sexta-feira, 30 de outubro de 2009





"Botas...as botas apertadas são uma das maiores venturas da terra, porque, fazendo doer os pés, dão azo ao prazer de as descalçar."
"Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento."

"Lágrimas não são argumentos."

Machado de Assis

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

A EMERGÊNCIA DO CYBERSPACE E AS MUTAÇÕES CULTURAIS


Pierre Lévy

O que seria o espaço cibernético? O espaço cibernético é um terreno onde está funcionando a humanidade, hoje. É um novo espaço de interação humana que já tem uma importância enorme sobretudo no plano econômico e científico e, certamente, essa importância vai ampliar-se e vai estender-se a vários outros campos, como por exemplo na Pedagogia, Estética, Arte e Política. O espaço cibernético é a instauração de uma rede de todas as memórias informatizadas e de todos os computadores. Atualmente, temos cada vez mais conservados, sob forma numérica e registrados na memória do computador, textos, imagens e músicas produzidos por computador. Então, a esfera da comunicação e da informação está se transformando numa esfera informatizada. O interesse é pensar qual o significado cultural disso. Com o espaço cibernético temos uma ferramenta de comunicação muito diferente da mídia clássica, porque é nesse espaço que todas as mensagens se tornam interativas, ganham uma plasticidade e têm uma possibilidade de metamorfose imediata. E aí, a partir do momento que se tem o acesso a isso, cada pessoa pode se tornar uma emissora, o que obviamente não é o caso de uma mídia como a imprensa ou a televisão. Então, daria para a gente fazer uma tipologia rápida dos dispositivos de comunicação onde há um tipo em que não há interatividade porque tem um centro emissor e uma multiplicidade de receptores. Esse primeiro dispositivo chama-se Um e Todo.

Uma outra versão é o tipo Um e Um, que não tem uma emergência do coletivo da comunicação, como é o caso do telefone. O espaço cibernético introduz o terceiro tipo, com um novo tipo de interação que a gente poderia chamar de Todos e Todos, que é a emergência de uma inteligência coletiva. Do interior do espaço cibernético encontramos uma variedade de ferramentas, de dispositivos, de tecnologias intelectuais. Por exemplo, um aspecto que se desenvolve cada vez mais, nesse momento, é a inteligência artificial. Há também os hipertextos, os multimídia interativos, simulações, mundos virtuais, dispositivos de tele-presença. É preciso não esquecer, por outro lado, que a própria mídia hoje está numa hibridação com o espaço cibernético, onde ela se vê obrigada a se abrir para isto... Mas, o que há de comum entre todas essas tecnologias, entre todas essas formas de mensagens? O que implica uma mensagem numerada e os outros tipos de mensagens? Uma mensagem numeralizada se caracteriza pelo fato de que se pode controlar essa estrutura de perto e de maneira muito fina. Então, os bits da informática são como gens na genética, isto é, a microestrutura. Fazem parte de um conjunto de tecnologia e vão em direção a um controle molecular de seu objeto, o que dá uma fluidez a todas essas mensagens e lhes dá também a possibilidade de uma circulação muito rápida. O que há em comum em todas as bases nos bancos de dados do espaço cibernético? Não são as mensagens fixas, mas um potencial de mensagens e que, dependendo de quem vai utilizá-los, vai para uma direção ou outra. O que acontece é que, com isso, se recupera a possibilidade de ligação com um contexto que tinha desaparecido com a escrita e com todos os suportes estáticos de formação. É possível através disso reencontrar uma comunicação viva da oralidade, só que, evidentemente, de uma maneira infinitamente mais ampliada e complexificada. Por exemplo, é isto que observamos com o que acontece, hoje, com o hipertexto ou multimídia interativa. O importante é que a informação esteja sob forma de rede e não tanto a mensagem porque esta já existia numa enciclopédia ou dicionário.

Portanto, a verdadeira mutação se passa noutros aspectos. Em primeiro lugar, não é mais o leitor que vai se deslocar diante do texto, mas é o texto que, como um caleidoscópio, vai se dobrar e se desdobrar diferentemente diante de cada leitor. O segundo ponto é que tanto a escrita como a leitura vão mudar o seu papel, porque o próprio leitor vai participar da mensagem na medida em que ele não vai estar apenas ligado a um aspecto. O leitor passa a participar da própria redação do texto à medida que ele não está mais na posição passiva diante de um texto estático, uma vez que ele tem diante de si não uma mensagem estática, mas um potencial de mensagem. Então, o espaço cibernético introduz a idéia de que toda leitura é uma escrita em potencial. O terceiro ponto que, sem dúvida, é o mais importante, é que estamos assistindo uma desterritorialização dos textos, das mensagens, enfim, de tudo o que é documento: tanto o texto como mensagem se tornam uma matéria.

Assim como se diz “tem areia”, “tem água” se diz “tem textos”, “tem mensagens” pois eles se tornam matérias como se fossem fluxos justamente porque o suporte deles não é fixo, porque no seio do espaço cibernético qualquer elemento tem a possibilidade de interação com qualquer outro elemento presente. Então, isso não é uma utopia daqueles que experimentaram, conhecem e participam da Internet. É como se todos os textos fizessem parte de um texto, só que é o hipertexto, um autor coletivo e que está em transformação permanente. É como se todas as músicas passassem a fazer parte de uma mesma polifonia virtual e potencial, como se todas as músicas fizessem parte de uma só música, também ela virtual e potencial. Acredito que o texto não vai absolutamente desaparecer com a informatização. O que vai desaparecer é a noção de página, porque na etimologia a página se refere a um campo e um campo com proprietário, com fronteiras delimitadas . Esta página com o campo circunscrito está desaparecendo uma vez que os elementos que a compõem navegam nos fluxos.

O espaço cibernético envolve, portanto, dois fenômenos que estão acontecendo ao mesmo tempo: a numerizaqção que implica essa plasticidade de potencial de todas as mensagens seria o primeiro aspecto e o fato de que as mensagens potenciais são postas em rede e fluxo é o segundo fenômeno.

Desta forma, o espaço cibernético está se tornando um lugar essencial, um futuro próximo de comunicação humana e de pensamento humano. O que isso vai se tornar em termos culturais e políticos permanece completamente em aberto, mas, com certeza, dá para ver que isso vai ter implicações muito importantes no campo da educação, do trabalho, da vida política, das questões dos direitos, como por exemplo, no direito de propriedade. Hoje não se pode ter um projeto técnico se você não tiver uma visão cultural organizadora desse projeto, assim como não se pode ter um projeto cultural sem incluir a técnica. Por isto, é difícil estar distinguindo essas dimensões sociais, culturais e técnicas.

O espaço cibernético se encontra também na origem de uma nova arquitetura, de um novo urbanismo. Poderíamos até dizer de uma nova política porque se trata de uma nova pólis que está se constituindo. É assim que pedagogos, artistas, psicólogos, etc, que geralmente não se interessavam por fenômenos técnicos tem passado a se preocupar com estes problemas. O novo equipamento coletivo de sensibilidade, de inteligência, de relação social está, de fato, nascendo em silêncio. Trata-se de um equipamento coletivo de subjetivação. Para falar do critério de escolha em relação a essa questão da técnica, o critério que este novo equipamento propõe é um critério de escolha ética e política.

O interessante nas possibilidades que se abrem com a emergência de uma nova inteligência a partir disto é que se trata de uma inteligência coletiva, ou seja, estamos na direção de uma potencialização da sensibilidade, da percepção, do pensamento, da imaginação e isso tudo graças a essas novas formas de cooperação e coordenação em tempo real. Trata-se de equipamentos que podem ajudar o aprendizado e a aquisição de saberes. Então, o inimigo necessário de ser evitado é o isolamento, a separação. É preciso pensar em equipamentos de comunicação que, ao invés de fazer uma difusão como a mídia tradicional (difusão de uma mensagem por toda parte), faz com que esses dispositivos estejam à escuta e restituam toda a diversidade do presente no social. Uma outra coisa que é possível explorar é o fato de que estes equipamentos favorecem a emergência da autonomia, tanto de indivíduos quanto de grupos, onde o inimigo é a dependência.

É preciso imaginar, então, que a partir desses sistemas de comunicação quanto mais eles sejam utilizados mais eles se aperfeiçoam, se desenvolvem, ficam melhores. O que acontece hoje é o contrário: as informações vão se degladiando e cada um fica perdido nessa massa de informações. Com as redes, podemos pensar equipamentos de tecnologia que possam permitir que cada um se beneficie dessa inteligência.

Eu vou colocar alguns exemplos em campos diferentes, como a semiótica, epistemologia, artes e política. Começando pela semiótica eu vou propor um exercício de pensamento. Suponhamos que a gente dispõe de todos esses equipamentos atuais mas não se tem uma escrita alfabética, por exemplo. Vamos imaginar que fosse preciso inventar uma escrita não dispondo da escrita alfabética e sim dispondo de todos esses equipamentos. Seria uma escrita alfabética o que inventaríamos? Eu acho que não, porque a escrita alfabética serve par anotar o som. Hoje, a gente tem infinitos meios de gravar o som e não precisamos mais de uma escrita alfabética. Mas há também escritas que vão colocar conceitos ou idéias como é o caso dos ideogramas chineses ou as escritas matemáticas.

Quando o alfabeto foi inventado só se dispunha de suportes fixos e, no entanto, agora dispomos de suportes de outro tipo. Eu acho que a gente está longe de ter explorado o que essa variedade de novos suportes permite. O que se costuma fazer é produzir imagens na multimídia que tem a ver com o suporte estático anterior. Hoje, por outro lado, se poderia estar inventando o que se chama de ideografia dinâmica, que explora completamente a inteligência e o caráter dinâmicos desses novos suportes, constituindo-se numa introdução a modelos mentais com toda sua plasticidade e dinamismo. Isso se encontra nos jogos de vídeo, que é o começo de uma linguagem animada. Mesmo quando o conteúdo cultural dos jogos de vídeo não seja extraordinário há, sem dúvida, um potencial muito interessante. A partir desse modelo a gente vê surgir novas formas de conhecimento por simulação que é muito diferente do estilo teórico hermenêutico que se apóia no estático, na verdade universal e em critérios de objetividade. Os novos critérios têm, ao contrário, a capacidade de mudar em função do contexto local. Quanto ao aspecto epistemológico algo interessante também acontece. Em linhas gerais, podemos dizer que a humanidade desenvolveu quatro ideais ou tipos de relação com o saber. Antes da escrita, o saber era ritual, místico e encarnado por uma comunidade viva. Tem um ditado africano que diz que quando um velho morre é uma biblioteca que pega fogo, que se incendia. Temos um segundo tipo ideal de relação com o saber que é o ligado à escrita, o saber trazido pelo livro. Em geral é um livro único suposto a conter tudo, como por exemplo, a Bíblia. Aí a figura do conhecimento não é mais o velho, mas o comentador, o intérprete.

Com o advento da imprensa, há um novo tipo ideal que não é mais o livro mas a biblioteca. Como vocês sabem as enciclopédias do século XVIII, na França, já eram verdadeiras bibliotecas porque eram volumes e mais volumes. Cada palavra, cada tema remetia um a outro e, assim, já era uma espécie de hipertexto, cuja navegação na biblioteca já era muito diferente do que o livro. Do comentador e intérprete passamos à figura do sábio ou erudito.

oje, entretanto, estamos assistindo à desterritorialização da biblioteca. É como se estivéssemos voltando às origens, onde o portador do saber era a comunidade viva, claro que de uma forma muito mais ampliada e diferenciada. Atualmente, o hipertexto não consegue conter a velocidade com que circula a informação. Como a informação é fluxo é como se o coletivo novamente fosse portador do conhecimento.


Então, o novo portador do saber no nosso novo horizonte seria a própria humanidade. Estamos falando não da humanidade no sentido genérico mas de uma humanidade viva enquanto espaço cibernético. O espaço cibernético aqui é entendido como esse espaço virtual onde a comunidade conhece a si mesma e conhece seu próprio mundo, porque são duas faces da mesma coisa. Não se trata mais de uma enciclopédia mas de uma espécie de plasmopédia, isto é, um espaço de saber vivo e dinâmico (para quem teve a oportunidade de conhecer o projeto das árvores de conhecimento que eu apresentei ontem, é justamente essa perspectiva que se encontra aí exemplificada).

Eu vou concluir com algumas observações no campo político. A configuração dominante da esfera política hoje é a mídia com essa estrutura triangular - mídia, sondagens, eleição - onde cada ponto reforça ao outro. As pesquisas reforçam a mídia, a mídia reforça as pesquisas, que reforça a eleição e por aí vai, numa estrutura fechada a três. É uma espécie de estrutura em estrêla onde se tem um centro, que parte lá de cima e depois uma periferia na base.


Desta forma, as questões que são colocadas nestas pesquisas para a eleição já chegam prontas e aquele que responde tem a possibilidade de pensar e se colocar, dizendo sim ou não. O outro elemento do triângulo é o das eleições, onde eu voto como representante, onde cada pessoa que vota participa de uma balança e o voto vai ajudar a balança a pender para um ou outro lado. O que se faz, nestes casos, é utilizar uma espécie de poder de massa para que uma ou outra pessoa, um ou outro programa chegue ao poder. Para isto, não se utiliza praticamente nada no sentido de trabalhar a imaginação e a inteligência das pessoas.


Então, não se tem o majoritário mas, por outro lado, a singularidade é algo que é apagada. Hoje, com a emergência do espaço cibernético podemos imaginar a emergência da imaginação e da inteligência das pessoas de uma outra forma, onde as pessoas não vão estar separadas entre si e ligadas todas em relação ao centro, mas onde serão multiplicadas as conexões transversais entre eles. E, nesse espaço de elaboração e decisão política, poderão se constituir maiorias e minorias diferentes para cada problema: cada problema vai constituir uma maioria e uma minoria. Aí, o pertencimento político não vai remeter a uma categoria massiva, a priori. Ele vai dizer respeito a uma configuração singular dentro de uma geografia de problemas limitada e construída permanentemente pela própria coletividade.

Temos, portanto os meios de restauração de uma democracia direta e em grande escala, porque, até agora, a democracia direta só podia funcionar em pequena escala, fazendo com que para milhares de pessoas espalhadas em territórios mais distantes não fossem envolvidas. Com o uso de novos instrumentos técnicos dá para fazer uma democracia direta distinta do sistema de representação (cuja organização política remete a um centro de decisão e que está completamente obsoleta na medida em que é tecnicamente obsoleto que as decisões sejam centralizadas).




Palestra realizada no Festival Usina de Arte e Cultura, promovido pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre, em Outubro, 1994. Tradução: Suely Rolnik. Revisão da tradução transcrita: João Batista Francisco e Carmem Oliveira.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Julio Cortázar

"Eu gosto de escrever para mim, tenho cadernos e mais cadernos, versos e até um romance, mas gosto mesmo é de escrever e quando acabo é como quando a gente vai se deixando escorregar de lado depois do gozo, vem o sono e no outro dia já há outras coisas que bateu à sua janela, escrever é isso, abrir os postigos para que entrem, um caderno depois do outro"
(Júlio Cortázar - 'Orientação dos Gatos').
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Bem; minh'alma é parte Cortázar.
D.Q.M.
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terça-feira, 27 de outubro de 2009



Por detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não usa máscara.


Oscar Wilde

segunda-feira, 26 de outubro de 2009


A saudade não tem nada de trivial. Interfere em nossas vidas um modo as vezes sereno, as vezes não. É um sentimento bem-vindo, pois confirma o valor quem é ou foi importante para nós, e é ao mesmo tempo um um sentimento incômodo, porque acusa a ausência e os ausentes sempre nos doem.


Martha Medeiros

domingo, 25 de outubro de 2009



Domingo é o dia dos ecos – quentes, secos, e em toda a parte zumbidos de abelhas e vespas, gritos de pássaros e o longínquo das marteladas compassadas – de onde vêm os ecos de domingo? Eu que detesto domingo por ser oco.


Clarice Lispector

sábado, 24 de outubro de 2009

Poema dos olhos da amada




Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe nos breus...


Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus...


Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas eras
Nos olhos teus.


Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.




Autor: Vinícius de Morais
Fotografia: Carol d’Avila 

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

par-ide-ira

"Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria"
[Memórias póstumas de Brás Cubas].
.
.
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Terei filhos, porque é mais miserável se acomodar.
Desculpa aé, Machado.

p.s: uma das citações mais fortes que eu presenciei.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

O MELHOR CONSELHO

"Seu cérebro é o cérebro definitivo"
(WALT WHITMAN)


JUSTIFICATIVA: como pediram pra justificar, direi que LEAVES OF GRASS vale a pena. Achei a edição bilingue por 44 reais quem tiver afim de fazer uma doação... é por uma boa causa...não é o salvamento das formigas na travessia da vala mais próxima, mas é uma grande passo para a 'humanidade'. E o "MELHOR CONSELHO" é: leiam "Who Learns My Lesson Complete/'Quem aprendeu minhas lições completamente?'" deste poeta norte-americano. Abraço na alma.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A MULHER DO TOPO




"As Melhores Mulheres pertencem aos homens mais atrevidos. Mulheres são como maçãs em árvores. As melhores estão no topo. Os homens não querem alcançar essas boas, porque eles têm medo de cair e se machucar. Preferem pegar as maçãs podres que ficam no chão, que não são boas como as do topo, mas são fáceis de se conseguir. Assim, as maçãs no topo pensam que algo está errado com elas, quando na verdade, ELES estão errados... Elas têm que esperar um pouco mais para o homem certo chegar... aquele que é valente o bastante para escalar até o topo da árvore”.

(Machado de Assis)

Momento 4

Apesar de todas as coisas perdidas,
da decisão indecisa,
da incoveniência por conveniência,
do grito que faltou no tempo,
do tempo que faltou ao grito,
aqui estou confinado
entre o esquecimento e a indiferença.


Apesar de tudo,
resta um nada...
(sempre restará um nada)
e esse nada é alguma coisa...


Notícias de bordo: Poemas Selecionados
Autor: Linhares Filho

segunda-feira, 19 de outubro de 2009







Cruz na porta da tabacaria





Autor: Fernando Pessoa
Nada de leituras,é hora de fechar os olhos e ir além.




Autor: Fernando Pessoa
Interpretação de : Autran


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Você é um Número



Se você não tomar cuidado vira um número até para si mesmo. Porque a partir do instante em que você nasce classificam-no com um número. Sua identidade no Félix Pacheco é um número. O registro civil é um número. Seu título de eleitor é um número. Profissionalmente falando você também é. Para ser motorista, tem carteira com número, e chapa de carro. No Imposto de Renda, o contribuinte é identificado com um número. Seu prédio, seu telefone, seu número de apartamento - Tudo é número.
Se é dos que abrem crediário, para eles você também é um número. Se tem propriedades, também. Se é sócio de um clube tem um número. Se é imortal da Academia Brasileira de Letras tem número da cadeira.
É por isso que vou tomar aulas particulares de Matemática. Preciso saber das coisas. Ou aulas e Física. Não estou brincando: vou mesmo tomar aulas de Matemática, preciso saber alguma coisa sobre cálculo integral.
Se você é comerciante, seu alvará de Localização o classifica também.
Se é contribuinte de qualquer obra de beneficência também é solicitado por um número. Se faz viagem de passeio ou de turismo ou de negócio recebe um número. Para tomar um avião, dão-lhe um número. Se possui ações também recebe um, como acionista de uma companhia. É claro que você é um número no recenseamento. Se é católico recebe um número de batismo. No Registro civil ou religioso você é numerado. Se possui personalidade jurídica tem. E quando a gente morre, no jazigo, tem um número. E a certidão de óbito também.
Nós não somos ninguém? Protesto. Aliás é inútil o protesto. E vai ver meu protesto também é número.
A minha amiga contou que no Alto do Sertão de Pernambuco uma mulher estava com o filho doente, desidratado, foi ao Posto de Saúde. E recebeu a ficha com o número 10. Mas dentro do horário previsto pelo médico a criança não pode ser atendida porque só atenderam até o número 9. A criança morreu por causa de um número. Nós somos culpados.
Se há uma guerra, você é classificado por um número. Numa pulseira com placa metálica, se não me engano. Ou numa corrente de pescoço, metálica.
E Deus não é número.
Vamos ser gente, por favor. Nossa sociedade está nos deixando secos como um número seco, como um osso branco seco exposto ao Sol. Meu número íntimo é 9. Só 8. Só 7. Só. Sem somá-los nem transformá-los em novecentos e oitenta e sete. Estou me classificando com um número? Não, a intimidade não deixa. Veja, tentei várias vezes na vida não ter um número e não escapei. O que faz com que precisemos de muito carinho, de nome próprio, de genuinidade. Vamos mar que o amor não tem número. Ou tem?

Clarice Linspector

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Da vez primeira em que me assassinaram,


Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.

Depois, a cada vez que me mataram,

Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada.

Arde um toco de Vela amarelada,

Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!

Pois dessa mão avaramente adunca

Não haverão de arracar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!

Que a luz trêmula e triste como um ai,

A luz de um morto não se apaga nunca!





Mario Quintana

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Meu Deus, me dê a coragem
de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites,
todos vazios de Tua presença.
Me dê a coragem de considerar esse vazio
como uma plenitude.
Faça com que eu seja a Tua amante humilde,
entrelaçada a Ti em êxtase.
Faça com que eu possa falar
com este vazio tremendo
e receber como resposta
o amor materno que nutre e embala.
Faça com que eu tenha a coragem de Te amar,
sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo.
Faça com que a solidão não me destrua.
Faça com que minha solidão me sirva de companhia.
Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.
Faça com que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Receba em teus braços
o meu pecado de pensar.


Autor: Clarice Lispector

Viagem


Rodar pelos cantos e lugares
Passar pelos bares
Porque conhecendo cidades
Morreremos por nossas próprias vontades
Raquítico
.

"... Mas ele deteve-me e quis saber como imaginava eu essa outra vida. Repliquei:
- Uma vida onde me pudesse lembrar desta vida. - E disse-lhe que já bastava (...)
Pus-me a gritar em altos berros e insultei-o e disse-lhe para não rezar e que, mesmo que houvesse um inferno, não me importava, pois era melhor ser queimado no fogo do que desaparecer".
(O Estrangeiro / Albert Camus)


Obs: Bem, não é ateísmo. É só o maravilhoso ABSURDO/EXISTENCIAL de Albert Camus.

D.Q.M.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009


Eu passava muito bem sem Deus e, se utilizava o seu nome, era para designar um vazio que tinha, a meus olhos, o clarão da plenitude.




Simone de Beauvoir

domingo, 11 de outubro de 2009

Vernissage





Bem, a arte morreu, e agora? Vamos para casa?
Algumas possibilidades de transformação na arte e através da arte.

O que é tão engraçado a respeito da Arte?

A Arte foi gargalhada até a morte pelo dada? Ou talvez este sardonicídio se deu ainda antes, com a primeira performance do Ubu Rei? Ou com a gargalhada sarcástica de fantasma-da-ópera do Baudelaire, que tanto perturbava seus bons amigos burgueses?

O que é engraçado a respeito da Arte (apesar de ser mais engraçado-peculiar do que engraçado-haha) é a visão do cadáver que se recusa a cair, este gincana de mortos-vivos, este teatro de marionetes macabro com todas as cordas ligadas ao Capital (um plutocrata inchado tipo Diego Rivera), este simulacro moribundo zumbizando freneticamente por aí, fingindo ser a única coisa viva de verdade em todo o Universo.

Em face de uma ironia como esta, uma duplicidade tão extrema que chega a um abismo intransponível, qualquer poder de cura de uma gargalhada-na-arte tem que ser no mínimo tomado como suspeito, a propriedade ilusória de uma auto-proclamada elite ou pseudo-vanguarda. Para haver uma vanguarda genuína, a Arte deveria estar indo a algum lugar, e há muito tempo já que este não é o caso. Mencionamos Rivera; certamente nenhum outro artista político genuínamente engraçado chegou a pintar em nosso século - mas para que fim? Trotskysmo! A mais morta e sem saída das políticas do século XX! Sem poder de cura aqui - apenas o barulho oco da zombaria sem poder, ecoando através do abismo.

Para curar, é preciso primeiro destruir - e a arte política que falha em destruir o alvo de seu riso acaba fortificando exatamente as forças que pretende atacar. "O que não me mata me deixa mais forte," diz com desprezo a figura suína em sua cartola brilhante (imitando Nietzsche, é claro, pobre Nietzsche, que tentou gargalhar todo o século dezenove até a morte, mas acabou como um cadáver vivo, cuja irmã lhe amarrou cordas em seus membros para fazê-lo dançar para os fascistas).

Não há nada particularmente misterioso ou metafísico sobre o processo. As circunstâncias, a pobreza, certa vez forçaram Rivera a aceitar um trabalho para vir aos EUA e pintar um mural - para Rockfeller! - o próprio arquétipo máximo de leitão da Wall Street! Rivera fez de seu trabalho uma peça gritante de panfletagem comunista - e então Rockfeller a obliterou. Como se isto não fosse engraçado o bastante, a piada de verdade é que Rockfeller poderia ter saboreado a vitória ainda mais docemente sem destruir o trabalho, mas pagando por ele e o exibindo, transformando-o em Arte, esse parasita banguela da decoração de interiores, essa piada.

O sonho do Romantismo: que a o mundo-realidade dos valores burgueses poderia de alguma maneira ser persuadido a consumir, a absorver, uma arte que à primeira vista se parecesse com todo o resto da arte (livros para ler, quadros para pendurar na parede, etc.), mas que secretamente infeccionaria a realidade com algo mais, algo que mudaria a maneira como é vista, viraria a mesa, colocaria no lugar os valores revolucionários da arte.

Este também foi o sonho do surrealismo. Até mesmo o dada, apesar de seu descarado show de cinismo, ainda ousava ter esperanças. Do Romantismo ao Situacionismo, de Blake a 1968, o sonho de cada vitória sobre o ontem se tornou conversinha decorativa de cada amanhã - comprado, mastigado, reproduzido, vendido, consignado a museus, bibliotecas, universidades e outros mausoléus, esquecido, perdido, ressurecto, tornado em loucura nostálgica, reproduzido, vendido, etc., etc., ad nauseam.

Para entender o quanto Cruikshank ou Daumier ou Grandville ou Rivera ou Tzara ou Duchamp destruíram a visão do mundo burguesa de seus tempos, é preciso se enterrar numa tempestade de referências históricas e se alucinar - já que de fato a destruição-pelo-riso foi um sucesso teóríco mas um fracasso na realidade - o peso morto da ilusão falhou em mover uma polegada com a gargalhada histérica, o ataque do riso. Não foi a sociedade burguesa que entrou em colapso no final, foi a arte.

Á luz do trote que foi pregado em nós, é como se o artista contemporâneo fosse colocado entre duas escolhas (uma vez que o suicídio não é uma solução): um, seguir lançando ataque atrás de ataque, movimento atrás de movimento, na esperança de que um dia (logo) "a coisa" vai ficar tão fraca, tão vazia, que vai evaporar e nos deixar sozinhos no campo de batalha; ou dois, começar imediatamente agora a viver como se a batalha já estivesse vencida, como se hoje o artista já não fosse um tipo especial de pessoa, mas cada pessoa um tipo especial de artista (foi isto que os Situacionistas chamaram de "a supressão e realização da arte").

Ambas estas opções são tão "impossíveis" que agir em qualquer uma delas seria uma piada. Não precisaríamos fazer arte "engraçada" por que apenas fazer arte seria engraçado o suficiente para soltar os intestinos. Mas pelo menos seria a nossa piada (quem pode dizer com certeza que falharíamos? "Eu amo não conhecer o futuro" - Nietzsche). Para que possamos começar a jogar este jogo, devemos provavelmente estabelecer certas regras para nós mesmos:

1. Não há questões. Não existe esse negócio de sexismo, fascismo, especismo, visualismo, ou nenhum outra "franquia de questão" que possa ser separada do complexo social e tratada com um "discurso" como um "problema". Há apenas a totalidade que divide todas estas "questões" ilusórias na completa falsidade de seu discurso, fazendo de todas as opiniões, prós e contras, em apenas bens-de-pensamento para serem compradas e vendidas. E esta totalidade é ela própria uma ilusão, um pesadelo maligno do qual estamos tentando (através da arte, do humor, ou de qualquer outro meio) despertar.

2. Tanto quanto possível, qualquer coisa que façamos deve ser feita fora da estrutura psíquica/econômica gerada pela totalidade como o espaço permissível para o jogo da arte. Como, você pergunta, nós ganharemos a vida sem galerias, agentes, museus, publicação comercial, a NEA* e outras agências em benefício das artes? Bem, ninguém precisa pedir pelo improvável. Mas ainda devemos exigir o "impossível" - ou então, por que catzo uma pessoa é artista?! Não é o suficiente ocupar um pedestal sagrado e especial chamado Arte de cima do qual se zomba da estupidez e injustiça do mundo "quadrado". A arte é parte do problema. O Mundo da Arte enfiou sua cabeça na própria bunda, e se faz necessário sair disto - ou então viver em uma paisagem cheia de merda.

3. Claro que se deve "ganhar a vida" de alguma maneira - mas o essencial aqui é viver. Seja o que for que fizermos, qualquer que seja a opção que escolhamos (talvez todas elas), o o quanto nos comprometamos, devemos orar para nunca confundir arte com vida: a Arte é breve, a Vida é longa. Devemos estar preparados para navegar, nomadizar, escorregar de todas as redes, nunca estabilizar, viver através de várias artes, fazer nossas vidas melhores que nossa arte, fazer da arte nosso grito no lugar de nossa desculpa.

4. O riso que cura (em oposição à gargalhada corrosiva e venenosa) pode apenas surgir de uma arte que é séria - séria, mas não sóbria. Morbidez sem sentido, niilismo cínico, tendências de frivolidade pós-moderna, resmungar/praguejar/reclamar/ (o culto liberal da "vítima"), exaustão, hiperconformidade irônica Baudrillardiana - nenhuma destas opções é séria o suficiente, e ao mesmo tempo nenhuma é intoxicada o bastante para servir aos nossos propósitos, muito menos para merecer o nosso riso.



Nota:

* - National Endowment for the Arts, uma entidade governamental americana que financia as artes.



Hakim Bey


Intervalo Doloroso


"Tudo me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor. Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de quinta, com um dossel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água. Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não posso lhe tocar. Raciocinar a minha tristeza? Para quê, se o raciocínio é um esforço? e quem é triste não pode esforçar-se. Nem mesmo abdico daqueles gestos banais da vida de que eu tanto quereria abdicar. Abdicar é um esforço, e eu não possuo o de alma com que esforçar-me. Quantas vezes me punge o não ser o manobrante daquele carro, o cocheiro daquele trem! qualquer banal Outro suposto cuja vida, por não ser minha, deliciosamente se me penetra de eu querê-la e se me penetra até de alheia! Eu não teria o horror à vida como a uma Coisa. A noção da vida como um Todo não me esmagaria os ombros do pensamento. Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda chuva contra um raio. Sou tão inerte, tão pobrezinho, tão falho de gestos e actos. Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia. Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de quem me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhêce-las durezas. Todos os pesos visíveis de objectos me pesam por a alma dentro. A minha vida é como se me batessem com ela."




Do Livro do Desassossego - Bernardo Soares

sábado, 10 de outubro de 2009

The most gigantic lying mouth of all time





The most gigantic lying mouth of all time:

Bizarro. Cápsula anti-tv. Absurdo, quase. E por isso delicioso. The most gigantic lying mouth of all time é uma quase-mentira. Uma pacote de experiências de levitação. É o produto final de um projecto abortado: na altura de lançamento do álbum Hail to the thief os Radiohead anunciaram a abertura do seu canal próprio, o radiohead-tv. Este filme (?), documentário (?) é o fruto inacabado e vai ficar assim, como objecto final. Um conjunto dos primeiros quatro episódios, que compila material enviado por admiradores e outro produzido pelos próprios Radiohead e apresenta ainda um conjunto de temas inéditos dos magos britânicos.

Momento épico, da máquina a amamentar o recém-nascido com óleo ou diesel ou petróleo ácido, progressiva programação de sentidos, a, b, h, delete, insert, e Spinning Plates (amnesiacquiano) a ganhar visual, inquietante.

Amargo na língua, de tão delicioso. Mas é preciso estar dentro, bater bem a porta para evitar correntes de ar, aborrecimentos por não se perceber o universo radiohead. Sobretudo, é preciso gostar dos génios de Oxford, ter lágrimas cravadas em Ok Computer, desenhos de minúsculos monstros rebeldes no caderno, «against demons», «i might be wrong», «Fitter, happier, more productive, comfortable, not drinking too much, regular exercise at the gym (3 days a week)...», letras de Kid A no impresso para entregar nas finanças, histeria quando se ouve Street Spirit (Fade out) perdida numa radiofonia qualquer. Reunidas estas pétalas de loucura, The most gigantic lying mouth of all time torna-se ultradigerível, entranha as imagens mais absurdas (que as há, que são fatia grande de cada episódio) no mais orgulhoso absurdo do ser. É pura masturbação.

Entrevistas sem sentido com Thom Yorke, viagens sem dentes de ouro pelo experimentalismo da animação, Yorke a solo no piano, Hail to the thief por todos os poros, magnitude de imagem conjugada com uma ou outra, ou mais, absolutamente incompreensível, lição de política internacional declarada (das animações com melhor realização) a Bush e Blair, primeiras-damas do mundo, nódoa de sangue e de luz a pintar o escuro, distorções de imagens, de voz, de faces, de ideias – os Radiohead e a comunidade que os abraça, sem espinhas. Hino à libertação, desaconselhado aos que não resistem a paisagens cinzentas





Nota: Achei a resenha tão rica e bem escrita que mesmo pra quem não aprecia os mágicos cabeças de Rádio, fica o sabor da atemporalidade das palavras tão bem usadas para uma denifição indefinível.



Chris Bran, 2004
















AH! querem uma luz melhor que a do Sol!

Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.
Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol que o Sol,
O que quero é prados mais prados que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

#Reflexão n°.1

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.




Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.






Por Murilo Mendes.


Livres

“Osho é o homem mais perigoso desde Jesus Cristo.” Assim o escritor e jornalista Tom Robbins (Até as Vaqueiras Ficam Tristes) definiu um dos gurus mais controversos do século 20, o indiano Osho Rajneesh, morto em 1990 aos 59 anos. “Ele disse coisas que ninguém mais teve coragem. Teve todos os tipos de idéias que, por terem ressonância de verdade, assustavam os monstros do controle”, afirmava Robbins. Idolatrado nos anos 1960 e 1970 e adorado por milhões até hoje, Osho foi um dos líderes espirituais dos tempos modernos que mais falou sobre liberdade. Justamente por isso, foi transformado, em meados dos 1980, em inimigo no 1 dos Estados Unidos. Ensinava que a liberdade psicológica só seria possível quando não se ensinar mais às crianças nenhum tipo de credo e der a elas todo o incentivo para que busquem suas próprias verdades.


Se você tem mais de 40 anos, é provável que tenha conhecido algum sannyasin — como eram chamados os discípulos de Bhagwan Shree Rajneesh, seu nome antes de batizar-se Osho (“Oceano”), em 1986. Nos anos 1970, auge do movimento rajneesh, eles estavam em todas as partes do planeta. No Brasil, o movimento começou depois que o diretor de teatro Mario Piacentini, 62, fundou o primeiro centro de Osho, em 1976, no bairro paulistano do Brooklin.


Barbudo, olhos negros e profundos, Osho ficou famoso por proferir palestras diariamente — primeiro em seu centro em Puna, sul da Índia, depois na cidade que construiu no deserto do Oregon, nos EUA — nas quais contrariava os estereótipos de um guru ou homem santo. Falava de liberdade, sexo e dinheiro de modo tão despojado que incomodava os adeptos das tradicionais filosofias hindus e de toda e qualquer ortodoxia religiosa. Andava de Rolls Royce (chegou a ter 93 modelos) e vivia cercado de mulheres das mais variadas etnias. Automóveis à parte, fato é que Osho olhava o mundo por um ângulo bem diferente da maioria dos seres comuns. Defendia a idéia de que ninguém seria livre se tivesse qualquer tipo de repressão sexual. “O sexo é o instinto mais poderoso no ser humano. Os políticos e os sacerdotes entenderam isso desde o princípio. Ao permitir total liberdade no sexo, não haverá possibilidade de dominação.”


Devido a pensamentos como esse, até hoje, 16 anos depois de sua morte, tem milhares de seguidores. No Brasil há mais de 30 centros com seu nome. Nos EUA, país que o perseguiu e o expulsou nos anos 1980, outros 50. Seus livros ocupam lugar de destaque no Parlamento indiano, ao lado dos de Mahatma Gandhi. Para ele, o ser humano só vislumbraria a liberdade mergulhando no mais profundo silêncio, só possível pela meditação. “Meditar é voltar para casa e descansar um pouco lá dentro. Não é o canto de um mantra, nem mesmo uma prece; é simplesmente voltar para casa e descansar um pouco”, ensinava. Osho criou terapias e “meditações ativas”, em que os adeptos gritam, pulam, dançam: hiperventilar o cérebro, extravasar toda a raiva para, assim, esvaziar a mente. O Osho Meditation Resort, em Puna, atrai milhares de pessoas, dispostas a pagar caro para assistir a palestras do guru em vídeo, meditar sobre sua sepultura ou até trabalhar em tarefas bem humildes. Na tumba do guru está escrito, a seu pedido: “Osho — nunca nasceu, nunca morreu. Apenas visitou este planeta Terra entre 11 de dezembro de 1931 e 19 de janeiro de 1990”.



No entanto, Osho nasceu, sim, em uma aldeiazinha chamada Kuchwada, no estado indiano de Madhya Pradesh, numa família bastante pobre. Foi criado pelos avós até os sete anos e, na época, já desafiava o guru de seu avô com perguntas que assustavam a família. Em sua Autobiografia de um Místico Espiritualmente Incorreto (Cultrix), conta que passou sete anos em silêncio. “Ninguém tentou corromper minha inocência (...). Meus avós estavam mais interessados em me deixar o mais natural possível, em especial minha avó, daí meu profundo respeito pelo sexo feminino.” Desde cedo o guru rejeitou a vida convencional — trabalho, casamento, família. Aos 18, declarou aos pais que um emprego das nove às seis não o seduzia: “Serei um vagabundo por toda vida. Mas um vagabundo instruído”, lançou. E decidiu estudar filosofia. Leu tudo o que encontrou: dos Sutras sagrados a Reich e Jung. Graduou-se na Universidade de Sagar, lecionou por cinco anos na Universidade de Jabalpur e saiu pelo país dando palestras, ficando célebre por desafiar líderes religiosos em debates públicos.






Em fins dos 1960, Osho desenvolveu técnicas de “meditação ativa”. Com a hiperventilação causada pela alteração da respiração ou movimentos como a dança, as pessoas chegavam a estados alterados de consciência. Também inventou terapias baseadas tanto em estudos ingleses e norte-americanos como em tradicionais técnicas hindus, o que atraía os ocidentais — entre seus discípulos, indianos foram sempre minoria. Promoveu campos de meditação em toda a Índia, até que em 1974 estabeleceu, em Puna, um centro terapêutico. “Pessoas de todo o mundo falavam do tal do Rajneesh”, conta Sergio Jacowitz, o paulistano de 52 anos que desde a década de 70 trabalha como terapeuta usando as técnicas de Osho — ele foi até Puna ver de perto meditações inventadas pelo guru.



Campos de meditação










Dois dias depois de chegar ao ashram — como são chamados os centros de estudos da filosofia hindu — em Puna, foi iniciado pelo próprio Osho e tornou-se um sannyasin, ou seja, ganhou outro nome e se tornou devoto. Não só quem estava em lá podia se tornar um sannyasin. Bastava mandar uma carta de qualquer parte do mundo e esperar a resposta, que vinha com uma mensagem e um novo nome. Hoje, dá para fazer isso pela web. Um verdadeiro insulto para quem segue as tradições hindus — sannyas são votos de renúncia que fazem de um homem ou de uma mulher um swami, ou “senhor de si próprio”. A tradição exige que outro nome seja dado para simbolizar a morte da vida anterior. “Os sannyas de Osho viraram motivo de chacota na Índia, porque desrespeitam a tradição. A escolha do nome sem estar frente a frente com a pessoa ou sequer conhecê-la fez dessa prática uma afronta nos ashrams verdadeiros”, esclarece Swami Priyananda, brasileira estudiosa das escrituras sagradas. O ashram em Puna virou pólo. Diariamente, 2000 pessoas circulavam por lá. Toda manhã, Osho se sentava numa poltrona e, de improviso, mandava duas horas de discurso.



No Brasil, o movimento rajneesh ganhou força depois que Mario Piacentini abriu o primeiro centro do Osho em São Paulo, em 1976. “Quando nos encontramos, ele perguntou o que eu fazia. Contei que dirigia um centro teatral e usava terapias junguianas no preparo dos atores”, lembra Piacentini, que ganhou o nome de Swami Somesh, ou “senhor da Lua”. O grupo paulista cresceu e outras sedes foram abertas, no Rio, em Brasília e Porto Alegre. Claro, um dos principais chamarizes para a molecada era a liberdade sexual. Por crer que a repressão sexual era a base da insatisfação humana, Osho desenvolveu terapias nas quais a principal atividade era o sexo livre.


“Praticávamos muito tantra... Passávamos, um grupo de dez pessoas, uma semana trancados num quarto, transando”, conta o diretor de teatro. “Essa técnica funciona porque todos os demônios da pessoa emergem.” Ele conta que, em 1982, com a explosão da aids, Osho mandou suspender essas atividades — “mas nunca soubemos de alguém da turma que tenha sido contaminado”, diz.


Devotos vendem tudo

Piacentini voltou à Índia outras duas vezes até que, em 1981, Osho foi levado aos EUA com problemas de saúde — precisamente, dores na coluna. Há quem diga que não havia doença alguma: a farsa era uma maneira legal de montar um ashram — ainda mais luxuoso e funcional que o indiano — na América. Rajneesh e seus discípulos se instalaram em um terreno no deserto do Oregon. Em três anos, foi criada ali uma “cidade” de nome Rajneeshpuram. O lugar, até então árido, virou um oásis auto-suficiente habitado por 5 mil pessoas: dispunha de dois hotéis, aeroporto, universidade, escolas, centros médicos e tecnológicos. A instalação dessa comuna em terra americana, somado ao discurso libertário e revolucionário do Osho, desagradou ao governo americano — que passou a dar batidas policiais e a perseguir pessoas vestidas de roxo pelas cidades do país. Em meados de 1982, Mario Piacentini recebeu um convite para comparecer a um “congresso para redefinir o movimento rajneesh” nos EUA. Acompanhado por 50 devotos, tomou um avião. Ao chegar, não acreditou no que viu. “Quinze mil pessoas alojadas em barracas brancas e plastificadas... Na hora vi que era diferente do que acontecia na Índia”, descreve.


Na época, Osho estava em voto de silêncio: aparecia uma vez por dia sentado num trono enquanto à sua volta pessoas dançavam. Era conduzido em um Rolls Royce sobre o qual um avião jogava rosas vermelhas. “Ele perdeu a mão. Um grupo americano começou a tomar conta das coisas dele”, conta Piacentini, referindo-se ao Osho International Foundation, até hoje administradora do ashram em Puna e dos direitos autorais do guru. No festival, Piacentini foi comunicado que iria se encontrar com o guru. A casa de Osho ficava num lugar magnífico: ao redor de seu aposento, 14 pavões brancos serviam de decoração viva. Depois de algum tempo, Osho entrou, dizendo que responderia apenas a uma pergunta. “Quis saber sobre uma história de que as pessoas venderiam tudo o que tinham para dar o dinheiro para eles construírem uma cidade subterrânea”, conta o brasileiro. O mundo, segundo Osho, iria acabar. “Ele estava drogado. Seus olhos não paravam. Não era mais o mesmo Bhagwan Rajneesh que eu conhecia: não havia mais vida no olhar”, lembra o diretor.



Assim Osho descreveu o Apocalipse, segundo Piacentini: “Começaria em 1992, acabaria em 1997 e a gente deveria vender tudo e doar a grana para eles. Na hora, falei: ‘Tchau, tô fora’.” Concluindo que o tal congresso era armação, Piacentini voltou ao Brasil e mudou o nome de sua comunidade. Enfurecido com o comportamento libertário dos jovens e



incomodado com a comunidade que o indiano instalou nos EUA, o governo decretou seu fim em 1984. A gota d’água foi o primeiro atentado bioterrorista da história norte-americana: para influir nas eleições locais, os rajneesh borrifaram água infectada com a bactéria salmonela na comida de restaurantes de um pequeno condado no Oregon — 700 pessoas ficaram doentes e não puderam votar. Tendo respondido por 35 acusações diferentes, acusado de sonegar impostos e de incentivar a imigração ilegal, Osho foi afinal preso e expulso do país. Extraditado, passou um mês pulando de aeroporto em aeroporto, em um de seus aviões particulares, sem ser aceito em país algum. “Os Estados Unidos o transformaram num bin Laden”, lembra Setu, devoto até hoje. “Ameaçaram cortar relações com qualquer país que o recebesse”, diz.



Expulso de 21 nações, entre elas Grécia, Espanha, Alemanha, Irlanda e Uruguai, o indiano acabou aceito por seu país natal. Tentou retomar a antiga rotina de seu ashram, mas tudo já funcionava de acordo com a administração da Osho International Foundation. Em 1990, chegou ao fim sua passagem por esse planeta graças a um ataque cardíaco. Muitos de seus discípulos defendem a teoria de que a morte de Osho teria sido conseqüência de um envenenamento por tálio radioativo, provocado durante os dias em que ficou preso nos Estados Unidos, em 1985.


Irreverente, o pensamento de Osho circula até hoje. Como fez questão de grifar em seu epitáfio, não passou batido por esse planeta. Relatos de discípulos que estavam com ele na hora do suspiro final dizem que estava feliz por se libertar das amarras do corpo. Antes de ir, falou, mais uma vez, que, além da morte, só havia uma maneira de se libertar: meditando.



“A meditação serve para levá-lo de volta à sua infância... quando você não era respeitável, quando podia fazer coisas malucas, quando era inocente, quando não era corrompido pela sociedade; quando não tinha aprendido os truques do mundo, quando pertencia a outro mundo, quando não era mundano. Serve para que volte a esse ponto e comece outra vez.” Por essas, outras e mais algumas é que Osho tenha sido talvez o homem mais perigoso desde Jesus Cristo. Existe algo mais ameaçador do que pessoas livres?

Texto retirado da Revista TRIP.





Site Nacional : http://www.osho.org.br/




Nada mais justo de que postar as palavras de alguém que me ajuda tanto : )





A história está cheia de grandes reis e governantes, mas não de grandes budas, de homens despertos.

Os homens despertos podem ser contados nos dedos, pela simples razão de que seguiram uma direção em que uma transformação radical é necessária: da inconsciência para a consciência.

Sua inconsciência tem que ser transformada em consciência. Quando nada resta da inconsciência por dentro, quando você está repleto de luz, você se torna um mestre, um verdadeiro mestre.




Osho, em "Meditações Para o Dia"

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Elliott Erwitt [ Kalamata, Greece ] 1966


4.
Eu sei de que preciso.

Eu simplesmente olho no espelho
E vejo que devo
Dormir mais;
o homem
Que tenho me prejudica.
Quando me ouço cantando, digo:
Hoje estou alegre; isso é bom para
A tez.
Eu me esforço
Em permanecer saudável e firme. mas
Não cansarei; isso
Produz rugas.
Nada tenho para dar, mas
Minha ração me basta.
Eu como com cuidado; eu vivo
Lentamente; sou
Pelo caminho do meio.

(Assim vi gente se esforçar.)


Por: Bertolt Brecht

In: Poemas

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Quero



Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte, como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor
na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.

No momento em que não me dizes
Eu te amo, inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.

Autor: Carlos Drummond de Andrade