetiu, o homem em cima dela com o hálito barrento de álcool num passe de mágica ficou com a cara do marido.


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