domingo, 31 de maio de 2009

Mestre + amigo = parente?


Foi lá, na casa do meu filho Diego, em Campos Novos. Um dia desses. Chimarreávamos. Dentro de casa. Fora, sibilava um ventinho com fio de navalha. Por vezes, garoava. Parecia neve chegando.
Por desfastio, olhávamos velhas fotografias. E outras, nem tanto. Era mais um jeito de entreter conversa, de esperar que o tempo mudasse de cara. A friagem penetrava ossos e almas.
Atentei numa lembrança. Franzi a testa em concentração, fitei minha nora:
— Sinara, deixa ver de novo aquela foto.
— Qual?
— Aquela lá, dos noivos.
Ela passou-me a foto.
— Conhece? - perguntou.
— Não sei. Acho que sim, não sei - disse eu, coçando o queixo.
Ela olhou:
— É a tia Ana.
— Não, ela não. Ele - eu corrigi. E, pensativo: - Eu conheço esse cara.
— Ah! - a Sinara sorriu. - É o marido da tia Ana.
— Só pode - concordei, ironizando. - Pelo menos, parece que estão casando. O nome?
A Sinara ficou um pouco indecisa, titubeou:
— É... deixa ver, é... tio, tio... tio Sírio!
A lembrança estalou:
— Sírio!... Sírio Pos-sen-ti!
— Isso! Tio...
Conheci Sírio Possenti no fim dos anos 70, no Curso de Letras, em Ijuí. Foi meu professor de Lingüística e impressionou-me sempre pela clareza de exposição e segurança de conhecimentos. Sua tranqüilidade e fino senso de humor transformavam os intrincados meandros lingüísticos num prazeroso passeio. Os mistérios da língua viravam brincadeira. Ademais, Sírio Possenti talvez seja a pessoa de mais rápido e compreensivo entendimento que eu conheça. Explico: quando se questionava algo ou algo se explanava, Sírio, de imediato, percebia possibilidades e nuanças explícitas e implícitas, todas, numa instantânea visão global que, na maioria das vezes, o próprio falante sequer imaginava. Um Mestre.
Tornamo-nos amigos. Em 1978, Sírio, junto com o escritor Deonísio da Silva, veio a Roque Gonzales e proferiu palestra que foi um marco. Data de então o início do grande desenvolvimento cultural da cidade, transformando-a em “Capital Missioneira da Literatura”, da Cultura.
Depois, perdemo-nos de vista.
Agora, quando eu menos esperava, o Amigo Sírio envia-me dois livros do Mestre Sírio: “Por Que (Não) Ensinar Gramática na Escola” e “Os Humores da Língua”. Este traz um subtítulo explicativo: “Análises Lingüísticas de Piadas”. Os livros vieram da UNICAMP, São Paulo, onde Possenti leciona.
À primeira vista, para quem não conhece Sírio Possenti e sua clareza expositiva, pode parecer que os livros sejam chatos, difíceis, técnicos. Nada disso! A leitura é gostosa, saborosa. A gente se diverte. E aprende e descobre segredos. São livros que merecem, precisam ser lidos por qualquer pessoa que tenha um mínimo de contato com a palavra e suas formas de uso. E quem não tem?
Comentar os livros, analisá-los? Ah!, não. Essa, não! Abalançar-me ao Mestre?!
Ora, ora, sou amigo do Mestre...
— ... Sírio Possenti.
— Hã ? - fiz eu.
Era minha nora, a Sinara. Perguntei:
— O que foi?
— É o tio Sírio - ela repetiu. - Sírio Possenti, marido da tia Ana.
Ruminei: marido da Ana, que é tia da Sinara, que é esposa do Diego, que é filho da Alaíde, que é esposa... Mestre, Amigo...Parente?!
Pela vidraça da janela, vi um sol medroso espiar por entre nuvens. O tempo clareava.
Remirei a foto, apontei a cara do noivo e comentei:
— É ele, sim. Só que está sem barba; eu o conheci barbudo.
O sol sumiu de novo. Que tempo! O tempo...

Por Nelson Hoffmann

sábado, 30 de maio de 2009

O Guru


"pois queríamos ser épicos heróicos românticos descabelados suicidas, porque era duro lá fora fingir que éramos pessoas como as outras." Caio F. Abreu


quarta-feira, 20 de maio de 2009

O Relógio





O meu relógio
Andava depressa
Marcando o meu tempo de menina

Na adolescência,
O meu tempo de ansiedade e de desejos

Já adulta,
O meu tempo de mulher

Agora, o meu relógio
Anda devagar…
É o tempo da saudade
Que ele insiste em querer marcar!

Bernadete Serpa Lopes

porralouca




brindes


de fúria


aguardente

drinques

de sangue


drugs



[life] é esse


filete


de veneno

que trago

na língua

e guardo

nos dentes



[pus 


à mostra]



banquete


que pulsa

veias

vísceras

carne crua

carniça



loucura seria


bebê-la [vida]

água com açúcar

mastigá-la sopa

[fria de ócio]



sugo & mordo


essa vida

pútrida

antes que ela

[vampira]

me engula

Valéria Tarelho

terça-feira, 12 de maio de 2009

Os Olhos d'água

"Diálogo

— E você, por que desvia o olhar?

(Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarra-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)

— Ah. Porque eu sou tímida."


By: Rita Apoena

sexta-feira, 1 de maio de 2009


Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos - um poço fitando o Céu.



por Bernado Soares