sábado, 7 de março de 2009


Para Ananias
Não é só o que o espelho oferece, é antes, o que ele nos nega ao oferecer. O espelho põe nossos olhos desejosos face a uma espécie de ironia sutil do real. No silêncio que repousa na superfície luminosa, somos atraídos pela promessa de unicidade entre a imagem e a vivência do Eu. Antes que formulemos qualquer pergunta o espelho parece responder: "Eis o que tu és agora". Através da projeção de nossa imagem decodificamos uma geografia do corpo, geografia antes impossível. Decodificamos o equivalente a uma metáfora da experiência do momento: a vivência do corpo sensível imerso no mundo; corpo que respira e pulsa, corpo desnudo, púbere... O espelho é um território íntimo. É possessão privilegiada de um Eu que se expande entre as coisas. Em imagem refletida plasma-se toda a carga da memória onde o Eu se põe orientado, contextualizado na linha do tempo e no espaço que o circunda. A ironia começa quando nos damos conta de que aquilo que vemos à superfície é uma mera imagem descarnada, produto de um feixe de luz que pode vir de uma fonte às vezes instável, às vezes constante, às vezes oblíqua, às vezes efêmera... É justamente nessa imagem desprovida de várias dimensões essenciais ao ser - desprovida, sobretudo, da dimensão do tato e da consistência que esse sentido confere as coisas - que aprendemos a decifrar e a contemplar a fonte escura a que chamamos "Eu". E acreditamos por um habito do pensar e do ver, que há reflexos mais ou menos fiéis a essa metáfora. Há espelhos isentos de distorções que representam melhor o que somos e há aqueles em que não nos reconhecemos tamanha a distorção com que nossa imagem é reproduzida. Somos muitas vezes seduzidos pela ilusão de que somos o refletido. A imagem no espelho é, num primeiro olhar, a metáfora perfeita, a crisálida do Eu, onde tornamo-nos por um milagre estranho, objetos de nossa própria contemplação. Mas, ao oferecer sua superfície aberta ao mundo, o espelho nega uma espécie de translucidez que só nos é dada em aproximação quando fechamos os olhos e nos concentramos na vivência do momento; no respirar, no sentir a brisa, nos desconfortos do corpo, nos desejos desse corpo, nas memórias e imagens que surgem na imensa complexidade de estar vivo ("e tudo o que vive pulsa"). A promessa da unicidade desaba ante a mais fundamental das solidões: Percebermo-nos apartados de nós mesmos, percebermo-nos multidimensionais, fragmentados, complexos, visíveis apenas em superfície. O âmago das coisas é sempre nos é negado, sobretudo o âmago de nossa própria imagem. Os olhos no espelho as vezes se dão conta: Há algo de estranho na familiaridade daquela imagem! Algo de estrangeiro que se emoldura em nossa frente todos os dias. O espelho é o profundo mistério que nossas pupilas se cansaram de ver e se cansaram de tentar decifrar. Tudo o que há nele é a superfície, mera representação bidimensional de algo que só pode vir à tona (se é que vem à tona) quando fechamos os olhos e mergulhamos na totalidade do fluxo de vivência de sensações do momento. E quase sempre nos apegamos à imagem e a ela prestamos um culto diário. Talvez seja preciso, para mergulhar no Eu, quebrar o espelho e a vaga representação que ele produz, é preciso que narciso se afogue na sua imagem; que nesse ato de possuir a si mesmo, destrua a imagem na superfície do lago. É preciso se dar conta do vazio dos olhos que se procuram no espelho. Não há vazio mais enigmático que o dos olhos refletidos que procuram sua alma no espelho. O espelho nos nega a alma ao mesmo tempo em que promete desvelá-la e é por isso, talvez, que ele seja é tão sedutor.
Escrito por Artur Mamed.

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