terça-feira, 29 de setembro de 2009

Rimbau e Jim [Parte 1]





Poucos devem entender, mas eu não ousaria fazer um texto falando sobre Jim Morrison e Rimbaud, para uns a admiração cria uma intimidade com o ídolo, já no meu caso é o contrario, esse elo é frágil, a intimidade é transformada em respeito e eu não ousaria escrever delimitando os pensamentos deles, ou escrever sobre o que eles pensavam e no que se baseia as obras. De certa forma acredito que não existe maneira melhor de conhecer o artista se não for conhecer o material que ele deixou...

Talvez seja por isso eu não ouso ouvir The Doors com alguém, a música é o momento de ligação entre o artista e nós,quando nós vamos além, alguns encontram Deus na religião,outros encontram nas ciências,na Natureza,eu encontro Deus na música,ou seja,é algo intimo de mais para ser exposto por aí.
(Concordam?)
Encontrei um homem que pensa diferente, esse é Cláudio Vigo,que escreveu um texto sobre Jim,Rimbaud e Henry Mille.Deixo aqui o texto dele pra vocês. : )

É triste, mas verdadeiro: a grande maioria das pessoas passa por esta vida imersa na multidão, cumprindo prazos, pagando contas, morrendo de medo do futuro e idealizando um passado remoto que é na maioria das vezes uma montoeira de seqüelas. Outros (poucos, loucos e raros) desafiam, desafinam este coro de contentes descontentes. Jean Arthur Rimbaud no séc XIX e Jim Morrison no séc XX, entre outras almas solitárias e radicais, chegaram na beira do abismo e resolveram experimentar que gosto tinha o pulo.
Pagaram caro, a ousadia de queimar em pouco tempo todos os cartuchos. Algumas coincidências, nestes percursos, são fascinantes. Anjos caídos de um inferno particular apontaram para o futuro e tocaram (sem a mínima cerimônia) os atalhos do absoluto.

Wallace Fowlie é atualmente um homem de muita idade. Nascido em 1918 é professor Emérito de Literatura Francesa da cátedra James.B. Duke da Duke University. É autor e tradutor de mais de trinta livros, dentre eles a Obra Completa de Rimbaud vertida para o inglês. Um erudito especializado em Proust, Claudel, Stendhal, Dante etc, e que nunca tinha tido sequer a curiosidade de escutar um disco de Rock'N'Roll até que recebeu uma carta curta que o deixou um tanto surpreendido: "Caro Wallace Fowlie, simplesmente queria agradecer-lhe pela tradução de Rimbaud. Eu precisava porque não leio francês tão facilmente(...) Sou cantor de Rock e seu livro me acompanha nas turnês. Jim Morrison".

No dia seguinte perguntou a seus alunos se alguém ali conhecia este cantor, para ele totalmente anônimo. A turma ficou muda e perplexa com tamanha ignorância. Ele então resolveu checar e arrumou os discos do The Doors para conferir. O fascínio com o radicalismo das letras de Morrison e a idolatria de seus alunos o transformaram em um inesperado admirador e daí em diante um estudioso de mais um poeta, mais um outsider que ao invés de ficar restrito aos livros e ao público leitor de poesia era um popstar de primeira grandeza, um ídolo de multidões ensandecidas que sonhava em ter sua obra literária reconhecida e que assim como Rimbaud dentro de muito pouco tempo ia chegar em um beco sem saída e pular fora (drop out) de tudo.

"O poeta torna-se vidente através de um longo desregramento de todos os sentidos". Isto parece saído da boca de Morrison, mas foi escrito por Rimbaud quase um século antes e estas afinidades estão bem claras no livro lançado agora aqui no Brasil chamado Rimbaud e Jim Morrison, de Wallace Fowlie (Ed Campus -2004), onde o autor faz um paralelo bastante interessante e instigante sobre as coincidências de vida e obra destes dois radicais do espírito. Bem didático e, claro, não traz muitas novidades para quem está acostumado com as duas obras, mas serve como excelente introdução para vôos maiores.

Henry Miller, mais um destes loucos radicais de seu tempo, também lhe dedicou um pequeno, mas excelente livro - A Hora dos Assassinos - um estudo sobre Rimbaud (L&PM -2004), onde faz um apanhado de sua experiência pessoal à bordo das viagens do enfant terrible do nomadismo da alma. "E dizer que foi um mero garoto que abalou os ouvidos do mundo! A aparição de Rimbaud sobre a terra não tem qualquer coisa de simplesmente milagrosa, como o despertar de Gautama ou a aceitação da cruz por Cristo ou a incrível libertação de Joana Darc? Interprete-se a sua obra como se preferir, explique-se a sua vida como se quiser, a verdade é que não há como lhe reduzir a importância. O futuro, mesmo que não exista, lhe pertence".
Pois Jim Morrison, a exemplo de Rimbaud, também é uma lenda maior do que si mesmo e foi leitor voraz de toda sua obra, assim como desta pequena jóia escrita por Henry Miller. Como não imaginar o fascínio que o radicalismo e principalmente o exílio de Rimbaud traziam a Morrison? Muitos de seus fãs mais exaltados crêem com convicção que o Rei Lagarto ainda está vivo em alguma África distante livre do desespero da disponibilidade de se pôr à beira do abismo, dos transtornos da criatividade e do desregramento de todos os sentidos. As portas da percepção quando abertas podem se tornar insuportáveis e os analgésicos para isto podem incluir as drogas ou simplesmente o abandono, seja dos atalhos escritos e descritos ou mesmo da vida, do inferno em que se meteu.




Como diz Fowlie: "Rimbaud usou a palavra inferno em sentido Teológico. Ele só queria passar uma temporada ali, porque sabia que no inferno não se tem energia para nenhuma mudança positiva. Jim Morrison entenderia o significado da palavra inferno, muito embora não a tenha usado. Ele foi um exemplo deste dom de mudança que os jovens possuem. E possuem também um olhar mais aguçado do que o dos mais velhos para o que se encontra apodrecido na sociedade e, por isso, sentem a urgência de purifica-la atacando a chaga da apatia, que impede as mudanças e o desenvolvimento de uma personalidade mais sã".
Conheci o The Doors no final dos anos 70, época em que estavam praticamente esquecidos. Era relativamente pouco comum encontrar um disco deles e mais raro ainda quem gostasse. Fiquei bastante impressionado, mas entendi muito pouco o que aquilo tudo representava. Era mais uma banda de rock onde o cantor havia morrido de overdose e só. Com o passar do tempo e os interesses se modificando, me caiu nas mãos uma tradução de Uma temporada no Inferno, Iluminações e do Barco Bêbado de Rimbaud. O impacto destas leituras foi imediato e aquelas imagens um tanto desconexas e dilaceradas foram ficando como se fossem uma tatuagem interna. O fascínio de saber que aquilo tudo tinha sido produzido por um moleque um pouco mais novo do que eu e que havia abandonado tudo me intrigava como me fascina até hoje. 


2 comentários:

Ronerik Holanda disse...

Já escutamos The Doors ao mesmo tempo e no mesmo lugar... =)

Bruna disse...

Mas nunca Juntos.
Com o sentido mais intenso da palavra.rsrsrs