sexta-feira, 31 de julho de 2009


Meus dias são sempre como uma véspera de partida. Movimento-me entre as pontas como quem sabe que daqui a pouco já não vai estar presente. As malas estão prontas, as despedidas foram feitas. Caminhando de um lado para o outro na plataforma da estação, só me resta olhar as coisas lerdo e torvo, sem nenhuma emoção, nenhuma vontade de ficar. As janelas abrem para fora, os bancos parecem-se aos bancos e os vasos foram feitos para se colocar flores em seu oco. As coisas todas parecem-se a si próprias. Nada modificará o estar das coisas, e minha partida ontem, hoje ou amanhã não mudará coisa alguma. Cada coisa se parece exatamente com a coisa que ela é. Assim, eu próprio, me parecendo a mim mesmo, de um lado para o outro, entre cigarros sem sabor, jornais sangrentos e a certeza de que o único fato que poderia deter minha partida seria a tua aceitação deste convite: não queres me ajudar a matá-lo?

Autor: Caio F. Abreu

terça-feira, 28 de julho de 2009

Confissão

esperando pela morte
como um gato
que vai pular
na cama

sinto muita pena de
minha mulher

ela vai ver este
corpo
rijo e
branco

vai sacudi-lo e
talvez
sacudi-lo de novo:

“Henry!”

e Henry não vai
responder.

não é minha morte que me
preocupa, é minha mulher
deixada sozinha com este monte
de coisa
nenhuma.

no entanto,
eu quero que ela
saiba
que dormir
todas as noites
a seu lado

e mesmo as
discussões mais banais
eram coisas
realmente esplêndidas

e as palavras
difíceis
que sempre tive medo de
dizer
podem agora
ser ditas:

eu
te amo.

Autor:
Charles Bukowski
Você que, desavisadamente,
como quem escorrega numa casca de banana e cai,
se encontra aqui, defronte a mim,
a mente e o coração vazios.

Sei o quanto isso te amola.
Sei também quanto teu tempo é precioso.
Mas espera um pouquinho.
O soneto já vai acabar.

Estamos entrando na reta final.
Viu como nada disso te faz mal ?
Creia em mim.

Estamos nos últimos momentos.
Não quero dizer coisa alguma
senão "muito obrigado, até nunca mais ".


Autor: Rogério Skylab
A poética do arroto consiste
numa massa de ar condensada.
De dentro pra fora, explode-se.
De repente, desmancha-se.

Então, a gente sente um alívio imediato.
Como se flutuássemos, a gente
nem mesmo repara. E continua.
Incansável, ao sabor dos dias.

E vamos carregando nosso fardo,
pelo qual muitos se preocuparam
e construíram teorias interessantíssimas.

Esse arroto, no entanto, eu traduzo.
Hieroglifo ? Pós-modernismo ?
Esse arroto significa poesia

Autor: Rogério Skylab

Um poema de amor



todas as mulheres
todos os beijos delas as
formas variadas como amam e
falam e carecem.

suas orelhas elas todas têm
orelhas e
gargantas e vestidos
e sapatos e
automóveis e ex-
maridos.

principalmente
as mulheres são muito
quentes elas me lembram a
torrada amanteigada com a manteiga
derretida
nela.

há uma aparência
no olho: elas foram
tomadas, foram
enganadas. não sei mesmo o que
fazer por
elas.

sou
um bom cozinheiro, um bom
ouvinte
mas nunca aprendi a
dançar — eu estava ocupado
com coisas maiores.

mas gostei das camas variadas
lá delas
fumar um cigarro
olhando pro teto. não fui nocivo nem
desonesto. só um
aprendiz.

sei que todas têm pés e cruzam
descalças pelo assoalho
enquanto observo suas tímidas bundas na
penumbra. sei que gostam de mim algumas até
me amam
mas eu amo só umas
poucas.

algumas me dão laranjas e pílulas de vitaminas;
outras falam mansamente da
infância e pais e
paisagens; algumas são quase
malucas mas nenhuma delas é
desprovida de sentido; algumas amam
bem, outras nem
tanto; as melhores no sexo nem sempre
são as melhores em
outras coisas; todas têm limites como eu tenho
limites e nos aprendemos
rapidamente.


todas as mulheres todas as
mulheres todos os
quartos de dormir
os tapetes as
fotos as
cortinas, tudo mais ou menos
como uma igreja só
raramente se ouve
uma risada.

essas orelhas esses
braços esses
cotovelos esses olhos
olhando, o afeto e a
carência me
sustentaram, me
sustentaram.



Autor: Charles Bukowski

Poema nos meus 43 anos



Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida —
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.

... de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...

e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.

Autor:
Charles Bukowski

Conversa às Três e Meia da Madrugada



às três e meia da madrugada
a porta se abre
e há passos na entrada
que trazem um corpo,
e uma batida
e você repousa a cerveja
e vai ver quem é.

com os diabos, ela diz,
você não dorme nunca?

e ela entra
com o cabelo nos rolinhos
e num robe de seda
estampado de coelho e passarinho

e ela trouxe a sua própria garrafa
à qual você gloriosamente acrescenta
2 copos;
o marido, ela diz, está na Flórida
e a irmã manda dinheiro e vestidos para ela,
e ela tem estado procurando emprego
nos últimos 32 dias.

você diz a ela
que é um cambista de jóquei e
um compositor de jazz e canções românticas,
e depois de uns dois copos
ela não se preocupa com cobrir
as pernas
com a beira do robe
que está sempre caindo.

não são pernas nada feias,
na verdade são pernas ótimas,
e logo você está beijando uma
cabeça cheia de rolinhos,

e os coelhos estão começando a
piscar, e a Flórida é longe, e ela diz
que não somos realmente estranhos
porque ela tem me visto na entrada.

e finalmente
há muito pouca coisa
para dizer.

Autor:Charles Bukowski

sábado, 25 de julho de 2009

FILME-INTERVALO

O retrato recriado
Esvaziou-se na espera
No fôlego preso
Do povo.
O instantâneo prolongado é o
“Cauchemar” que nos prende no
Tempo dilatado e asfixiante...

Matei o homem
Guardei sua foto
No bolso do coração
E sorri aliviada.
Autor: Olinda Maria

Alegria cansada



Hoje não quero falar de dor

nem de amor

não quero pensamentos

nem palavras

somente o silêncio

desta paz que me invade

somente a preguiça

deste descanso esperado.

Hoje não quero andar

não quero correr

não quero pensar!

Meus movimentos são letárgicos

meu coração se arrasta, lento.

Não é tristeza

não é saudade.

Apenas uma alegria cansada

precisando cochilar.


Autor:
Valéria Nogueira Eik

Eu posso


Eu posso
sei que posso
andar lado a lado com meus passos
e seguir à frente dos meus sonhos
pois, quando eles me alcançarem
lá estarei eu
plena de cores e espaços
mostrando o troféu da realidade
erguendo a taça desse compasso
simples amadurecimento
de quem entende que pouco sabe
de quem faz ao invés de esperar
de quem vai ao invés de ficar.

Sim, eu sei que posso
andar pela vida
descalça e nua de tormentos
sem medo dos detritos
sem temor da loucura
pois, sendo quem sou
livre pensadora, somente
dou asas às palavras
esculpindo meus desejos
realizados um a um
simplesmente porque eu vou
porque eu quero
porque eu sou.


Autor: Valéria Nogueira Eik

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sangue e Ópio





Tu trouxeste nos lábios um punhado
de sangue, feito de volúpias loucas.
E o sangue nos meus lábios derramado,
sentimos gosto de ópio em nossas bocas.
Bebe de um sorvo as minhas queixas roucas!
Mistura o teu pecado ao meu pecado!
E depois, muitas horas serão poucas.
E tanto, tanto sangue derramado...
Os teus beijos ateus vão-se, deixando
gosto de tua carne em minha boca
e um gosto de ópio me narcotizando.
E tu hás de sentir, quando me deixas,
uma vontade triste de ser louca,
pois bebeste tristeza em minhas queixas...







Autor: Berilo Wanderley




Vestido


O que escondo no bolso do vestido
não é para ser visto por qualquer
um que ambicione compreender
ou que às vezes cobice esta mulher.

O que guardo no bolso do vestido
e que escondo assim, ciumentamente,
é como um terço de vidro
de contas incandescentes
que se toca com as pontas dos dedos
nos momentos de perigo,
para afastar o medo;

é como um rosário antigo
que um fiel fecha na palma da mão
para fazer fugir a tentação
quando um terremoto lhe ameaça a fé:

Jesus, Maria, José,

que meu micro-vestido esvoaçante
não vos ofenda em vão os olhos castos;
que minhas sandálias de prata
não me falhem nos instantes de cansaço;
que a tiara de princesa que não uso
não se perca entre os dedos dos incautos,
os sonhos dos reclusos;
que eu nunca quebre um salto;
que não me falta jamais um parafuso
(não que se note);
que com sorte, cautela e canja
eu um dia me transforme numa anja
e lá do alto
repique os sinos para congregar os loucos, os aflitos,
os que vos chamam aos gritos,
os que nunca têm respostas.

Mas que mantenha nos bolsos,
mas que mantenha nos olhos
um breve contra os olhados
bons e maus;
que continuem assim os meus vestidos:
precipitados nas costas,
bem curtos, desaforados,
mal-comportados, bonitos.

O que inda escondo nos bolsos
e murmuro nos instantes adversos
é um verso medieval
escrito às pressas
em dialeto provençal, é claro,
por um bardo meio analfabeto
com caracteres rabiscados, inseguros;
é uma bola de cristal
que não deixa prever o futuro;
é uma invocação, um cântico,
escapulário,
um patuá romântico
cheio de pétalas azuis,

– para me proteger das bruxas que não fui;
dos passes
que jamais permiti que me encantassem;
da maldição
que não veio dos meus sins, mas sim de um não
– de um único não,
uma bobagem,
que não daria jamais
um furo de reportagem.

Autor: Betty Vidigal

sexta-feira, 17 de julho de 2009


    Chove. Que fiz eu da vida? Fiz o que ela fez de mim... De pensada, mal vivida... Triste de quem é assim! Numa angústia sem remédio Tenho febre na alma, e, ao ser, Tenho saudade, entre o tédio, Só do que nunca quis ter... Quem eu pudera ter sido, Que é dele? Entre ódios pequenos De mim, 'stou de mim partido. Se ao menos chovesse menos!
    Autor: Fernando Pessoa, 23-10-1931

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Um dia


Um dia
Maria das Dores
chorou muito.
Então amanhece.
Ela precisava apenas
de alguns dedos de amor.
E o amor chegou.
Maria das Dores
nunca mais chorou.











Autor: Zanoto

terça-feira, 14 de julho de 2009

Medo da Eternidade





Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.
Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.
- Não acaba nunca, e pronto.
- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.
- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
- Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.
- Acabou-se o docinho. E agora?
- Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.
- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!
- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.


Autor: Clarice Lispector.


domingo, 12 de julho de 2009

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

Autor: José Saramago

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A Flauta-Vértebra


A todas vocês,
que eu amei e que eu amo,
ícones guardados num coração-caverna,
como quem num banquete ergue a taça e
[ celebra,
repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:
seria melhor talvez
pôr-me o ponto final de um balaço.
Em todo caso
eu
hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!
Convoca aos salões do cérebro
um
renque inumerável de amadas.
Verte o riso de pupila em pupila,
veste a noite de núpcias passadas.
De corpo a corpo verta a alegria.
esta noite ficará na História.
Hoje executarei meus versos
na flauta de minhas próprias vértebras.

Autor: Maiakóvski


Essa postagem é dedicada à pessoa que faz eu me sentir amada e desejada todos os dias, horas, minutos e segundos da minha vida. É o que eu diria a ele se o Maiakóvski não tivesse criado antes.
...Para Nacizo.

Dedução

Não acabarão nunca com o amor,
nem as rusgas,
nem a distância.
Está provado,
pensado,
verificado.
Aqui levanto solene
minha estrofe de mil dedos
e faço o juramento:
Amo
firme,
fiel
e verdadeiramente.
Maiakóvski

Fotografia:M. Jesenska

Teus olhos não ficam bem senão em mim
Que desato o bouquet de tua angústia
Neste tempo de espera.
Sofres um solidão recortada
Na tarde de tuas pálpebras
Absorto no retorno das nuvens
Magoadas de outros climas.
Só eu sei, silêncio de jade,
Flor da manha, Deus triste,
O que te consola do vento.
Só eu sei que não sabes
Eximir-te do enfado,
Da noite, das bocas.

Autor: Roberto Piva
Ode ao Amor do Mar


Gosto do mar
pelo absurdo
sensual
de suas sereias

pelo encrespar
do vento
no ventre
de peixes
abomináveis

pelo lésbico
despudor
das ondas
violentando
as águas

gosto do mar
absorvendo
sol
na máscara
de bronze
dos pescadores

gosto do mar
mistério azul
das mulheres-marinhas
visivelmente estranguladas

gosto do mar
concupiscente
e paradoxal
em seus horrores.
Autor: Barros Pinho


Fotografia: Thiago Antunes

A um mendigo
Hoje eu senti a dor que abrasa os entes
Exposta em face exangue e mui sofrida;
Eu vi a dor que dilacera a vida,
Olhar de angústia, magras mãos trementes.

Vi de perto a miséria dos viventes
Sem pão, sem teto; alma combalida
A transportar a vida mal vivida
Dos desgraçados. Miseráveis gentes!

Acercou-se de mim. Pobre mendigo!
Mão estendida, triste olhar pedinte
Como se nem mais Deus lhe fosse ouvinte.

Desventura voz! Eu não consigo
Esquecê-la jamais. Voz que consome:
- Uma esmola, senhor, pois tenho fome...




Autor: Barros Alves

domingo, 5 de julho de 2009