sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Livres

“Osho é o homem mais perigoso desde Jesus Cristo.” Assim o escritor e jornalista Tom Robbins (Até as Vaqueiras Ficam Tristes) definiu um dos gurus mais controversos do século 20, o indiano Osho Rajneesh, morto em 1990 aos 59 anos. “Ele disse coisas que ninguém mais teve coragem. Teve todos os tipos de idéias que, por terem ressonância de verdade, assustavam os monstros do controle”, afirmava Robbins. Idolatrado nos anos 1960 e 1970 e adorado por milhões até hoje, Osho foi um dos líderes espirituais dos tempos modernos que mais falou sobre liberdade. Justamente por isso, foi transformado, em meados dos 1980, em inimigo no 1 dos Estados Unidos. Ensinava que a liberdade psicológica só seria possível quando não se ensinar mais às crianças nenhum tipo de credo e der a elas todo o incentivo para que busquem suas próprias verdades.


Se você tem mais de 40 anos, é provável que tenha conhecido algum sannyasin — como eram chamados os discípulos de Bhagwan Shree Rajneesh, seu nome antes de batizar-se Osho (“Oceano”), em 1986. Nos anos 1970, auge do movimento rajneesh, eles estavam em todas as partes do planeta. No Brasil, o movimento começou depois que o diretor de teatro Mario Piacentini, 62, fundou o primeiro centro de Osho, em 1976, no bairro paulistano do Brooklin.


Barbudo, olhos negros e profundos, Osho ficou famoso por proferir palestras diariamente — primeiro em seu centro em Puna, sul da Índia, depois na cidade que construiu no deserto do Oregon, nos EUA — nas quais contrariava os estereótipos de um guru ou homem santo. Falava de liberdade, sexo e dinheiro de modo tão despojado que incomodava os adeptos das tradicionais filosofias hindus e de toda e qualquer ortodoxia religiosa. Andava de Rolls Royce (chegou a ter 93 modelos) e vivia cercado de mulheres das mais variadas etnias. Automóveis à parte, fato é que Osho olhava o mundo por um ângulo bem diferente da maioria dos seres comuns. Defendia a idéia de que ninguém seria livre se tivesse qualquer tipo de repressão sexual. “O sexo é o instinto mais poderoso no ser humano. Os políticos e os sacerdotes entenderam isso desde o princípio. Ao permitir total liberdade no sexo, não haverá possibilidade de dominação.”


Devido a pensamentos como esse, até hoje, 16 anos depois de sua morte, tem milhares de seguidores. No Brasil há mais de 30 centros com seu nome. Nos EUA, país que o perseguiu e o expulsou nos anos 1980, outros 50. Seus livros ocupam lugar de destaque no Parlamento indiano, ao lado dos de Mahatma Gandhi. Para ele, o ser humano só vislumbraria a liberdade mergulhando no mais profundo silêncio, só possível pela meditação. “Meditar é voltar para casa e descansar um pouco lá dentro. Não é o canto de um mantra, nem mesmo uma prece; é simplesmente voltar para casa e descansar um pouco”, ensinava. Osho criou terapias e “meditações ativas”, em que os adeptos gritam, pulam, dançam: hiperventilar o cérebro, extravasar toda a raiva para, assim, esvaziar a mente. O Osho Meditation Resort, em Puna, atrai milhares de pessoas, dispostas a pagar caro para assistir a palestras do guru em vídeo, meditar sobre sua sepultura ou até trabalhar em tarefas bem humildes. Na tumba do guru está escrito, a seu pedido: “Osho — nunca nasceu, nunca morreu. Apenas visitou este planeta Terra entre 11 de dezembro de 1931 e 19 de janeiro de 1990”.



No entanto, Osho nasceu, sim, em uma aldeiazinha chamada Kuchwada, no estado indiano de Madhya Pradesh, numa família bastante pobre. Foi criado pelos avós até os sete anos e, na época, já desafiava o guru de seu avô com perguntas que assustavam a família. Em sua Autobiografia de um Místico Espiritualmente Incorreto (Cultrix), conta que passou sete anos em silêncio. “Ninguém tentou corromper minha inocência (...). Meus avós estavam mais interessados em me deixar o mais natural possível, em especial minha avó, daí meu profundo respeito pelo sexo feminino.” Desde cedo o guru rejeitou a vida convencional — trabalho, casamento, família. Aos 18, declarou aos pais que um emprego das nove às seis não o seduzia: “Serei um vagabundo por toda vida. Mas um vagabundo instruído”, lançou. E decidiu estudar filosofia. Leu tudo o que encontrou: dos Sutras sagrados a Reich e Jung. Graduou-se na Universidade de Sagar, lecionou por cinco anos na Universidade de Jabalpur e saiu pelo país dando palestras, ficando célebre por desafiar líderes religiosos em debates públicos.






Em fins dos 1960, Osho desenvolveu técnicas de “meditação ativa”. Com a hiperventilação causada pela alteração da respiração ou movimentos como a dança, as pessoas chegavam a estados alterados de consciência. Também inventou terapias baseadas tanto em estudos ingleses e norte-americanos como em tradicionais técnicas hindus, o que atraía os ocidentais — entre seus discípulos, indianos foram sempre minoria. Promoveu campos de meditação em toda a Índia, até que em 1974 estabeleceu, em Puna, um centro terapêutico. “Pessoas de todo o mundo falavam do tal do Rajneesh”, conta Sergio Jacowitz, o paulistano de 52 anos que desde a década de 70 trabalha como terapeuta usando as técnicas de Osho — ele foi até Puna ver de perto meditações inventadas pelo guru.



Campos de meditação










Dois dias depois de chegar ao ashram — como são chamados os centros de estudos da filosofia hindu — em Puna, foi iniciado pelo próprio Osho e tornou-se um sannyasin, ou seja, ganhou outro nome e se tornou devoto. Não só quem estava em lá podia se tornar um sannyasin. Bastava mandar uma carta de qualquer parte do mundo e esperar a resposta, que vinha com uma mensagem e um novo nome. Hoje, dá para fazer isso pela web. Um verdadeiro insulto para quem segue as tradições hindus — sannyas são votos de renúncia que fazem de um homem ou de uma mulher um swami, ou “senhor de si próprio”. A tradição exige que outro nome seja dado para simbolizar a morte da vida anterior. “Os sannyas de Osho viraram motivo de chacota na Índia, porque desrespeitam a tradição. A escolha do nome sem estar frente a frente com a pessoa ou sequer conhecê-la fez dessa prática uma afronta nos ashrams verdadeiros”, esclarece Swami Priyananda, brasileira estudiosa das escrituras sagradas. O ashram em Puna virou pólo. Diariamente, 2000 pessoas circulavam por lá. Toda manhã, Osho se sentava numa poltrona e, de improviso, mandava duas horas de discurso.



No Brasil, o movimento rajneesh ganhou força depois que Mario Piacentini abriu o primeiro centro do Osho em São Paulo, em 1976. “Quando nos encontramos, ele perguntou o que eu fazia. Contei que dirigia um centro teatral e usava terapias junguianas no preparo dos atores”, lembra Piacentini, que ganhou o nome de Swami Somesh, ou “senhor da Lua”. O grupo paulista cresceu e outras sedes foram abertas, no Rio, em Brasília e Porto Alegre. Claro, um dos principais chamarizes para a molecada era a liberdade sexual. Por crer que a repressão sexual era a base da insatisfação humana, Osho desenvolveu terapias nas quais a principal atividade era o sexo livre.


“Praticávamos muito tantra... Passávamos, um grupo de dez pessoas, uma semana trancados num quarto, transando”, conta o diretor de teatro. “Essa técnica funciona porque todos os demônios da pessoa emergem.” Ele conta que, em 1982, com a explosão da aids, Osho mandou suspender essas atividades — “mas nunca soubemos de alguém da turma que tenha sido contaminado”, diz.


Devotos vendem tudo

Piacentini voltou à Índia outras duas vezes até que, em 1981, Osho foi levado aos EUA com problemas de saúde — precisamente, dores na coluna. Há quem diga que não havia doença alguma: a farsa era uma maneira legal de montar um ashram — ainda mais luxuoso e funcional que o indiano — na América. Rajneesh e seus discípulos se instalaram em um terreno no deserto do Oregon. Em três anos, foi criada ali uma “cidade” de nome Rajneeshpuram. O lugar, até então árido, virou um oásis auto-suficiente habitado por 5 mil pessoas: dispunha de dois hotéis, aeroporto, universidade, escolas, centros médicos e tecnológicos. A instalação dessa comuna em terra americana, somado ao discurso libertário e revolucionário do Osho, desagradou ao governo americano — que passou a dar batidas policiais e a perseguir pessoas vestidas de roxo pelas cidades do país. Em meados de 1982, Mario Piacentini recebeu um convite para comparecer a um “congresso para redefinir o movimento rajneesh” nos EUA. Acompanhado por 50 devotos, tomou um avião. Ao chegar, não acreditou no que viu. “Quinze mil pessoas alojadas em barracas brancas e plastificadas... Na hora vi que era diferente do que acontecia na Índia”, descreve.


Na época, Osho estava em voto de silêncio: aparecia uma vez por dia sentado num trono enquanto à sua volta pessoas dançavam. Era conduzido em um Rolls Royce sobre o qual um avião jogava rosas vermelhas. “Ele perdeu a mão. Um grupo americano começou a tomar conta das coisas dele”, conta Piacentini, referindo-se ao Osho International Foundation, até hoje administradora do ashram em Puna e dos direitos autorais do guru. No festival, Piacentini foi comunicado que iria se encontrar com o guru. A casa de Osho ficava num lugar magnífico: ao redor de seu aposento, 14 pavões brancos serviam de decoração viva. Depois de algum tempo, Osho entrou, dizendo que responderia apenas a uma pergunta. “Quis saber sobre uma história de que as pessoas venderiam tudo o que tinham para dar o dinheiro para eles construírem uma cidade subterrânea”, conta o brasileiro. O mundo, segundo Osho, iria acabar. “Ele estava drogado. Seus olhos não paravam. Não era mais o mesmo Bhagwan Rajneesh que eu conhecia: não havia mais vida no olhar”, lembra o diretor.



Assim Osho descreveu o Apocalipse, segundo Piacentini: “Começaria em 1992, acabaria em 1997 e a gente deveria vender tudo e doar a grana para eles. Na hora, falei: ‘Tchau, tô fora’.” Concluindo que o tal congresso era armação, Piacentini voltou ao Brasil e mudou o nome de sua comunidade. Enfurecido com o comportamento libertário dos jovens e



incomodado com a comunidade que o indiano instalou nos EUA, o governo decretou seu fim em 1984. A gota d’água foi o primeiro atentado bioterrorista da história norte-americana: para influir nas eleições locais, os rajneesh borrifaram água infectada com a bactéria salmonela na comida de restaurantes de um pequeno condado no Oregon — 700 pessoas ficaram doentes e não puderam votar. Tendo respondido por 35 acusações diferentes, acusado de sonegar impostos e de incentivar a imigração ilegal, Osho foi afinal preso e expulso do país. Extraditado, passou um mês pulando de aeroporto em aeroporto, em um de seus aviões particulares, sem ser aceito em país algum. “Os Estados Unidos o transformaram num bin Laden”, lembra Setu, devoto até hoje. “Ameaçaram cortar relações com qualquer país que o recebesse”, diz.



Expulso de 21 nações, entre elas Grécia, Espanha, Alemanha, Irlanda e Uruguai, o indiano acabou aceito por seu país natal. Tentou retomar a antiga rotina de seu ashram, mas tudo já funcionava de acordo com a administração da Osho International Foundation. Em 1990, chegou ao fim sua passagem por esse planeta graças a um ataque cardíaco. Muitos de seus discípulos defendem a teoria de que a morte de Osho teria sido conseqüência de um envenenamento por tálio radioativo, provocado durante os dias em que ficou preso nos Estados Unidos, em 1985.


Irreverente, o pensamento de Osho circula até hoje. Como fez questão de grifar em seu epitáfio, não passou batido por esse planeta. Relatos de discípulos que estavam com ele na hora do suspiro final dizem que estava feliz por se libertar das amarras do corpo. Antes de ir, falou, mais uma vez, que, além da morte, só havia uma maneira de se libertar: meditando.



“A meditação serve para levá-lo de volta à sua infância... quando você não era respeitável, quando podia fazer coisas malucas, quando era inocente, quando não era corrompido pela sociedade; quando não tinha aprendido os truques do mundo, quando pertencia a outro mundo, quando não era mundano. Serve para que volte a esse ponto e comece outra vez.” Por essas, outras e mais algumas é que Osho tenha sido talvez o homem mais perigoso desde Jesus Cristo. Existe algo mais ameaçador do que pessoas livres?

Texto retirado da Revista TRIP.





Site Nacional : http://www.osho.org.br/


Um comentário:

Nádia C. disse...

eu o acho meio pretencioso :S
não me atrai