quinta-feira, 4 de junho de 2009

Série de postagens sobre revistas - A Cigarra

A Cigarra surgiu em maio de 1982 por uma necessidade particular de viabilizar a divulgação da minha produção poética. Na época, eu cursava a Faculdade de Letras na Fundação Santo André e, juntamente com outra aluna, Terezinha Sávio, comecei a veicular notícias literárias e poemas dos alunos da Faculdade, através de um pequeno jornal literário alternativo, já denominado A Cigarra, com as características e espírito de um fanzine.
Foram lançados dois números pelo sistema mimeográfico a álcool, em folhas soltas, tamanho ofício. O primeiro número continha 10 páginas, 50 exemplares e o segundo 6 páginas e 100 exemplares. A opção por esse sistema deu-se principalmente pela economia de meios, de acordo com as possibilidades financeiras do momento.
Essa publicação propiciou-me a oportunidade de entrar em contato com vários outros estudantes que, assim como eu, também silenciosamente exerciam a poesia sem, no entanto, possuir meios de divulgá-la.
O nome A Cigarra foi escolhido em decorrência da fábula A Cigarra e a Formiga, bem como pela magia que a cerca e toda a simbologia que envolve o canto, como elemento de sobrevivência, além da possibilidade de propiciar uma contínua reflexão sobre a arte e sua função.
A cigarra na verdade é um inseto que se alimenta das raízes das árvores, vivendo em estado de larva até por 17 anos, para depois emergir sob forma de pseudoninfa, agarrando-se aos troncos, onde muda de pele tornando-se adulta.
A trajetória da revista A Cigarra foi, durante algum tempo, semelhante ao processo evolutivo do inseto que lhe deu o nome, sem nenhum compromisso de periodicidade e também sem vínculos de assinaturas ou outros tipos de colaborações que não fossem espontâneas e recursos próprios.
A partir do terceiro número, passei a utilizar o sistema xerox, o quarto número sai com formato meio ofício, que permaneceu até o número 18. Entretanto, o desejo de ampliar as páginas, usar recursos de cor, reorganizar o espaço e utilizar um maior rigor na seleção do material publicado, sempre esteve presente em meus planos.
Seguindo um plano de evolução, provocado pela necessidade de mais espaço para divulgação de nossos correspondentes, que pelo correio, atingem hoje um número de 800, entre poetas, jornais e revistas alternativas e oficiais.
Em 1994, convidei o poeta e artista gráfico Zhô Bertholini e o artista plástico e designer gráfico João Antônio da Silva Sampaio, para co-editores e, assim A Cigarra passou por mais uma de suas metamorfoses, passando do sistema xerox para off-set em 1995 e de jornal literário alternativo para revista.
Em l997, mudando o seu aspecto visual e conteudístico, a revista atravessou sua mudança mais radical, passando a ser impressa em duas cores, 36 páginas e tiragem de 1.500 exemplares. Com a edição de número 30, a revista passou a publicar também ensaios e crítica literária.
Temos nos mantido no firme propósito de publicar uma revista aberta às várias formas de manifestação e tendências artísticas, principalmente poéticas. A partir do número 19, passamos a utilizar nas capas trabalhos de artistas plástico/gráficos como Constança Lucas, Luiz Sacilotto, Mariano Amaral, Perkins Têh Eme, Sonia Ramos, Paula Caetano, João Suzuki, Renato Brancatelli, Damara Bianconi, Antonio Peticov, Paulo Menten, Guedo Gallet, Ricardo Amadasi além dos próprios editores, buscando assim incorporar ao nosso trabalho mais o elemento visual, em tempos onde a visualidade ocupa lugar importante na comunicação. O design gráfico da revista apresenta páginas arejadas, valorizando textos, poemas visuais e fotos. Publicar menos, com mais qualidade. Diante das transformações e discussões internas entre seus editores, constatou-se a necessidade de dar maior amplitude ao nome, que passa a partir da edição 37 a ser denominada revista A Cigarra, abrindo novas possibilidades de experimentação e busca da poesia em outras manifestações artísticas e sociais. Entre estas manifestações estão a música, fotografia, escultura, graffiti entre outras.
Como vimos, a princípio, o importante para nós era criar um veículo de resistência poética, propiciando espaço aos poetas que circulavam e circulam fora da grande mídia editorial. Não havia uma seleção apurada, o que, por vezes, tornava a leitura um tanto caótica. Após vários questionamentos internos, concluímos a necessidade de atentar para a forma com que estes poemas eram apresentados: a temática e principalmente a singularidade e a qualidade da linguagem, sem privilegiar escolas ou cânones estéticos.
O contato com vários veículos de divulgação poética, existentes no país e no exterior, que propagam uma gama infinita de idéias e linguagens, instigou-nos permanentemente ao questionamento do porquê editar uma revista e o que nela veicular, levando-nos à conclusão que assim procedemos por acreditarmos nesta multidiversidade de linguagens como impulsionadora da motivação criativo/emocional humana.
Para nós, não vale apenas a inspiração se o poeta não tomar para si o ato de escrever como uma condição de ofício, e não o executar com seriedade, percebendo a dimensão do que lhe foi dado a desenvolver; a busca de expressividade, da energia e de um trabalho sério em torno da palavra. Falamos aqui da Poesia como entusiasmo criador, não apenas como um ato de escrever versos. Poesia que busca alimentar o pensamento, construindo uma nova forma de nomear os fenômenos do mundo, um trabalho de descoberta das essências vitais que nos humanizam. “A Poesia, como um modo e não um meio de vida” – assim como disse Décio Pignatari.
Atualmente continuamos exercendo a resistência como veículo de divulgação da Poesia, mas objetivamos que a Revista seja também um suporte para artes plástico/visuais, entendendo que a poesia não se restringe apenas à palavra escrita, sem perder, no entanto a dimensão de sua importância, buscando a qualidade e a contemporaneidade, o que pode ser encontrado não efetivamente em poetas atuais, mas a singularidade que sempre esteve presente em vários momentos da literatura e das artes, no decorrer de toda sua história. Tanto que temos publicado traduções de várias línguas e artigos sobre poetas, os quais consideramos importantes no resgate da memória literária.
A seleção do material publicado encontra alguns obstáculos advindos em primeiro lugar do grande volume de trabalhos recebidos - por cartas e e-mails. Em sua maioria, este material é poético, o que não tem mudado muito no decorrer dos anos, ou seja, poetas escrevendo para poetas. Por outro lado, tem sido fácil perceber que temos um grande número de poetas para pouca poesia.
A Cigarra conta com a presença de Ricardo Amadasi inaugura a capa da edição de nº 42, comemorativa dos 25 anos de atuação literária.
Neste verdadeiro garimpo em busca de qualidade, surge outro problema que é o do espaço, pois, apesar disso, também nos chega muita poesia de qualidade, a qual gostaríamos de divulgar, mas devido à falta de recursos materiais para aumentar a periodicidade da edição, acaba ficando de fora. Contamos agora com o apoio da Editora Komedi que abriga nossa página na internet, www.kplus.com.br, onde podemos veicular parte do material recebido, que é totalmente diferente da revista não virtual.
A Cigarra conta com apoio financeiro através de parcerias, da venda, geralmente mão-a-mão e de recursos próprios dos seus editores. Mantemos, assim, o propósito de não nos vincularmos a formas de patrocínio que venham cercear a liberdade de expressão ou escolha dos trabalhos publicados. A partir do nº 39 passam a assinar a editoria da revista A Cigarra: Jurema Barreto de Souza e Zhô Bertholini.
A revista A Cigarra realiza ainda um trabalho de divulgação da poesia brasileira e difunde o nome da cidade de Santo André, além dos limites nacionais, chegando a vários países, fato que contribuiu para que seus editores fossem convidados para eventos como O Veículo da Poesia-Encontro Internacional de Periódicos Literários, realizado e 1998, em São Paulo, onde a revista A Cigarra figurou entre as 37 mais expressivas publicações literárias ibero-americanas e dos EUA. A Cigarra esteve, e ainda continua, presente em vários congressos, feiras, encontros de escritores e tem sido divulgada em um grande número de jornais e revistas, fazendo parte do acervo de várias bibliotecas por todo o Brasil, obtendo assim o reconhecimento da imprensa alternativa onde começou em formato de fanzine.
A longevidade, 25 anos, dá-se pela capacidade adquirida de nos adaptarmos às condições existentes, procurando criar outras tantas que propiciem a continuidade deste projeto, oferecendo ao público o que consideramos poesia de qualidade e invenção. E provando que santo de casa também faz milagre.

Jurema Barreto de Souza |Zhô Bertholini | Editores

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