quinta-feira, 26 de março de 2009






O que há em mim é sobretudo cansaço

Não disto nem daquilo,


Nem sequer de tudo ou de nada:


Cansaço
 assim mesmo, êle mesmo,

Cansaço.


A subtileza das sensações inúteis,


As paixões violentas por coisa nenhuma,


Os
 amôres intensos por o suposto em alguém,

Essas coisas
 tôdas 

Essas
 e o que falta nelas eternamente

Tudo isso faz um cansaço,


Êste
 cansaço,

Cansaço.


Há sem dúvida quem ame o infinito,


Há sem dúvida quem deseje o impossível,


Há sem dúvida quem não queira nada


Três tipos de idealistas, e eu nenhum
 dêles:

Porque eu amo infinitamente o finito,

Porque eu desejo
 impossivelmente o possível,

Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,


Ou até se não puder ser...


E o resultado?


Para eles a vida vivida ou sonhada,


Para eles o sonho sonhado ou vivido,


Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...


Para mim só um grande, um profundo,

E, ah com que felicidade infecunda, cansaço,


Um
 supremíssimo cansaço,

Íssimo,
 íssimo, íssimo,

Cansaço...

Álvaro de Campos

(9-10-1934)

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