quarta-feira, 30 de setembro de 2009


De alguma forma, todos os dias alguém bate à nossa porta e nos
convida a desistir. Não desistimos de teima quem sabe até meio burra.
Caio F.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Rimbau e Jim [Parte 1]





Poucos devem entender, mas eu não ousaria fazer um texto falando sobre Jim Morrison e Rimbaud, para uns a admiração cria uma intimidade com o ídolo, já no meu caso é o contrario, esse elo é frágil, a intimidade é transformada em respeito e eu não ousaria escrever delimitando os pensamentos deles, ou escrever sobre o que eles pensavam e no que se baseia as obras. De certa forma acredito que não existe maneira melhor de conhecer o artista se não for conhecer o material que ele deixou...

Talvez seja por isso eu não ouso ouvir The Doors com alguém, a música é o momento de ligação entre o artista e nós,quando nós vamos além, alguns encontram Deus na religião,outros encontram nas ciências,na Natureza,eu encontro Deus na música,ou seja,é algo intimo de mais para ser exposto por aí.
(Concordam?)
Encontrei um homem que pensa diferente, esse é Cláudio Vigo,que escreveu um texto sobre Jim,Rimbaud e Henry Mille.Deixo aqui o texto dele pra vocês. : )

É triste, mas verdadeiro: a grande maioria das pessoas passa por esta vida imersa na multidão, cumprindo prazos, pagando contas, morrendo de medo do futuro e idealizando um passado remoto que é na maioria das vezes uma montoeira de seqüelas. Outros (poucos, loucos e raros) desafiam, desafinam este coro de contentes descontentes. Jean Arthur Rimbaud no séc XIX e Jim Morrison no séc XX, entre outras almas solitárias e radicais, chegaram na beira do abismo e resolveram experimentar que gosto tinha o pulo.
Pagaram caro, a ousadia de queimar em pouco tempo todos os cartuchos. Algumas coincidências, nestes percursos, são fascinantes. Anjos caídos de um inferno particular apontaram para o futuro e tocaram (sem a mínima cerimônia) os atalhos do absoluto.

Wallace Fowlie é atualmente um homem de muita idade. Nascido em 1918 é professor Emérito de Literatura Francesa da cátedra James.B. Duke da Duke University. É autor e tradutor de mais de trinta livros, dentre eles a Obra Completa de Rimbaud vertida para o inglês. Um erudito especializado em Proust, Claudel, Stendhal, Dante etc, e que nunca tinha tido sequer a curiosidade de escutar um disco de Rock'N'Roll até que recebeu uma carta curta que o deixou um tanto surpreendido: "Caro Wallace Fowlie, simplesmente queria agradecer-lhe pela tradução de Rimbaud. Eu precisava porque não leio francês tão facilmente(...) Sou cantor de Rock e seu livro me acompanha nas turnês. Jim Morrison".

No dia seguinte perguntou a seus alunos se alguém ali conhecia este cantor, para ele totalmente anônimo. A turma ficou muda e perplexa com tamanha ignorância. Ele então resolveu checar e arrumou os discos do The Doors para conferir. O fascínio com o radicalismo das letras de Morrison e a idolatria de seus alunos o transformaram em um inesperado admirador e daí em diante um estudioso de mais um poeta, mais um outsider que ao invés de ficar restrito aos livros e ao público leitor de poesia era um popstar de primeira grandeza, um ídolo de multidões ensandecidas que sonhava em ter sua obra literária reconhecida e que assim como Rimbaud dentro de muito pouco tempo ia chegar em um beco sem saída e pular fora (drop out) de tudo.

"O poeta torna-se vidente através de um longo desregramento de todos os sentidos". Isto parece saído da boca de Morrison, mas foi escrito por Rimbaud quase um século antes e estas afinidades estão bem claras no livro lançado agora aqui no Brasil chamado Rimbaud e Jim Morrison, de Wallace Fowlie (Ed Campus -2004), onde o autor faz um paralelo bastante interessante e instigante sobre as coincidências de vida e obra destes dois radicais do espírito. Bem didático e, claro, não traz muitas novidades para quem está acostumado com as duas obras, mas serve como excelente introdução para vôos maiores.

Henry Miller, mais um destes loucos radicais de seu tempo, também lhe dedicou um pequeno, mas excelente livro - A Hora dos Assassinos - um estudo sobre Rimbaud (L&PM -2004), onde faz um apanhado de sua experiência pessoal à bordo das viagens do enfant terrible do nomadismo da alma. "E dizer que foi um mero garoto que abalou os ouvidos do mundo! A aparição de Rimbaud sobre a terra não tem qualquer coisa de simplesmente milagrosa, como o despertar de Gautama ou a aceitação da cruz por Cristo ou a incrível libertação de Joana Darc? Interprete-se a sua obra como se preferir, explique-se a sua vida como se quiser, a verdade é que não há como lhe reduzir a importância. O futuro, mesmo que não exista, lhe pertence".
Pois Jim Morrison, a exemplo de Rimbaud, também é uma lenda maior do que si mesmo e foi leitor voraz de toda sua obra, assim como desta pequena jóia escrita por Henry Miller. Como não imaginar o fascínio que o radicalismo e principalmente o exílio de Rimbaud traziam a Morrison? Muitos de seus fãs mais exaltados crêem com convicção que o Rei Lagarto ainda está vivo em alguma África distante livre do desespero da disponibilidade de se pôr à beira do abismo, dos transtornos da criatividade e do desregramento de todos os sentidos. As portas da percepção quando abertas podem se tornar insuportáveis e os analgésicos para isto podem incluir as drogas ou simplesmente o abandono, seja dos atalhos escritos e descritos ou mesmo da vida, do inferno em que se meteu.




Como diz Fowlie: "Rimbaud usou a palavra inferno em sentido Teológico. Ele só queria passar uma temporada ali, porque sabia que no inferno não se tem energia para nenhuma mudança positiva. Jim Morrison entenderia o significado da palavra inferno, muito embora não a tenha usado. Ele foi um exemplo deste dom de mudança que os jovens possuem. E possuem também um olhar mais aguçado do que o dos mais velhos para o que se encontra apodrecido na sociedade e, por isso, sentem a urgência de purifica-la atacando a chaga da apatia, que impede as mudanças e o desenvolvimento de uma personalidade mais sã".
Conheci o The Doors no final dos anos 70, época em que estavam praticamente esquecidos. Era relativamente pouco comum encontrar um disco deles e mais raro ainda quem gostasse. Fiquei bastante impressionado, mas entendi muito pouco o que aquilo tudo representava. Era mais uma banda de rock onde o cantor havia morrido de overdose e só. Com o passar do tempo e os interesses se modificando, me caiu nas mãos uma tradução de Uma temporada no Inferno, Iluminações e do Barco Bêbado de Rimbaud. O impacto destas leituras foi imediato e aquelas imagens um tanto desconexas e dilaceradas foram ficando como se fossem uma tatuagem interna. O fascínio de saber que aquilo tudo tinha sido produzido por um moleque um pouco mais novo do que eu e que havia abandonado tudo me intrigava como me fascina até hoje. 


Rimbaud e Jim. [Parte 2]

Os anos 80 foram pródigos para o culto ao mito Jim Morrison. O renascimento da literatura beat, a inclusão na trilha sonora do Apocalipse Now de Coppola e a regravação de suas músicas por ídolos da época como Billy Idol e Echo & The Bunnymen foram como um rastilho de pólvora e um fósforo. Ao perceber as influências de Niezstche, Huxley, Blake, etc, e principalmente ao conhecer seus poemas no disco póstumo An American Prayer me tornei um fã exaltado. Em pouco tempo estavam disponíveis e relançados todos seus discos e inúmeros livros, biografias e a tradução de seus poemas. O filme de Oliver Stone só fez expandir esta idolatria pelos quatro cantos do mundo. As romarias o seu túmulo no Pere-Lachaise demonstram isso. Seus discos vendem bastante ainda. Jim Morrison e suas calças de couro se transformaram em um ícone da rebeldia juvenil, assim como os pôsteres de Lennon, Guevara, James Dean e Marilyn Monroe. Uma bela estampa para camiseta. Vejam só a ironia terrível do destino. O cordeiro que se imolou em busca do mel escondido atrás do arco íris, que se jogou de frente contra todos os mercantilismos, se tornou depois de morto uma mercadoria altamente rentável.
Cadáver insepulto. seja pelos chamados da galera que joga vinho e baseados em sua última morada como no renascimento da banda (cover de si mesma) que Manzarek e Krieger resolveram montar com Ian Astbury emulando uma espécie de fantasma da ópera. Sei que passaram por aqui, mas resolvi não conferir, creio que fosse me decepcionar.
Rimbaud foi para Morrison uma imagem, uma meta recorrente, talvez Paris tenha sido a sua África, um porto distante, o preparo para um salto que o faria sair da obra e cair na vida. Parece que não deu tempo.


"O tédio não é mais meu amor. O furor, a devassidão, a loucura, dos que conheço todos os impulsos e calamidades - Todo meu fardo foi arriado. Apreciemos sem vertigens a extensão de minha inocência".


Rimbaud





"Já não temos dançarinos, os possessos.
A clivagem dos homens em atores e espectadores
É o fato crucial do nosso tempo. Obcecam-nos
Heróis que por nós vivem e nós punimos.
Ah! Se todas as rádios e televisões fossem
Desligadas, e todos os livros e quadros
Queimados já, todas as salas de espetáculos encerradas...
Essas artes de viver por procuração...
Contentamo-nos com a oferta, na nossa procura de
Sensações.Deu-se a metamorfose do corpo enlouquecido
Pela dança nas colinas num par de olhos
Rasgando a treva.

Jim Morrison


Sedução dos Zumbis Cibernéticos








por Hakim Bey
(Para Konrad e Marie)


Para começar, ajudaria se pudéssemos falar sobre redes no lugar de A Rede (net). Apenas os mais extrópicos crentes nA Net ainda sonham com ela como solução final. Pensadores mais realistas rejeitaram a cyber-soteriologia, mas aceitam a Rede como ferramenta (ou arma) viável. Eles concordariam que outras redes devem ser configuradas e mantidas simultaneamente com "a" Rede - de outra maneira, ela se torna apenas outro meio de alienação, mais envolvente que a TV, talvez, mas de qualquer maneira mais total em sua hipnose.


As outras redes obviamente incluem - primeira e principalmente - padrões de convívio e comunicatividade. Empresto este termo da frenologia do século XIX - aparentemente existe um calombo de comunicatividade em algum lugar no crânio - mas eu o uso para significar algo como o "diálogo" de Bakhtin transposto para o registro do social; onde o convívio implica presença física, a comunicatividade pode também incluir outras mídias. Mas - como o hermetismo nos ensina - o ato positivo do significado comunicativo, seja cara-a-cara (mesmo que sem fala), ou mediado simbolicamente (por texto, imagem, etc.), é sempre confrontado por sua negatividade. Nem toda a "comunicação" comunica, mapa não é território, e assim vai. "Programas interativos" não têm o menor sentido entre seres vivos, mas, de fato, nenhum meio é privilegiado ou completamente aberto. Como Blake poderia dizer, cada meio tem a sua forma e o seu espectro.


O que precisamos, então, é uma "análise espectral" Blakeana da Net. Uma "análise Fourierista" também poderia ser útil (não Fourier o matemático, mas Fourier o Socialista Utópico). Mas estes filósofos eram verdadeiros hermeticistas, enquanto nós podemos apenas colar alguns cacos sobre o que quer que seja.


A questão implícita: - a Net vai além do propósito de comunicatividade, e pode ser usada como ferramenta para "maximizar o potencial para emergir" de situações de convívio? Ou existe um "efeito contraproducente paradoxal" (como Ilich diria)? Em outras palavras: a sociologia das instituições (e.g. educação, medicina) chega à rigidez monopolística e começa a produzir o oposto do efeito pretendido (a educação estupidifica, a medicina faz adoecer). A mídia também pode ser analisada desta maneira. A mídia de massa, considerada como entidade paradoxal, se aproximou de um limite de enclausuramento total pela imagem - uma crise da estase da imagem - e de completo desaparecimento da comunicatividade. O que se considerava que tornava a Net tão singular eram os seus padrões "de-muitos-para-muitos", tendo como implicação a possibilidade de uma democracia popular eletrônica. A Net é uma instituição, pelo menos no sentido lato da palavra. Ela serve ao seu propósito "original", ou há um efeito contraproducente paradoxal?


Outro padrão original dentro da Net é a sua descentralidade (sua herança "militar"); isto lançou a Net numa espécie de guerra com os governos. A Net "cruza fronteiras" como um vírus. Mas nisto a Net partilha certas qualidades com, digamos, as corporações transnacionais ("zaibatsus") - e com o próprio Capital nômade. O "nomadismo" tem sua própria forma e espectro. Como a Nação Islâmica dos Cinco Porcento coloca, "nem todo irmão é um irmão". A molecularidade é uma tática que pode ser usada contra e a favor da nossa autonomia. Estar informado compensa. E podemos ter certeza que a Inteligência Global paga bem por sua informação; - certamente a Net já está completamente penetrada pela vigilância... cada bit de um email é um cartão postal para Deus.


Os nossos exemplos favoritos do uso imaginativo e insurreicionário da Net - o Caso McCalúnia, o Caso da Cientologia, e acima de tudo os Zapatistas - provam que a estrutura descentralizada de muitos-para-muitos tem potencial de verdade [o McDonalds ganhou a batalha mas parece estar perdendo a guerra - as franquias caíram em 50%!]. Ludditas que negam isto simplesmente estão se fazendo parecer desinformados - e muito mal dispostos na direção das boas causas. Os Ludditas originais não eram quebradores de máquina indiscriminados - eles tencionavam defender seus teares manuais e o trabalho em casa contra a mecanização e centralização nas fábricas. Tudo depende da situação, e a tecnologia é apenas um fator numa situação complexa e superestimada. Exatamente o que é que precisa ser esmagado?


O Capital Global abraça abertamente a Net por que a Net parece ter a mesma estrutura do Capital Global. Ele anuncia a Net como O Futuro Agora, e protege os cidadãos virtuais desses governos velhos e maus. Afinal, a Net é mesmo o paradigma de um Mercado Livre, não? O sonho de um Libertário. Mas secretamente o Capital Global [perdoem pela falácia patética - puxa, eu não consigo parar de reificar o Capital...]... secretamente, o Capital Global deve estar doente de preocupação. Bilhões de dólares de investimento foram tragados pela Net, mas a Net parece agir como um astro eclipsado: - há um efeito de penumbra, mas o planeta está negro. Talvez um buraco negro. Afinal, Hawking provou que mesmo buracos negros produzem uma quantidade mínima de energia - alguns milhões de pratas, talvez. Mas essencialmente não há dinheiro circulando na Net, nem dinheiro saindo dela. Parece que a Net pode agir metaforicamente como uma "feira livre" até certo ponto (possivelmente bem mais do que já age) - mas falhou em se desenvolver como um Grande Mercado. A WWW não parece estar ajudando muito neste ponto. A "Realidade Virtual" começa a se parecer com mais um futuro perdido. IntraNets, transmissão personalizada de dados e "televisão interativa" são as estratégias propostas pelos Zaibatsus para colonizar o que resta da Net. O e-cash não parece estar dando conta.


Enquanto isso, a Net toma o aspecto não apenas de uma feira livre sem corpo, mas também de uma favela psíquica. Avatares predatórios - desinformacionistas - dados sobre trabalho escravo nas prisões americanas - cyber-estupro (violação do corpo de dados) - vigilância invisível - ondas de pânico (Pedofilia, Nazistas-na-Net, etc) - invasões massivas de privacidade - propaganda - todo tipo de poluição psíquica. Sem mencionar a possibilidade de lavagem cerebral biônica, sídrome do túnel carpal, e a sinistra presença em cinza e verde das próprias máquinas, como nos cenários dos velhos filmes de ficcção científica (o futuro como design pobre).


De fato, como Gibson previu, a Net já está virtualmente assombrada. Cemitérios na web para cyber-mascotes mortos - obituários falsos - Tim Leary ainda mandando mensagens pessoais - mestres ascensos do "Heaven's Gate" - sem mencionar a já vasta arqueologia da própria Net, os níveis da Arpa, velhas BBSs, linguagens esquecidas, páginas da web abandonadas. De fato, como alguém disse na última conferência da NETTIME em Liubliana, a Net já se tornou um tipo de ruína romântica. E aqui, no nível mais "espectral" da nossa análise, repentinamente a Net começa a parecer... interessante de novo. Uma pitada de horror gótico. A sedução dos Zumbis Cibernéticos. Fin-de-millenium, flores de estufa, láudano.


Enfim.


Vivemos num país em que 1% da população controla metade do dinheiro - num mundo onde menos que 400 pessoas controlam metade do dinheiro - onde 94.2% de todo o dinheiro se refere apenas a dinheiro, não a produção de qualquer tipo (exceto de dinheiro); - um país com a maior população carcerária per capita do mundo, onde "segurança" é a única indústria que cresce (fora a do entretenimento), onde uma insana guerra às drogas e ao meio-ambiente é concebida como a última função válida do governo; - um mundo de ecocídio, agrobusiness, desflorestamento, assassinato de populações indígenas, bioengenharia, trabalho forçado - um mundo construído na afirmação de que o lucro máximo para 500 empresas é o melhor plano para toda a humanidade - um mundo em que a imagem total absorveu e sufocou as vozes e mentes de cada falante - em que a imagem da troca tomou o lugar de todas as relações humanas.


Em vez de resmungar clichês liberais sobre tudo isto - ou levantar a perturbadora questão da "ética" - permita-me simplesmente comentar como um anarquista Stirneriano (um ponto de vista que ainda acho útil depois de todos estes anos): - presumindo que o mundo seja a minha ostra, eu estou em guerra pessoal contra todos os "fatos" acima, por que eles violam os meus desejos e impedem os meus prazeres. Portanto, procuro aliança como outros indivíduos (numa "união de independentes") que partilham de minhas metas. Para os Stirnerianos de esquerda, a tática favorita sempre foi a Greve Geral (o mito Soreliano). Em resposta ao Capital Global nós precisamos de uma nova versão deste mito que possa incluir estruturas sindicalistas mas não se limitar a elas. O velho inimigo dos anarquistas sempre foi o Estado. Ainda temos o Estado para nos preocupar (seguranças no Shopping universal), mas claramente os inimigos reais são os zaibatsus e bancos (o maior erro na história revolucionária foi a falha em dominar o Banco em Paris, 1871). Num futuro muito próximo haverá uma guerra contra a estrutura OMC/FMI/GATT do Capital Global - uma guerra de desespero claro, alimentada por um mundo de indivíduos e grupos orgânicos contra as corporações e "o poder do dinheiro" (i.e., o próprio dinheiro). De preferência uma guerra pacífica, como uma grande Greve Geral - mas realisticamente cada um deve se preparar para o pior. E o que precisamos saber é, o que a InterNet pode fazer por nós?


Obviamente uma boa revolta precisa de bons sistemas de comunicação. Neste momento no entanto eu preferiria transmitir meus segredos conspiratórios (se eu tivesse algum) pelos Correios em vez da Net. Uma conspiração realmente bem-sucedida não deixa rastro em papel, como a Revolução Líbia de 1969 (mas na época, os grampos telefônicos ainda eram bastante primitivos). Mais do que isto, como poderíamos ter certeza que o que vimos na Net era informação e não desinformação? Especialmente se nossa organização existe apenas na Net? Falando como Stirnerita, eu não quero banir assombrações da minha cabeça apenas para encontrá-las de novo na tela. Luta de rua virtual, ruínas virtuais. Não parece uma proposição vantajosa.


Mais perturbador para nós seria a qualidade "gnóstica" da Net, sua tendência à exclusão do corpo, sua promessa de transcendência tecnológica da carne. Mesmo que algumas pessoas tenham "se conhecido pela Net", o movimento geral é rumo à atomização - "caído sozinho em frente à tela". O "movimento" hoje presta muita atenção à mídia em geral por que o poder virtualmente nos iludiu - e dentro do speculum da Net o seu reflexo zomba de nós. A Net como substituto ao convívio e à comunicatividade. A Net como uma má religião. Parte do transe midiático. A comoditização da diferença.


À parte a crítica da Net do ponto de vista da Soberania Individual, nós poderíamos também lançar uma análise de uma posição Fourierista. Aqui no lugar de indivíduos nós consideraríamos a "série", o grupo básico Passional sem o qual cada ser humano permanece incompleto - e o Falanstério, ou Série completa de Séries (mínimo de 1620 membros). Mas a meta permanece a mesma: - o agrupamento ocorre para maximizar os prazeres ou o "luxo" para os membros do grupo, Paixão sendo a única força viável de coesão social (de fato, nesta base nós poderíamos considerar uma "síntese" de Stirner e Fourier, na aparência polarmente opostos). Para Fourier, a Paixão é por definição incorporada; todo o "networking" é mantido via presença física (apesar dele permitir pombos-correio para comunicação entre Falanstérios). Como um místico dos números, Fourier bem que poderia gostar do computador - na verdade ele inventou o "namoro por computador", de certa maneira - mas ele provavelmente desaprovaria qualquer tecnologia que envolvesse a separação física (eu creio que foi Balzac quem disse que para Fourier o único pecado era almoçar sozinho). Convívio no sentido mais literal - idealmente, a orgia. "Atração Passional" funciona por que cada um tem Paixões diferentes: a diferença já é "luxo". O corpo de dados, o corpo na tela, é apenas metaforicamente um corpo. O espaço entre nós - o "medium" - deve ser preenchido com Raios Aromais, zodíacos de luz brilhante (novas cores!), profusões de frutas e flores, os aromas da cozinha gastrosófica - e finalmente o espaço deve ser fechado, curado.


Outra crítica da Net poderia ser feita de uma perspectiva Proudhoniana (Proudhon foi influenciado por Fourier, apesar de fingir que não foi. Ambos eram de Bezançon, como Victor Hugo). Proudhon era mais "progressivo" quanto a tecnologia do que nossos outros exemplos, e seria interessante ver que tipo de papel ele teria para a Net em seu futuro ideal de Mutualismo e anarco-federação. Para ele "governo" era meramente uma questão de administração da produção e troca. Os computadores poderiam se provar como ferramentas úteis sob estas condições. Mas proudhon assim como Marx sem dúvida modificariam sua visão otimista da tecnologia se fossem consultados hoje da sua opinião: - a máquina como poluição social, a própria tecnologia (e por implicação o Trabalho) como alienação. Este argumento foi obviamente feito por Marxistas libertários, anarquistas Verdes, etc. - descendentes legítimos de Marx e Proudhon, como Marcuse ou Ilich. Não seria justo considerar a InterNet (nem a bioengenharia) fora desta crítica da tecnologia. O trabalho de Benjamin, Debord e até Baudrillard (até qele ter caído exausto) torna claro que a imagem total - "a mídia" - tem um papel central nesta crítica. Proudhon questionaria a Net quanto a justiça, e quanto a presença.


Mas eu preferiria focar mais estritamente na questão da imagem. Aqui nós poderíamos retornar a Blake como nosso "martelo filosófico" (Nietzsche queria realmente dar a entender uma espécie de diapasão), uma vez que estamos falando do ídolo, da imagem. Eu argumentaria que estamos sofrendo uma crise de superprodução da imagem. Nós estamos, como Giordano Bruno colocou, "acorrentados", hipnotizados pela imagem. Em tal caso nós precisamos ou de uma dose saudável de iconoclastia, ou então (ou também) um tipo mais sutil de senso crítico hermético, uma liberação da imagem pela imagem. Na verdade, Blake nos supriu com ambos - ele era tanto um esmagador-de-ídolos quanto simultaneamente um hermetista que usava imagens para a libertação, tanto política quanto espiritual. Hermetistas entendem que o "hieróglifo", a imagem/texto ou comunicação mediada (simbólica), tem um efeito "mágico", ultrapassando a consciência racional linear e influenciando profundamente a psiquê. É por isso que Blake dizia que uma pessoa deve fazer seu próprio sistema ou então ser escravo do sistema de outros. A autonomia da imaginação é um alto valor para o hermetismo - e a crítica da imagem é a defesa da imaginação. A tela é um aspecto da imagem que não pode escapar desta "análise espectral" - a mídia como "moedores satãnicos".


Parece que não há mesmo como fugir da tecnologia ou da alienação. A própria techné é prótese da consciência, e portanto inseparável da condição humana (linguagem inclusa aqui como techné). A Tecnologia como a fusão óbvia de techné e linguagem (a ratio ou "razão" da techné) tem sido simplesmente uma categoria da existência humana desde pelo menos o Paleolítico. Mas - podemos perguntar até que ponto o próprio coração foi substituído por um órgão artificial? Até que ponto uma determinada tecnologia "surta" e começa a produzir uma contraprodutividade paradoxal? Se pudéssemos alcançar um consenso nisto, ainda existiria motivo para falar de determinismo tecnológico, ou o maquinismo como destino? Neste sentido, os velhos Ludditas merecem alguma consideração. A techné deve servir ao ser humano, não definir o ser humano.


Precisamos (aparentemente) aceitar a inevitabilidade da consciência, mas apenas na condição de que não será a mesma consciência. Suspeitamos que a consciência racional, maquínica, linear, aufklaerung, universal governou em muito tempo numa tirania - ou "monopólio. Não há nada de errado com a razão (na verdade nós poderíamos usar bem mais dela) mas o racionalismo parece uma ideologia fora de moda. A razão deve dividir o espaço com outras formas de consciência: consciência psicotrópica, ou consciência xamânica (que não tem nada a ver com "religião" como é usualmente definida) - bioconsciência, o discernimento sistêmico do ideal hermético da terra viva - consciência étnica ou cultural, modos diferentes de ver - povos indígenas - ou os Celtas - ou o Islã - consciências de "identidade" de todos os tipos - e consciências de trans-identidade. Uma variedade de consciências parece ser o único campo possível para a nossa ética.


Então, e quanto a consciência da InterNet? Ela tem seus aspectos não-lineares, não tem? Se pode existir uma "racionalidade do maravilhoso", não há um lugar para a Net no banquete?


No fim nós devemos nos contentar com a ambiguidade. Uma resposta "pura" é impossível aqui - iria feder a ideologia. Sim e não.


Mas - "Entre o Sim e o Não, estrelas caem do céu e cabeças voam do pescoço", como o grande sufi Shayk Ibn Arabi disse ao filósofo Aristotélico Averöes.


Uma imagem adequada para uma ruína romântica...


Hakim Bey
NYC
18 de agosto, 1997

Carlos Drummond de Andrade


Um dia desses separo um tempinho
e ponho em dia todos os choros
que não tenho tido tempo de chorar.














Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Soneto da separação

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

Soneto da separação - Vinícius de Morais



'[...]

infância adolescência idade & eternidade
se abriram como doces árvores
para as noites de outra primavera
atordoando-nos de amor

pois juntos somos capazes de ver
a beleza das almas
ocultas como os diamantes

[...]"

Allen Ginsberg

Teresa



Fotografia do mestre André Kertesz


JOÃO:Olho Teresa, vejo-a sentada aqui a meu lado. A poucos centímetros da mim. A poucos centímetros, muitos quilômetros. Por que essa impressão de que precisaria de quilômetros para medir a distância, o afastamento em que a vejo nesse momento?

JOÃO: Olho Teresa como se olhasse o retrato de uma antepassada que tivesse vivido em outro século. Ou como se olhasse um vulto em outro continente, através de um telescópio. Vejo-a como se cobrisse a poeira tenuíssima ou o ar quase azul que envolvem as pessoas afastadas de nós muitos anos e léguas.

JOÃO: Posso dizer dessa moça a meu lado que é a mesma Teresa que durante todo o dia de hoje, por efeito do gás do sonho, senti pegada a mim?

JOÃO: Esta é a mesma Teresa que na noite passada conheci em toda intimidade? Posso dizer que a vi, falhei-le, posso dizer que a tive em toda intimidade? Que intimidade existe maior que a do sonho? A desse sonho que ainda trago em mim como um objeto que me pesasse no bolso?

JOÃO: Ainda me parece sentir o mar do sonho que inundou meu quarto. Ainda sinto a onda chegando à minha cama. Ainda me volta o espanto de despertar entre móveis e paredes que eu não compreendia pudessem estar enxutos. E sem nenhum sinal dessa água que o sol secou mas de cujo contacto ainda me sinto friorento e meio úmido (penso agora que seria mais justo, do mar do sonho, dizer que o sol o afugentou, porque os sonhos são como as aves, não apenas porque crescem e vivem no ar)

JOÃO: Teresa aqui está, ao alcance de minha mão, de minha conversa. Por que, entretanto, me sinto sem direitos fora daquele mar? Ignorante dos gestos, das palavras?

JOÃO: O sonho volta, me envolve novamente. A onda torna a bater em minha cadeira, ameaça chegar até a mesa. Penso que, no meio de toda essa gente de terra, gente que parece ter criado raízes, como um lavrador ou uma colina, sou o único a escutar esse mar. Talvez Teresa...

JOÃO: Talvez Teresa... sim, quem me dirá que esse oceano não nos é comum?

JOÃO: Posso esperar que esse oceano nos seja comum? Um sonho é uma criação minha, nascida de meu tempo adormecido, ou existe nele uma participação de fora, de todo o universo, de uma geografia, sua história, sua poesia?

JOÃO: O arbusto ou a pedra aparecida em qualquer sonho pode ficar indiferente à vida de que está participando? Pode ignorar o mundo que está ajudando a povoar? É possível que sintam essa participação, esses fantasmas, essa Teresa, por exemplo, agora distraída e distante? Há algum sinal que faça compreender termos sido, juntos, peixes de um mesmo mar?

JOÃO: Donde me veio a idéia de que Teresa talvez participe de um universo privado, fechado em minha lembrança, desse mundo que através de minha fraqueza eu me compreendi ser o único onde será possível cumprir os atos mais simples, como por exemplo caminhar, beber um copo de água, escrever meu nome, nada, nem mesmo Teresa.



João Cabral de Melo Neto

Livro do Desassossego

10.E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis
[...]
Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa; uma impaciência da alma consigo mesma, como com
uma criança inoportuna;
um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo
sonhando sempre
[...]
Sou dois, e ambos têm a distância - irmãos siameses que não estão pegados

Livro do Desassossego

12.
Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância,
pois nada tem importância


Por: Bernado Soares
In: Livro do Desassossego

domingo, 27 de setembro de 2009

"Só quem já teve um dragão em casa pode saber como essa casa parece deserta depois que ele parte. Dunas, geleiras, estepes. Nunca mais reflexos esverdeados pelos cantos, nem perfume de ervas pelo ar, nunca mais fumaças coloridas ou formas como serpentes espreitando pelas frestas de portas entreabertas. Mais triste: nunca mais nenhuma vontade de ser feliz dentro da gente, mesmo que essa felicidade nos deixe com o coração disparado, mãos úmidas, olhos brilhantes e aquela fome incapaz de engolir qualquer coisa. A não ser o belo, que é de ver, não de mastigar, e por isso mesmo também uma forma de desconforto. No turvo seco de uma casa esvaziada da presença de um dragão, mesmo voltando a comer e a dormir normalmente, como fazem as pessoas banais, você não sabe mais se não seria preferível aquele pantanal de antes, cheio de possibilidades – que não aconteciam, mas que importa? – a esta secura de agora. Quando tudo, sem ele, é nada."
_Caio Fernando Abreu
'[...] pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisas de papel pautado para escrever ou que comecam a apertar pela parte de baixo o tubo da pasta de dentes.'
_julio cortázar

Arthur Rimbaud



Ela foi encontrada!


Quem? A eternidade.

É o mar misturado

Ao sol.



Minha alma imortal,

Cumpre a tua jura

Seja o sol estival

Ou a noite pura.



Pois tu me liberas

Das humanas quimeras,

Dos anseios vãos!

Tu voas então...



— Jamais a esperança.

Sem movimento.

Ciência e paciência,

O suplício é lento.



Que venha a manhã,

Com brasas de satã,

O dever

É vosso ardor.



Ela foi encontrada!

Quem? A eternidade.

É o mar misturado

Ao sol.

 
 
 
Arthur Rimbaud

sábado, 26 de setembro de 2009

Todo guerreiro ja ficou com medo de entrar em combate.
...
Todo guerreiro já perdeu a fé no futuro.
Todo guerreiro já trilhou um caminho que não era dele.
Todo guerreiro já sofreu por bobagens.
...
Todo guerreiro já achou que não era guerreiro.
Todo guerreiro já falhou em suas obrigações.
Todo guerreiro já disse "SIM" quando queria dizer "NÃO".
Todo guerreiro já feriu alguém que amava.
Por isso é um guerreiro; porque passou por estes desafios, e não perdeu a esperança de ser melhor do que era.


Paulo Coelho

O Silêncio da sabedoria

Nós vivemos em um universo que é, ao mesmo tempo, gigantesco o suficiente para nos envolver e pequeno o bastante para caber em nosso coração. Na alma do homem está a alma do mundo, o silêncio da sabedoria.

Tudo em nós funciona perfeitamente bem e em harmonia com a natureza. O que há de bonito no dia de hoje?

Procure reparar, porque esta é a melhor imagem de você mesmo. Deus está em nosso cotidiano, espera que notemos Sua presença. Toda manhã, Deus nos mostra o Seu sorriso.

As nuvens que estão ocupando, neste momento, o céu de sua alma vão passar. O sol, que às vezes se esconde por detrás das nuvens, não passa nunca.


Paulo Coelho

Eu, o vento



Eu sou calmo e violento, sou vendaval e brisa que a mercê da vida, às vezes sou conforto, às vezes incômodo. Às vezes paz, às vezes caos.

Eu, o vento, que sou incolor e frio, sou calor e sangue, que a mercê da vida, às vezes sou dor, às vezes rotina. As vezes sou morte, às vezes vida.

Eu, o vento, que sou órfão e só, sou carinho e carente, que a mercê da vida, às vezes sou colheita, às vezes plantio. Às vezes sou notado, às vezes esquecido.

Eu, o vento, que sou força e anemia, sou opressor e vítima, que a mercê da vida, às vezes sou vento, simplesmente.



Mário Nhardes

sexta-feira, 25 de setembro de 2009


'O ar tinha gosto de sábado. E de súbito os dois eram raros, a raridade no ar. Eles se sentiam raros, não fazendo parte das mil pessoas que andavam pelas ruas. Os dois às vezes eram coniventes, tinham uma vida secreta porque ninguém os compreenderia. E mesmo porque os raros são perseguidos pelo povo que não tolera a insultante ofensa dos que se diferenciavam.'

_Clarice Lispector
'Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto.
Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos,
a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência;
e o melhor da obrigação é quando, a força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame,
que é uma sensação penosa e a hipocrisia, que é um vício hediondo
Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas,
despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! Porque, em suma, já não há vizinhos, nem amigos, nem inimigos, nem conhecidos, nem estranhos; não há platéia
O olhar da opinião, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o território da morte;
não digo que ele se não estenda para cá, e nos não examine e julgue; mas a nós é que não se nos dá do exame nem do julgamento
Senhores vivos, não há nada tão incomensurável como o desdém dos finados.'


Machado de Assis.
.Trecho de Memórias póstumas de Brás Cubas

Stalker ou a arte de esculpir o tempo




"Íamos, sem saber para onde,


Perseguidos por miragens de cidades

Derrotadas construídas no milagre,

Hortelã pimenta aos nossos pés,

As aves acompanhando-nos o vôo,

E no rio os peixes à procura da nascente;

O céu, a nós se abrindo.



Porque o destino seguia-nos o rastro

Como um louco com uma navalha na mão."



"Stalker" Filme do mestre Andrei Tarkovsky

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

'Aquele menino trazia na testa a marca inconfundível:
pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por que,
não sei se na esperança de decifrá-las ou se apenas pelo prazer de mergulhar.
Essas são as escolhidas —
as que vão ao fundo,
ainda que fiquem por lá.'


_Caio Fernando Abreu

Quero minha mãe

Abel e eu estamos precisando de férias. Quando começa a perguntar quem tirou de não sei onde a chave de não sei o quê, quando já de manhã espero não fazer comida à noite, estamos a pique de um estúpido enguiço. Sou uma pessoa grata? Às vezes o que se nomeia gratidão é uma forma de amarra. Entendo amor ao inimigo, mas gratidão o que é? Tenho problemas neste particular. Se aviso: passo na sua casa depois do almoço, acrescento logo se Deus quiser, não sendo grata, temo que me castigue com um infortúnio. Bajulo Deus, esta é a verdade, tenho o rabo preso com Ele, o que me impede de voar. Como posso alçar-me com Ele grudado à cauda? Uma esquizofrenia teológica, eu sei, quando fica tudo confuso assim, meu descanso é recolher-me como um tatu-bola e repetir até passar a crise, Senhor, tem piedade de mim. Até em sonhos repito, Senhor, tem piedade de mim, é perfeito. Sensação de confinamento outra vez, minha pele, minha casa, paredes, muro, tudo me poda, me cerca de arame farpado. Coitada da minha mãe, devia estar nesta angústia no dia em que me atingiu: “trem ordinário” Com certeza não suportava a idéia, o fardo de ter-que-dar-conta-daquela-roupa-de-graxa-do-meu-pai, daquele caldo escuro na bacia, fedendo a sabão preto e ela querendo tempo pra ler, ainda que pela milésima vez, meu manual de escola, o ADOREMUS, a REVISTA DE SANTO-ANTONIO. Mãe, que dura e curta vida a sua. Me interditou um reloginho de pulso, mas não teve meios de me proibir ficar no barranco à tarde, vendo os operários saírem da oficina, sabia que eu saberia o motivo. Duas mulheres, nos comunicávamos. Tá alegre, mãe? A senhora não liga de ficar em casa, não? Posso ir no parque com a Dorita? Vai chamar tia Ceição pra conversar com a senhora? Nem na festa da escola, nem na parada pra ver eu carregar a bandeira ela não foi. Não dava para ir de “mantor” porque era de dia com sol quente, gastei cinqüenta anos pra entender. Teve uma lavadeira, a Tina do Moisés, que ela adorava e tratava como rainha. Sua roupa acostumou comigo, Clotilde, nem que eu queira, não consigo largar. Foi um tempo bom de escutar isto, descansei de vê-la lavando roupa com o olhar perdido em outros sítios, sentindo e querendo, com toda certeza, o que qualquer mulher sente e quer, mesmo tendo lavadeira e empregada. Tenho sonhado com a mãe tomando conta de mim, me protegendo os namoros, me dando carinho, deixando, de cara alegre, meus peitinhos nascerem e até perguntando: está sentindo alguma dor, Olímpia? É normal na sua idade. Com certeza aprendeu, nas prédicas às Senhoras do Apostolado, como as mães cristãs deviam orientar suas filhas púberes. Te explico, Olímpia, porque pode te acontecer na escola, não precisa levar susto, não é sangue de doença. Achei minha mãe bacana, uma palavra ainda nova que só os moleques falavam. Coitadas da Graça e da Joana, que nem isso ganharam dela. Morreu antes de me ensinar a lidar com as incômodas e trabalhosas toalhinhas. mãe, mãezinha, mamãezinha, mamãe, e o reino do céu é um festim, quem escondeu isto de você e de mim?


Autor: Adélia Prado
“Quero minha mãe”, 
Editora Record – Rio de Janeiro, 2005

Neruda I

Não será nossa vida um túnel
entre duas vagas claridades?

Ou não será uma claridade
entre dois triângulos escuros?

Ou não será a vida um peixe
preparado para ser pássaro?

A morte de não ser
ou de substâncias pergiosas?
(página 77)


Por: Pablo Neruda
In: Livro das Perguntas

Neruda II

Não será por fim a morte
uma cozinha interminável?

Que farão teus osssos desagregados,
buscarão outra vez tua forma?

Se fundirá tua destruição
e outra forma e em outra luz?

Formarão parte teus vermes
de cães ou de borboletas?
(página 78)

Por: Pablo Neruda
In: Livro das Perguntas



14.

"Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições."


Por: Bernado Soares
in Livro do Desassossego




Informação: Bernado Soares foi um "semi-heterônimo" de Fernando Pessoa.

O poeta e o mar


Não sei, não recordo quando e onde conheci Dorival Caymmi pela primeira vez e pela primeira vez rimos juntos nossa alegria. Foi, com certeza, na Bahia, antes da partida do clássico ita, levando-nos – ao aprendiz de compositor e ao aprendiz de escritor – para tentar exercer nossos ofícios no Rio. Naquele tempo, quem quisesse um lugar ao sol tinha de começar pelo sacrifício de sair de sua terra, a terra da Bahia, onde éramos livres adolescentes nos mercados e nas praias. Só no Rio havia ambiente e oportunidade.
Na praia de Itapuã, nas malícias do Rio Vermelho, nas ladeiras da cidade antiga cresceu o menino Dorival, filho de Seu Durval, modesto funcionário estadual, bom de violão e no trago. Cresceu assim o moço Caymmi, na pesca, na serenata, na festa de bairro, no samba de roda, nos terreiros de santo, vivendo cada instante de sua cidade e de sua gente, alimentando-se de sua realidade e de seu mistério, preparando-se para ser seu poeta e seu cantor. Livre coração e o desejo de criar. A música popular brasileira não era ainda assunto de gazetas, revistas e festivais. O moço baiano, no entanto, não desejava nem o título de doutor nem o emprego público prometido, queria tão-somente compor e cantar. Teve de partir para ganhar a vida difícil.
Naqueles idos de 1936 o mundo era nosso nas ruas do Rio de Janeiro, lá se vão mais de 30 anos. Uma canção que fizemos juntos naquela época, É doce morrer no mar, tirada de uma cena de Mar Morto, continua popular até hoje e pode-se mesmo dizer: cada vez mais. Aliás, eis uma das características fundamentais da música de Caymmi: sua permanência, sua constante atualidade.
Sendo seu tema a Bahia, sua vida, seu povo, seu drama, sua luta, seu mistério, sua poesia, seus amores, a morena de Itapuã e as rosas de abril, Iemanjá e o vento do oceano, a jangada e o saveiro, o mundo da Bahia, não há uma frase sua, uma única, de música ou poesia, que seja circunstancial, que derive da moda, de uma influência momentânea.
Não compôs demais, ao sabor do sucesso e da novidade. Cada música sua é inspiração verdadeira e experiência vivida, é seu sangue e sua carne, é sua verdade. Uma será mais bela, outra mais profunda, aquela mais fácil, mas nenhuma resulta da busca do sucesso ou do aproveitamento de qualquer circunstância.
Caymmi leva meses e meses trabalhando cada uma de suas músicas e letras, ao sabor do tempo e da preguiça baiana e criadora. Segundo dizia Sérgio Porto, a música de Caymmi muito deve a essa preguiça, ou melhor: a esse tempo de lazer de medida tão larga, esse tempo baiano. De tudo isso posso dar testemunho, pois nesses 30 e tantos anos eu o vi compor sem descanso, mas sem pressa, vi também nascer e crescer a maioria de suas composições mais famosas. Em minha casa – em várias das casas onde vivi – ele trabalhou e criou. Jamais espicaçado por compromisso ou intenção imediatista.
Para Caymmi a moda não existe. Eu posso dizer, posso testemunhar como ninguém. Juntos andamos um bom bocado de caminho, juntos criamos alguma coisa, juntos começamos a envelhecer. Juntos fizemos teatro, cinema, tratamos o livro e a partitura, tocamos a vida e o amor. Amizade de toda a vida, “meu irmão, meu irmãozinho”.

Autor: Jorge Amado

Texto publicado em: Nova História da Música Popular

terça-feira, 22 de setembro de 2009



'Eu sou essa pessoa a quem o vento chama,

a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza:
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizontes libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho ?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

Agora és livre, se ainda recordas.'

_Cecília Meireles

domingo, 20 de setembro de 2009

Nova poética (Manuel Bandeira)

Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó de uma nódoa de lama:
É a vida.

O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.

Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelhecem sem maldade.

.
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá, onde a criança diz:
eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não
Funciona para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.
E pois.
Em poesia que é voz de poeta,
que é a voz
De fazer nascimentos -
O verbo tem que pegar delírio.


Por: Manoel de Barros






p.s. Esse poeta é o próprio delírio, recomendo muito!

sábado, 19 de setembro de 2009

Ora (direis) ouvir estrelas!

XIII

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto ...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas."

Olavo Bilac

hoje eu sonhei tão alto
que as aves na minha janela pousaram
e pediram que eu sonhasse mais baixo
porque elas lá em cima voavam.

Martha Medeiros em Poesia Reunida

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

A Sabedoria do Corpo

Tu dizes «eu» e orgulhas-te desta palavra. Mas há qualquer coisa de maior, em que te recusas a aceditar, é o teu corpo e a sua grande razão; ele não diz Eu, mas procede como Eu.
Aquilo que a inteligência pressente, aquilo que o espírito reconhece nunca em si tem o seu fim. Mas a inteligência e o espírito quereriam convencer-te que são o fim de todas as coisas; tal é a sua soberba.
Inteligência e espírito não passam de instrumentos e de brinquedos; o Em si está situado para além deles. O Em si informa-se também pelos olhos dos sentidos, ouve também pelos ouvidos do espírito.
O Em si está sempre à escuta, alerta; compara, submete; conquista, destrói. Reina, e é também soberano do Eu.
Por detrás dos teus pensamentos e dos teus sentimentos, meu irmão, há um senhor poderoso, um sábio desconhecido: chama-se o Em si. Habita no teu corpo, é o teu corpo.
Há mais razão no teu corpo do que na própria essência da tua sabedoria. E quem sabe por que é que o teu corpo necessita da essência da tua sabedoria?

Friedrich Nietzsche
Assim Falava Zaratustra

quinta-feira, 17 de setembro de 2009



"Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?"


Manuel Bandeira

“Eles passarão [os desacreditados], eu passarinho.”



Mário Quintana

quarta-feira, 16 de setembro de 2009


Qualquer coisa de obscuro permanece
No centro do meu ser. Se me conheço,
É até onde, por fim mal, tropeço
No que de mim em mim de si se esquece.


Aranha absurda que uma teia tece
Feita de solidão e de começo
Fruste, meu ser anónimo confesso
Próprio e em mim mesmo a externa treva desce.


Mas, vinda dos vestígios da distância
Ninguém trouxe ao meu pálio por ter gente
Sob ele, um rasgo de saudade ou ânsia.


Remiu-se o pecador impenitente
À sombra e cisma. Teve a eterna infância,
Em que comigo forma um mesmo ente.


Fernando Pessoa

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Bruno Tolentino



Entrevista

CR.: Após tanta polêmica sobre sua vida pessoal nos maiores jornais e nas tv's do país, onde se configura não só o banido da "República" de Platão, o grande poeta, mas outros tantos "brunos", poderia nos dar um perfil abrangente do homem Bruno Tolentino, hoje? Quem é Bruno Tolentino?

Bruno Tolentino (63): Olha, não é fácil avaliar-se a si mesmo, especialmente a quem lhe importa sobretudo o prodigioso trabalho da graça divina sobre o sempre iminente desastre humano. Por exemplo: à meia-noite o citado Fulano de Tal invariavelmente me parece um pobre diabo que a Providência insiste em cobrir de favores inexplicáveis e acaba por constranger com uma pletora de dons cada vez mais difíceis de justificar pelo bom uso. Em favor do pilantra pode-se, talvez, alegar uma integridade intelectual que reconhecidamente nunca esteve no balcão das conveniências e cambalachos; com maior ou menor justiça, já fui acusado de vários tráficos, de divisas, de drogas, de armas, mas nunca de tráfico de influência! Nesse sentido, Antônio Houaiss, escrevendo sobre OS DEUSES DE HOJE, em 1996, refere-se a este marginal nato como "o intérprete destes tempos que não busca o compadrio dos expertos e artimanhosos..." Com efeito: fiz inúmeros amigos no sub-mundo, troquei a universidade pela cadeia e de ambas saí com um nome limpo, pois nunca tive nada a ver com o crime organizado, muito menos com a versão dele que assola a República das Letras. É possível que meu traço mais inamovível seja mesmo certa ingenuidade quase infantil frente à relação arte-vida, o que certa vez levou Ungaretti a me apresentar a Carlo Levy como sendo "o único gênio retardado que eu conheço" (l'único genio deficiente che io conosca).

Quanto a um outro traço meu bem mais deplorável, a língua ferina entortada pelo vício da ironia, quando não do sarcasmo, Christiane Martin du Gard dizia à Paris dos anos 70 que se tratava de uma espécie de "anjo do mal a serviço do bem" (l'ange du mal au service du bien). Espero bem que não se enganasse, mas disso não sou obviamente o melhor juiz... Já Samuel Beckett, apresentando supõe-se que o mesmo personagem à Franco-Irish Society em 1981, dele disse que "este vertiginoso imprudente" (ce vertigineux imprudent) seria uma espécie de “pendant” literário do sujeito que "não sabendo que era impossível o que se propunha fazer, foi lá e o fez..." (tha guy who, not knowing it was impossible to do it, went there and did it). Mas me comove bem mais o que li recentemente de um poeta que tenho em alta conta como artista e como homem: este carioca metido a inglês seria um bocó que "dedicou a vida ao serviço de Deus e da Poesia com coragem jesuítica e humildade franciscana..." Tomara, ou antes: quem dera, porque si non è vero è bem trovato!


CR.: Em polêmica intelectual você substituiu à altura o excelente José Guilherme Merquior, levando-o a ser odiado por certas pessoas de certas correntes intelectuais do Brasil. Segundo Paulo Polzonoff Jr, artigo para o jornal Rascunho, de Curitiba, você "é odiado porque é bom". O lançamento do seu livro O Mundo como Idéia, em relação à poesia, uma arte sempre subestimada nesta sociedade frívola de consumo, teve uma acolhida crítica altamente positiva, fazendo qualquer ódio se recolher. Que significa esse livro para você?

BT.: Bem, aqui, sem falsas modéstias, devo me confessar absolutamente desconcertado não só com o ruidoso eco na imprensa, mas com o contínuo sucesso de vendas do meu trabalho mais difícil, um livro enorme, caro e complexo, o qual imaginei viesse a necessitar de duas ou três décadas para ser lido e digerido. Note-se que não digo aceito e admirado, isso jamais esteve em meus cálculos. Afinal trata-se de um libelo contra o subdesenvolvimento intelectual, o vício nacional da ideologia, e sobretudo, espero eu, de um cheque-mate às utopias formalistas e aos populismos terceiro-mundanos que devastaram nossa cultura nos últimos 50 anos. Mas vê-se que a diagnose que proponho dessa patética catástrofe mexe mesmo com a consciência profunda de nossa gente, sobretudo a dos jovens! Pode ser que meu espanto diante desse fato seja uma última arrogância inadvertida: afinal este país já teve, como seu gênio máximo, um Machado de Assis inimigo jurado e satirista insuperável destas mesmas tristes moléstias, haja vista sua caricatura do "filósofo" Quincas Borba em 1880... E ainda assim, quand même! Que O MUNDO COMO IDÉIA tenha revertido a tendência do Prêmio Ermírio de Morais, jamais antes concedido a um escritor, menos ainda a um poeta, é alentador não só para seu autor, mas para a situção da poesia no país do telecoteco; mas que venha sendo lido, analisado e até cautelosamente saudado, por exemplo, na Rive Gauche du Tietê, ao ponto de obter um inédito segundo Jabuti para seu malcriadíssimo autor, convenhamos, é de estarrecer! Mas a cerise du gâteau fica para o inacreditável destaque que vem obtendo até mesmo em territórios ocupados pelo bárbaro de carteirinha, tais como a Rolha de S. Paulo, o boletim de resenhas do CNPQp, o caderno Mamais!, a UNICAMP, a UFF, a Cult, etc. Só está faltando mesmo os Caros Umbigos, mas a esse ritmo quem sabe onde vamos parar! Sei não, mas qualquer coisa me diz que daqui a pouco essa gente toda vai acordar e aí eu vou ter que emigrar para Jaboatão, me asilar na embaixada do Alaska ou abrir um cursinho de inglês para pingüins na Patagônia...
CR.: Apesar de confessar-se aristotélico, em O Mundo como Idéia, uma reflexão lírica sobre a história da cultura ocidental, você entraria na República de Platão, embora a obra não seja, propriamente, como gostaria o filósofo, uma mimese de segundo grau, uma cópia da história. Na verdade, embora resista talvez a essa idéia, você é um poeta completo no sentido horaciano, lírico e satírico. Embora tenha livros satíricos, mesmo sua obra lírica está vazada pela sátira, diferentemente da poesia didática de Cabral, que usa a sátira episodicamente. E por que diz que sua admiração é Ovídio?

BT.: Em arte admira-se sobretudo o inalcançável, o que não se é por natureza e portanto não se faz por inclinação natural. Minha forma mentis será, sim, antes bem mais horaciana, ou mesmo virgiliana, do que sáfica ou pindárica, mas é em Ovídio que fui aprender a naturalidade da frase musical inseparável da sensibilidade profunda subjacente à fala da tribo. Sempre me horrorizou o poema que se afasta orgulhosamente da fala comum, da comunicação natural, detesto todo maneirismo em arte e não vejo senão afetação no hermetismo tão ao gosto dos doutos sem assunto: afinal, o que se concebe com clareza se exprime com facilidade... Por outro lado, penso de um modo e escrevo de outro, a contra-pêlo do que me seria fácil, porque tampouco creio no espontâneo, desconfio tanto do rebuscado quanto do aparentemente conclusivo, daí que faça e refaça incansavelmente meus textos, e meus livros levem anos, décadas para encontrar a forma final. Se pudesse, escreveria ao modo escorreito de um Tasso, de um Baudelaire, da Emily Dickinson, e em especial à maneira dos meus mentores e amigos Ungaretti, Bonnefoy, Elizabeth Bishop, W. H. Auden; em casa imitaria a Fer-nando Pessoa, Sophia Andresen, Camilo Pessanha, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Adélia Prado, Ferreira Gullar, Alberto Cunha Melo... Mas na hora da verdade, para não sumir de todo ao pé de jequitibás tão frondosos quanto bem podados, tenho mesmo é que me espelhar em autores cuja complexidade resulta, não obstante a opulência da matéria, naquela difícil limpidez e exatidão que os afasta necessariamente de mim; quero dizer que não me avexo de tentar macaquear sobretudo Shakespeare, Dante, Eliot, Goethe, Milton, Leopardi, Yeats, Montale, Shelley, Keats, Donne, Marvell e Geoffrey Hill... E, claro, Ovídio, mas também Propertius e Catulo... Assim como é claro também que confrontar-me obsessivamente a eles me custa muito mais trabalho, são modelos que não param quietos, o que acaba sendo tanto mais irritante e desafiador quanto mais proveitoso. Acontece-me, aliás, de imaginar que os não imito assim tão mal algumas vezes, mas se assim for há que levar em conta que a ave nacional é o papagaio, e este aqui é um malandro renitente o bastante para levar quarent'anos a afinar uma só cuíca...


CR. As experiências vanguardistas de Mallarmé, Apollinaire, E. E.Cummings e Pound repercutiram em alguns países no Ocidente. Para o crítico chileno J. M. Ibáñez Langlois, Pound influenciou, sozinho, "as última vanguardas hispano-americanas - a antepoesia, a poesia coloquial, a crônica poética, e a poesia narrativa". No Brasil, a metástese configurou-se em movimentos como a Poesia Concreta, a Instauração Praxis, o Neo-Concretismo, e o Poema-Processo, para citar apenas os que constam nos livros colegiais. quando as vanguardas brasileiras se esgarçaram, falou-se que entramos na onda estética, surgida fora do país, e que se convencionou chamar de pós-modernismo. Baixada a poeira, há quem considere que as vanguardas, principalmente as formalistas, tinham um propósito construtivo, ao lado do propósito de "destruição do passado", que seria o de dar ao poema uma autonomia formal, depois que a versolibrismo bagunçou o coreto e todo mundo se meteu a fazer poesia. Você reconhece esse mérito?

BT.: Merm'ão, falemos claro: o que inspira a produção de poesia é o fato de se ver fazer boa poesia, e as ditas vanguardas nunca fizeram absolutamente nada além de receituários, um atrás do outro e todos instantaneamente caducos. Nos ilustres exemplos acima citados, só presta o que tem eco e raíz na tradição, o Aprés-midi d'un faune de Mallarmé, o Mauberley de Pound, a Chanson du mal-aimé de Apollinaire, etc; quase todo o resto, inclusive desses mesmos autores, são receitas para um bolo que não fizeram e que quando alguém tentou fazê-lo mofou sem que ninguém lhe digerisse uma única fatia... Quanto ao versolibrismo, seja lá o que for hoje em dia, é preciso ser um Fernando Pessoa, um Saint-John Perse, um Drummond ou um Seferis para fazê-lo bem, senão é o que se vê (se vê, mas na verdade não se lê, daí que os tijolos mal-cozidos mofem nas estantes...). Como dizia o Eliot: nenhum verso é livre o bastante para quem quer fazer bem seu trabalho. Mas, atenção: não há nada demais em "se meter a fazer poesia", o grave é a proibição de tentar fazê-la desse ou daquele modo, chega de nihilismos bocós, de desconstruções, de ismos e mesmismos, basta de DOI-Codis artístico-literários neste país! Vive la difference! Tal ou tal poeta se-meteu-a-fazer e ainda não sabe como? Pois que faça mais e mais até acertar a mão e o ouvido, eu quero é mais! As cordilheiras não se fazem de picos, fazem-se de sucessivas camadas invisíveis, de acumulações, inclusive as mais minúsculas, ou alguém acha que haveria algum Everest sem o primeiro metro-e-meio do Himalaia?


CR.: Em 1994, logo após a publicação de As Horas de Katharina, você voltou algumas vezes, fez palestras, participou de seminários, e estão nos arquivos da Fundação Joaquim Nabuco a sua Aula Magna, de abril de 1997, agora também reproduzida parcialmente, das páginas 43 a 53, no medular ensaio IV, “A Sombra da Carne & o Drama da Razão”, de O Mundo Como Idéia. Mas sua primeira grande polêmica, que por aqui funcionou como verdadeiro rastilho de pólvora incendiado, foi citar, nas páginas amarelas da revista Veja de 20 de março de 1966, um dos nossos poetas como um dos maiores da lírica brasileira. Ora, a crítica do sul do país, principalmente, vem alardeando, depois da morte de Cabral, que a poesia pernambucana não existe. Você concorda com esse argumento?

BT. Ora, ora, a "crítica" do sul maravilha ainda preocupa alguém! Será que estamos falando dos eternos marqueteiros da Paulicéia Desvalida? À parte Hilda Hilst, Lygia Fagundes Telles e mais um ou outro talento, como Chamie, Piva e Raduan, por exemplo, o que é essa gente em comparação com o resto do país? A poesia, a arte, o gênio nacional sempre vingaram no Nordeste ou nas Minas Gerais, enquanto tudo convergia para a Corte, que obviamente nunca se saiu muito mal, com Machado, Cecília, Vinícius... Hoje em dia, cem anos depois de S.Paulo ter começado a aparecer no mapa artístico-cultural do país, há uma chance de que, com o enraizamento de novas levas de imigrantes, sobretudo do Norte, miscigenados aos netos e bisnetos de imigrantes europeus e levantinos (que construíram uma metrópole vibrante mas artisticamente tão débil quanto presunçosa), pode ser que essa nova fermentação venha a produzir grande arte. Há sinais disso. Mas até lá, são os do Norte que têm e fim de papo! Ou será por acaso que hoje, neste exato instante, nossos três maiores vates sejam o maranhense Gullar, a mineira Adélia e o pernambucano Cunha Melo? Minas anda mal das pernas, mas no Nordeste não há desníveis flagrantes entre o mais alto e o imediatamente contígüo, a média é altísssima. E sempre foi assim por aí, o que esperamos é que a moda pegue por cá...


CR.: A IV Feira Internacional do Livro, a se realizar entre os dias 4 a 12 de outubro, do corrente ano, aqui em Pernambuco, vai ter como homenageada a Geração 65. Ela nasceu silenciada pela ditadura política e pela ditadura estética das vanguardas brasileiras, paradoxalmente ao advento da televisão no país que presumia uma democratização da informação, da boa informação. As vanguardas tinham níveis de recepção invejáveis e, numa geografia abrangente, podemos observar que, rumando do Sul para o Norte, uma inquietante sombra obscurece a produção literária de escritores das décadas de 70 e 80. Salvo exceções episódicas nenhum poeta da Geração 65 aderiu a essas vanguardas, reforçando assim o já famoso isolacionismo da poderosa mídia do Sul, em relação ao resto do país. Alberto da Cunha Melo, Almir Castro Barros, Ângelo Monteiro, Lucila Nogueira, Marco Polo, Marcus Acciolly, Tereza Tenório, para citar aqui, entre aproximadamente trinta escritores, aqueles que tiveram obras recentemente lançadas, são poetas dessa Geração. Qual a sua opinião sobre a poesia produzida por eles?

BT.: A mim, em todo caso, nunca me aconteceu de ler um só mau poeta pernambucano... O desconhecimento nacional da estupenda safra de vates da Geração 65, cujo pano-de-fundo me parece bem descrito na pergunta, é simplesmente um escândalo, e temo que tenha sido um escândalo deliberado, inclusive com a cumplicidade de alguns conterrâneos de maior projeção pessoal no Sul Maravilha. Aliás, é esse um traço lastimável do Rubro Veio, vocês vivem cortando os pulsos uns dos outros, deve ser coisa de nordestinado, nisso só os cearences não são tolos. Por isso mesmo sempre mandaram ver, quando não mandaram no Brasil... Se os pernambucanos fossem unidos como eles e adoráveis como os baianos, punham Pindorama no bolso, o MASP, por exemplo, estaria no Recife, afinal foi um nordestino quem o concebeu e fez... Porque não é só na poesia que a turma aí é de primeira, a pintura também é impressionante. Mas Deus sabe o que faz: assim, enquanto vocês fingem que não se lêem, não se vêem e não se conhecem, sobra um pouquinho para nós aqui por baixo... Mas já são horas de acordar, minha gente, afinal até nosso Presidente já é pernambucano! E, cá entre nós, parece que a USP anda buzina com ele...



CR.: Você afirmou, recentemente, que "Poesia é fonte, prosa é água de balde..." Poderia explicar melhor essa afirmativa?

BT.: Afirmativa não, provocação, um arroto à mesa com o fim de instigar o debate sobre uma questão crucial na qual se tem pensado pouco por aqui. A equação é simples: há água de fonte e água encanada, a que sai da torneira a um mero gesto distraído da mão, uma água que é sempre água, claro, mas que ainda assim é e não é a mesma. Há aquele elemento vital que surge das profundezas, e há a poça, o açude, a represa... Mas deixemos a metáfora, até porque não há nada demais na trans-formação de uma nascente em canal de irrigação, por exemplo. O fato é que a linguagem profunda de um povo é sempre musical, ou seja, vem do ventre telúrico, obscuro, elementar, do mistério humano, como no famoso soneto de Rilke (O Brunnen-Mund, du Gebender, du Mund...) sobre a "boca da fonte" com que a terra se fala a si-mesma no "ouvido de mármore de um tanque..." A poesia nasce dessas profundezas e mobiliza as forças do ser inteiro a partir das raízes do sentimento rumo aos cumes do entendimento. A prosa dita "de ficção" é um fenômeno recente, mais uma inflamação pós-renascentista, ou seja, um sinal do declínio das faculdades superiores do espírito humano, o abandono do campo do espírito – que é sempre uno, a um tempo aglutinador e analítico – às parvices conceitualizantes do meramente especulativo; para este, de resto, sempre houve a filosofia, o ensaio reflexivo que, estes sim, são do domínio da mente total e alerta, onde a vida do espírito não se abandona ao aleatório nem se deixa contaminar pelo simplesmente instintual. A paixão do anedótico é o exato oposto do espírito de síntese, e este pertence por natureza à linguagem da emoção elucidada. Eliot observa que onde a emoção se adensa a mesma prosa começa a ritmar-se, a beirar aquele transbordamento da percepção na iluminação que chamamos "poesia", trate-se de verso ou não. Não é à toa que o poema em prosa nasce do desconcerto existencial oitocentesco, das falências e carências da emoção às turrras com a reflexão no século XIX. Note-se, nesse sentido, que o romance, por exemplo, só se firma no século XVIII, na esteira da baboseira iluminista, essa mãe-madrasta de todas as bisbilhotices. Ilustra esse ponto o fato, por exemplo, de que ao ápice de seu embasbacamento, o século de Kant, que sucede ao de Descartes e precede o de Hegel (A Chatíssima Trindade), o século XVIII não produziu um só poeta maior, nenhum verdadeiramente grande; em compensação, a esterilidade emocional-reflexiva era de tal ordem por aqueles tempos que até Voltaire "se meteu a fazer poesia"... Nessa perspectiva, Goethe, a rigor, não é um contemporâneo do intrigante Gepetto de Candide, menos ainda um cupincha do Idealismo Alemão (que seria mais cor-reto chamar de conúbio franco-germânico, daí o parentesco da Guilhotina com o Forno Crematório de Auschwitz...). Nada disso, o mestre do Dichtung und Warheit é um tradutor do uno no vário, um mediador, se quisermos, do espírito do classicismo no tumultuoso Stimung do primeiro romantismo, o de Novalis, Schiller, Hoelderlin, Heine, Blake, Nerval... Todos, observe-se, vozes do século seguinte, o XIX, o século em que nasce a figura do poeta maldito, que é quando a poesia rompe com o status quo, e a prosa, ainda que grandiosa em seus primórdios, passa a imperar, cada vez mais travestida de aia de luxo da Dama Idéia. O processo parece irreversível, mas o irremediável, o incurável, não indicam nenhuma superioridade da doença sobre o corpo sadio, é apenas uma fatalidade, uma, no caso, particularmente lamentável. Porque, se tivemos Tolstoy, Balzac, Flaubert, Dostoi-ewski, Austen, Dickens, Machado, Conrad, Checov, Proust, Borges, James, Mann, Joyce, Musil, Faulkner, e tantos outros cimos da mais fina arte de prosa, em compensação a poesia foi gradual-mente sumindo ou se encolhendo, até virar letra de canção nas periferias mais desvalidas... A coisa anda tão mal das pernas em certas filiais do Congo que, hoje em dia, até inteleco-teco-tuais ganham diploma de poeta porque usaram ao mesmo tempo duas rimas e três neurônios...
CR.: Nestes tempos em que cada vez mais se reivindica uma universidade pragmática e aliada ao desenvolvimento tecnológico, é bom lembrar o que disse Otto Maria Carpeau, em seu livro A Cinza do Purgatório: "As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. Elas não formam homens práticos; formam o tipo ideal de nação: o lettré, o gentleman, o gebildeter". Para ele, estas forjaram " a história espirirual das nações". Entre os dois tipos, com qual se identifica a universidade brasileira? Com qual deles você se identifica?

BT.: O homem moderno está infelicíssimo com o cadáver de um rei inchado na barriga... É o cadáver do humanismo prometéico que há cinco séculos vem "nascendo" aos pedaços: o racionalismo, o ateísmo, o espiritismo, o positivismo, o cientificismo, o darwinismo, o marxismo, o impressionismo, o expressionismo, o dadaísmo, o surrealismo, o cubismo, o vanguardismo, o dodecafonismo, o comunismo, o fascismo, o stalinismo, o terceiro-mundismo, o existencialismo, o satanismo, o sadhanismo, o bushismo, o budismo, o pacifismo, o peronismo, o cheguevarismo, o fidelcastrismo, o modernismo, o pós-modernismo, o nudismo, o pós-nudismo, o versolibrismo, o desconstrucionismo, a Marxilenaxuxauí, o Santo Daime e o Doutor Enéas, sem falar da USP e do pós-uspianismo... Tudo isso por aqui deu no Gianotti, no Fernandinho Beira Mar, no Elias Maluco, no casal Garotinho e no Piscinão de Ramos, enquanto por lá deu na arte do genoma e da clonagem, ou seja, no bebê de proveta com a Líbia do Doutor Gadhafi de guardiã dos direitos humanos segundo a ONU... Em meio a um tão animado bundalelê, meus amigos, eu não prefiro esta ou aquela universidade, prefiro ler Dante e aguardar a Paurosia, afinal, que os mutantes se divirtam, eu creio no Divino Espírito Santo, na Santa Igreja Católica Apostólica, na remissão dos pecados, na comunhão dos santos, na ressurreição da carne e na vida eterna, Amém.