quinta-feira, 4 de junho de 2009

Série de postagens sobre revistas - Raiz



Quando fizemos a inscrição na Lei Rouanet do Projeto do Carnaval de Olinda em 2004 - um evento que dirigimos nos últimos 4 anos - fomos chamados pelo MinC porque eles adoraram nossa proposição, sua qualidade de construção e apresentação. Isso nos fez conhecer o embrião do Programa Pontos de Cultura e seu secretário e mentos, o Célio Turino, que tinha uma visão de uma mudança de postura na compreensão do valor da nossa cultura popular. A partir dessas conversas fomos apresentados ao PNUD-ONU (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento), que estava fomentando projetos para duas revistas: uma de economia e outra sobre cultura popular. Mais uma coincidência, eu tinha um projeto sobre uma revista da cultura brasileira colocado na Lei Rouanet. Então nossa contrapartida é abrir espaços na Revista para o MinC e para o PNUD.
A fundação da Revista RAIZ. foi em Outubro de 2005 e sua primeira edição em Dezembro de 2005
A Editora Cultura em Ação tem como missão: “fazer ver e consumir a cultura popular brasileira”. Esses valores permeiam toda a revista e foram os esteios do projeto editorial. Outra abordagem que temos é que o povo e nossa cultura popular têm sido muito mal tratados desde sempre. Para a RAIZ. basta! Procuramos tratar da nossa cultura, de seus artistas e produtores, com o maior carinho possível. Daí nosso projeto editorial e gráfico primarem pelo esmero com forte atenção e investimento para sua melhor concretização. Queremos ser um Canal de propagação dessa cultura tão rica como a nossa e discutir a sua inclusão e participação econômica no contexto atual.
O maior obstáculo é o preconceito. Explícito ou oculto, ele permeia cotidianamente o nosso modo de ser e pensar.
Vencer este preconceito na cabeça do leitor, do jornalista e, muitas vezes, do artista que cresceu em um ambiente marginal, sem dúvida é o grande desafio. A RAIZ. não é uma revista que tenha pena da condição do artista ou do artesão popular, pois para nós seu valor é imenso e dai nossa missão é revelar toda a arte contida nessas obra tão grandiosamente populares.
Daí temos mais percalços pela frente. A dificuldade de ser único. É difícil acreditar que somente um está certo e todos estão errados. Temos as vantagens e os problemas de ser pioneiro. A segunda dificuldade é a viabilização comercial da Revista, até por decorrência da primeira. As empresas, embora apresentem discursos cada vez mais sintonizados com um consumo responsável e uma postura social cada vez mais atuante, estão ai para dar lucro e cumprir suas metas comerciais. O processo de convencimento delas é um trabalho evangelizador que fazemos. Já deu resultado no Carnaval de Olinda, que hoje conta com empresas anunciantes fixas e muitos novos entrantes. Finalmente encontrar a equipe certa para as tarefas, que são inéditas e necessitam muitas vezes de formação intelectual clássica e acadêmica, é um processo penoso. Principalmente na distinção cultura popular e cultura de massas. São fronteiras tênues, mas que tem impactos absolutamente distintos e necessitam de uma grande compreensão por parte do formulador.


Nossas conquistas são enormes. Fico lisonjeado, por exemplo, com a audiência que temos em nosso Portal Internet (www.revistaraiz.com.br), são 60mil usuários únicos todo mês, consultando mais de 5 páginas com tempo médio de navegação de 15 minutos. Vendemos até hoje as revistas já lançadas com pedidos de, absolutamente, todo o país. Nosso mailing conta com uma variação de CEPs gigantesca. Vejo os materiais publicados com o tema da Arte Popular em edições caprichosas, CDs e DVDs com qualidade técnica impecável. Enfim, diariamente chegam inúmeras pautas e lançamentos em nossa redação, somos convidados para inúmeros festivais e encontros. A RAIZ. é hoje uma canal vertical sobre a nossa cultura mais genuína.
O preconceito ainda é a grande resistência. Como já falado, ele foi incorporado em nosso modus operandi e os processos de mudança cultural são extensos. O próprio fato da baixíssima visibilidade emprestada para nossa cultura popular é um demonstrativo claro desse estigma operando.
Os planos são no sentido de voltar para as bancas de jornal, pois sabemos da importância disso para as pretensões alavancadoras da Cultura do Brasil. Mas, a Internet tem se revelado uma grande oportunidade e aonde a RAIZ. é percebida como canal do artista popular, da qualidade, da beleza estética, das raízes brasileiras, da nossa alegria e jeito de viver. Na Internet vamos acentuar o caráter multimídia da nossa abordagem com muito vídeo, áudio e interações. Já temos o projeto desenhado e estamos na fase de sua viabilização.
Nossa equipe é um dos grandes tesouros que formamos. Como dissemos, pautar e dissecar a cultura popular brasileira não é para iniciantes, parafraseando o Tom Jobim. Temos o Ricardo Soares, conhecido jornalista e escritor como editor. A Thereza Dantas como editora do Portal RAIZ. A preciosa colaboração de nossos blogueiros (Eliane Potiguara - nosso canal com a temática Indígena; Lara Linhalis Guimarães - contando da nossa cultura em Minas Gerais; Adriana Crisanto Monteiro - direto da Paraíba; Alessandro Buzo - das periferias; Priscila Geha - com as melhores entrevistas da MPB; José de Oliveira Santos - Professor de História e Educador Popular em Sergipe; Luiz Elias, Pedro Nabuco, Sylvestre Campe e Mari Baiocchi dos quilombos goianos; Nice Lima - radialista da Universidade Federal de Pernambuco; Idéia Forte - Coletivo criativo, voltado à produção, discussão e difusão do Design Forte; TT Catalão - poeta, ativista cultura e jornalista brasiliense) e de nossos jornalistas e colaboradores Fábio Rayel, Josie Morais, Nice Lima, entre outros.
Historicamente tem sido o diálogo profundo com nossa identidade, a alavanca dos grandes processos criativos da nossa história. A Semana de 22 com o Barroco Mineiro, Villa Lobos com as cantigas tradicionais e o chorinho, a bossa-nova com jazz e samba, a Tropicália misturando chiclete com banana, o mangue beat trazendo para a MPB a batida seca e ritmada do maracatu. E poderíamos falar do Cinema Novo, da literatura de Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Graciliano Ramos, Ariano Suassuna e tantos outros. Então porque esse certo desdém com a nossa cultura? Porque o preconceito? É tão cotidiano que a gente nem percebe a beleza?
Ao contrário de outros povos como o europeu ou o havaiano, por exemplo, nossa cultura não foi folclorizada na acepção do termo. Pelo contrário, nossa capacidade antropofágica, oriunda de nossa formação mestiça, permite visualizar uma produção cultural particular e inovadora. O maracatu se funde com o rock, os santeiros se fundem com o cartoon, as danças juntam áfrica com hip hop e assim vamos.
Octavio Paz diz que o trabalho do artesão nos ensina a morrer, assim como nos ensina a viver. Pois o objeto útil, belo e feito a mão é único, dura muito tempo, mas também envelhece, assim como a vida. A RAIZ quer provocar cada um que queira viver a vida da cultura popular brasileira, que é a nossa vida, o nosso jeitinho brasileiro que tentam taxar de subalterno e mesquinho, mas que é comunitário, criativo, divertido e vivo, como a vida.

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