terça-feira, 31 de março de 2009






Velhos poemas

São estes velhos poemas os retraços
Onde viveu... e a ressonância e o pó
Que levantaram pelo mundo os passos
De um homem só, desprotegido e só.

Soturnos como as águas do igapó,
Molambolando em céus de ermos mormaços,
São de minha alma as cicatrizes e oh!,
Anjos-da-Guarda — meus irmãos colaços!.

Alameda de sonhos... Velho aprisco
Onde dormem mendigos de pés nus,
Tão puros como as mãos de São Francisco!

Vale açoitado pelos remoinhos...
Paisagem erma onde os mandacarus
Frutificaram pelos meus caminhos!

Kideniro Teixeira

Ser amante



Procurar o que haja de bom
Procurar a melhor forma de amar
Sem restrições,
Independente,
Liberado
E amante.
Procurar o relacionamento perfeito
Procurar fora,
O que tem dentro de você.
Será possível encontrar
Sua ternura,
Seu carinho,
Sem que isso não seja
A procura do reflexo
Do seu próprio eu?





Regina Lyra


Para Nacizo...

segunda-feira, 30 de março de 2009



Verão








Mosca de verão,


Zunindo vida breve,
Minuto de atenção.
Sol nasce, sol se põe,
O verão espicha a vida,

Mais luz, mais vida?



Bernard Waldman



"Escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse sempre a novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias."
(Clarice Lispector)

sábado, 28 de março de 2009






Querido Leonard...

para ver a vida de frente, sempre...
para ver vida de frente. e entendê-la...
do jeito que é...entendê-la, finalmente... e amá-la...
do jeito que é...e então...abandoná-la... sempre os anos entre nós... sempre os anos... sempre...
o amor... sempre... As Horas.


(do filme As Horas)






-Tiveste medo, no Vietname? 
-Sim. Bom, não sei bem. Às vezes parava de chover e as estrelas brilhavam. Nessas alturas era bonito. Como no instante antes do Sol se acamar no pantanal. Havia um milhão de centelhas na água .Como aquele lago na montanha. Era tão límpido, Jenny,como dois céus, um sobre o outro. E no deserto, quando nasce o Sol, não sabia onde acabava o céu e começava a terra. Era tão belo...
-Quem me dera lá ter estado contigo. 
-E estiveste. 
-Amo-te. 

(do Filme Forrest Gump)

quinta-feira, 26 de março de 2009






O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,


Nem sequer de tudo ou de nada:


Cansaço
 assim mesmo, êle mesmo,

Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,


As paixões violentas por coisa nenhuma,


Os
 amôres intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas
 tôdas 

Essas
 e o que falta nelas eternamente

Tudo isso faz um cansaço,


Êste
 cansaço,

Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,


Há sem dúvida quem deseje o impossível,


Há sem dúvida quem não queira nada


Três tipos de idealistas, e eu nenhum
 dêles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo
 impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,


Ou até se não puder ser...


E o resultado?


Para eles a vida vivida ou sonhada,


Para eles o sonho sonhado ou vivido,


Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...


Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecunda, cansaço,


Um
 supremíssimo cansaço,

Íssimo,
 íssimo, íssimo,

Cansaço...

Álvaro de Campos

(9-10-1934)

quarta-feira, 25 de março de 2009



"Parece incrível ainda estar vivo quando já não se acredita em mais nada. Olhar, quando já não se acredita no que se vê. E não sentir dor nem medo porque atingiram seu limite. E não ter nada além deste amplo vazio que poderei preencher como quiser ou deixá-lo assim, sozinho em si mesmo, completo, total. Até a próxima morte, que qualquer nascimento pressagia".


Caio Fernando de Abreu

Amor






Amor, se houve, eu tive.
De lembrar o amor
em poesia,
minha alma
sobrevive.

Do livro A forma do coração (1990)


Yêda Schmaltz

Enquanto bebo um copo de café...



Enquanto bebo um copo de café repasso os poemas que escrevi
Quanta confusão! Quantas palavras perdidas!
Sob que impulso lancei meu peito minhas descomposturas
em busca desse mar que não é claro nem habitável?
Se eu disse solidão árvore ou lodo
foram palavras imprecisas para estender meus braços
para dar a volta ao relógio e mostrar sua nudez
e seus caminhos
Tomei consciência de minhas obrigações
e quis dar aos homens nada mais que um relâmpago

Debaixo de uma imagem agora durmo
agora duplico-a e agora eu sublinho

Amanhã despertarei num mundo novo
Oscar Oliva
*Tradução de Antonio Miranda

domingo, 22 de março de 2009





Guerreiros não vês as mesmas coisas


como eu as vejo

não tens as mesmas crenças

as mesmas lendas

as mesmas leis

não és o mesmo que eu

é outra a roupa que me veste

é outra a cor de minha pele

eu falo eu canto eu rezo

em outra língua

em outra língua

eu amo e choro e calo

a outro deus

eu devo a minha vida

por esse deus te

levo a morte

Izacyl Guimarães Ferreira


domingo, 8 de março de 2009



Nada aos tantos
ah que sou nada
aos tantos
(despedaços de quebrantos)
fracionada
vitrificanto


Maria Maia

Última migração dos beijos
nunca mais recebi
o lírico percurso
de tua guitarra
libertária.
Nem o bálsamo daquela
água quieta
colhida por ti
na beira do açude de Orós.
Será que o incêndiodos teus beijos
se perderam nos
escombros da capital
cearense.
-Mario Cezar

sábado, 7 de março de 2009


Para Ananias
Não é só o que o espelho oferece, é antes, o que ele nos nega ao oferecer. O espelho põe nossos olhos desejosos face a uma espécie de ironia sutil do real. No silêncio que repousa na superfície luminosa, somos atraídos pela promessa de unicidade entre a imagem e a vivência do Eu. Antes que formulemos qualquer pergunta o espelho parece responder: "Eis o que tu és agora". Através da projeção de nossa imagem decodificamos uma geografia do corpo, geografia antes impossível. Decodificamos o equivalente a uma metáfora da experiência do momento: a vivência do corpo sensível imerso no mundo; corpo que respira e pulsa, corpo desnudo, púbere... O espelho é um território íntimo. É possessão privilegiada de um Eu que se expande entre as coisas. Em imagem refletida plasma-se toda a carga da memória onde o Eu se põe orientado, contextualizado na linha do tempo e no espaço que o circunda. A ironia começa quando nos damos conta de que aquilo que vemos à superfície é uma mera imagem descarnada, produto de um feixe de luz que pode vir de uma fonte às vezes instável, às vezes constante, às vezes oblíqua, às vezes efêmera... É justamente nessa imagem desprovida de várias dimensões essenciais ao ser - desprovida, sobretudo, da dimensão do tato e da consistência que esse sentido confere as coisas - que aprendemos a decifrar e a contemplar a fonte escura a que chamamos "Eu". E acreditamos por um habito do pensar e do ver, que há reflexos mais ou menos fiéis a essa metáfora. Há espelhos isentos de distorções que representam melhor o que somos e há aqueles em que não nos reconhecemos tamanha a distorção com que nossa imagem é reproduzida. Somos muitas vezes seduzidos pela ilusão de que somos o refletido. A imagem no espelho é, num primeiro olhar, a metáfora perfeita, a crisálida do Eu, onde tornamo-nos por um milagre estranho, objetos de nossa própria contemplação. Mas, ao oferecer sua superfície aberta ao mundo, o espelho nega uma espécie de translucidez que só nos é dada em aproximação quando fechamos os olhos e nos concentramos na vivência do momento; no respirar, no sentir a brisa, nos desconfortos do corpo, nos desejos desse corpo, nas memórias e imagens que surgem na imensa complexidade de estar vivo ("e tudo o que vive pulsa"). A promessa da unicidade desaba ante a mais fundamental das solidões: Percebermo-nos apartados de nós mesmos, percebermo-nos multidimensionais, fragmentados, complexos, visíveis apenas em superfície. O âmago das coisas é sempre nos é negado, sobretudo o âmago de nossa própria imagem. Os olhos no espelho as vezes se dão conta: Há algo de estranho na familiaridade daquela imagem! Algo de estrangeiro que se emoldura em nossa frente todos os dias. O espelho é o profundo mistério que nossas pupilas se cansaram de ver e se cansaram de tentar decifrar. Tudo o que há nele é a superfície, mera representação bidimensional de algo que só pode vir à tona (se é que vem à tona) quando fechamos os olhos e mergulhamos na totalidade do fluxo de vivência de sensações do momento. E quase sempre nos apegamos à imagem e a ela prestamos um culto diário. Talvez seja preciso, para mergulhar no Eu, quebrar o espelho e a vaga representação que ele produz, é preciso que narciso se afogue na sua imagem; que nesse ato de possuir a si mesmo, destrua a imagem na superfície do lago. É preciso se dar conta do vazio dos olhos que se procuram no espelho. Não há vazio mais enigmático que o dos olhos refletidos que procuram sua alma no espelho. O espelho nos nega a alma ao mesmo tempo em que promete desvelá-la e é por isso, talvez, que ele seja é tão sedutor.
Escrito por Artur Mamed.

quinta-feira, 5 de março de 2009

Angústias de uma espera







Deixei o telefone no máximo na esperança de você ligar.
Percorri bares, restaurantes, esquinas, lares.
Te escrevi dezenas de cartas que nunca entreguei.
Arrumei a casa.
Comprei roupa.
Fui aos lugares que você freqüenta.
Tentei largar o cigarro.
Me perfumei.
Me tornei feminina.
Mudei meu horário.
Emagreci.
Amei os teus.
Te liguei, disseram que tinha saído.
Te pedi, você não respondeu.
Fiz planos.
Comprei espartilho, cinta-liga e lingerie.
Te fiz cafuné.
Me fiz disponível.
Consertei a cama.
Comprei lençóis.
Fiz cópia da chave para o caso de você ficar.
Tomo pílulas para o caso de você querer.
Carrego sua foto na minha carteira.
Aprendi a andar no seu bairro.
Chorei por você.
Ri com você.
Ri de você.
Não me importei com seu atraso.
Inventei você ao meu lado.
Te convidei para entrar.
Te convidei para ficar.
Te contei tanto.
Te dei a chave.
Te desejei.
Te atrapalhei.
Te sufoquei.
Te matei.
E você nem percebeu.


-Carolina Vigna Prado






Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal..
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que se pensar.

- Fernando Pessoa