segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O apanhador de desperdícios


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.
Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insentos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis
Tenho em mim um atraso de nascença
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Por que eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


















Por Manuel de Barros.

domingo, 29 de novembro de 2009

Hora Morta




Lenta e lenta a hora
Por mim dentro soa
(Alma que se ignora!)
Lenta e lenta e lenta,
Lenta e sonolenta
A lua se escoa..

Tudo tão inútil!
Tão como que doente
Tão divinamente
Fútil — ah, tão fútil
Sonho que se sente
De si próprio ausente...

Naufrágio ante o ocaso
Hora de piedade...
Tudo é névoa e acaso
Hora oca e perdida,
Cinza de vivida
(Que Poente me invade?)

Porque lenta ante olha
Lenta em seu som,
Que sinto ignorar?
Por que é que me gela
Meu próprio pensar
Em sonhar amar?...

Que morta esta hora!
Que alma minha chora
Tão perdida e alheia?...
Mar batendo na areia,
Para quê? para quê?
P'ra ser o que se vê
Na alva areia batendo ?
Só isto? Não há

Lâmpada de haver —
— Um — sentido ardendo
Dentro da hora — já
Espuma de morrer?



Fernando Pessoa

sábado, 28 de novembro de 2009

O Morro Dos Ventos Uivantes



"Gozava eu de um mês de bom tempo à beira-mar, quando travei relações com a mais fascinante das criaturas, para mim uma verdadeira deusa, tanto que nem conhecimento tomou de minha pessoa. "Nunca lhe confessei meu amor" de viva-voz. Mas se os olhos falam, o mais simplório dos imbecis poderia verificar que eu estava completamente louco de amor. Ela por fim compreendeu e por sua vez me lançou um olhar... o mais doce de todos os olhares imagináveis. Que fiz eu? Confesso-o para vergonha minha... encolhi-me friamente na minha timidez, como um caracol. A cada olhar, recolhia-me mais frio e mais distante, até que afinal a pobrezinha começou a duvidar de seus próprios sentidos, e, acabrunhada de confusão pelo seu suposto engano, persuadiu sua mamãe a mudar de pouso. Por causa deste curioso feitio meu, criei reputação de crueldade intencional, aliás, bem injusta, como só eu mesmo posso julgar."


Emily Brontë

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Tenho tentado aprender a ser humilde.
A engolir os nãos que a vida me enfia pela goela a baixo. A lamber o chão dos palácios.
A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar um café e continuar.


Caio F.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

ABC do Nordeste Flagelado


A — Ai, como é duro viver
nos Estados do Nordeste
quando o nosso Pai Celeste
não manda a nuvem chover.
É bem triste a gente ver
findar o mês de janeiro
depois findar fevereiro
e março também passar,
sem o inverno começar
no Nordeste brasileiro.





B — Berra o gado impaciente
reclamando o verde pasto,
desfigurado e arrasto,
com o olhar de penitente;
o fazendeiro, descrente,
um jeito não pode dar,
o sol ardente a queimar
e o vento forte soprando,
a gente fica pensando
que o mundo vai se acabar.

C — Caminhando pelo espaço,
como os trapos de um lençol,
pras bandas do pôr do sol,
as nuvens vão em fracasso:
aqui e ali um pedaço
vagando... sempre vagando,
quem estiver reparando
faz logo a comparação
de umas pastas de algodão
que o vento vai carregando.

D — De manhã, bem de manhã,
vem da montanha um agouro
de gargalhada e de choro
da feia e triste cauã:
um bando de ribançã
pelo espaço a se perder,
pra de fome não morrer,
vai atrás de outro lugar,
e ali só há de voltar,
um dia, quando chover.

E — Em tudo se vê mudança
quem repara vê até
que o camaleão que é
verde da cor da esperança,
com o flagelo que avança,
muda logo de feição.
O verde camaleão
perde a sua cor bonita
fica de forma esquisita
que causa admiração.

F — Foge o prazer da floresta
o bonito sabiá,
quando flagelo não há
cantando se manifesta.
Durante o inverno faz festa
gorjeando por esporte,
mas não chovendo é sem sorte,
fica sem graça e calado
o cantor mais afamado
dos passarinhos do norte.

G — Geme de dor, se aquebranta
e dali desaparece,
o sabiá só parece
que com a seca se encanta.
Se outro pássaro canta,
o coitado não responde;
ele vai não sei pra onde,
pois quando o inverno não vem
com o desgosto que tem
o pobrezinho se esconde.

H — Horroroso, feio e mau
de lá de dentro das grotas,
manda suas feias notas
o tristonho bacurau.
Canta o João corta-pau
o seu poema funério,
é muito triste o mistério
de uma seca no sertão;
a gente tem impressão
que o mundo é um cemitério.

I — Ilusão, prazer, amor,
a gente sente fugir,
tudo parece carpir
tristeza, saudade e dor.
Nas horas de mais calor,
se escuta pra todo lado
o toque desafinado
da gaita da seriema
acompanhando o cinema
no Nordeste flagelado.

J — Já falei sobre a desgraça
dos animais do Nordeste;
com a seca vem a peste
e a vida fica sem graça.
Quanto mais dia se passa
mais a dor se multiplica;
a mata que já foi rica,
de tristeza geme e chora.
Preciso dizer agora
o povo como é que fica.

L — Lamento desconsolado
o coitado camponês
porque tanto esforço fez,
mas não lucrou seu roçado.
Num banco velho, sentado,
olhando o filho inocente
e a mulher bem paciente,
cozinha lá no fogão
o derradeiro feijão
que ele guardou pra semente.

M — Minha boa companheira,
diz ele, vamos embora,
e depressa, sem demora
vende a sua cartucheira.
Vende a faca, a roçadeira,
machado, foice e facão;
vende a pobre habitação,
galinha, cabra e suíno
e viajam sem destino
em cima de um caminhão.

N — Naquele duro transporte
sai aquela pobre gente,
agüentando paciente
o rigor da triste sorte.
Levando a saudade forte
de seu povo e seu lugar,
sem um nem outro falar,
vão pensando em sua vida,
deixando a terra querida,
para nunca mais voltar.

O — Outro tem opinião
de deixar mãe, deixar pai,
porém para o Sul não vai,
procura outra direção.
Vai bater no Maranhão
onde nunca falta inverno;
outro com grande consterno
deixa o casebre e a mobília
e leva a sua família
pra construção do governo.

P - Porém lá na construção,
o seu viver é grosseiro
trabalhando o dia inteiro
de picareta na mão.
Pra sua manutenção
chegando dia marcado
em vez do seu ordenado
dentro da repartição,
recebe triste ração,
farinha e feijão furado.

Q — Quem quer ver o sofrimento,
quando há seca no sertão,
procura uma construção
e entra no fornecimento.
Pois, dentro dele o alimento
que o pobre tem a comer,
a barriga pode encher,
porém falta a substância,
e com esta circunstância,
começa o povo a morrer.

R — Raquítica, pálida e doente
fica a pobre criatura
e a boca da sepultura
vai engolindo o inocente.
Meu Jesus! Meu Pai Clemente,
que da humanidade é dono,
desça de seu alto trono,
da sua corte celeste
e venha ver seu Nordeste
como ele está no abandono.

S — Sofre o casado e o solteiro
sofre o velho, sofre o moço,
não tem janta, nem almoço,
não tem roupa nem dinheiro.
Também sofre o fazendeiro
que de rico perde o nome,
o desgosto lhe consome,
vendo o urubu esfomeado,
puxando a pele do gado
que morreu de sede e fome.

T — Tudo sofre e não resiste
este fardo tão pesado,
no Nordeste flagelado
em tudo a tristeza existe.
Mas a tristeza mais triste
que faz tudo entristecer,
é a mãe chorosa, a gemer,
lágrimas dos olhos correndo,
vendo seu filho dizendo:
mamãe, eu quero morrer!

U — Um é ver, outro é contar
quem for reparar de perto
aquele mundo deserto,
dá vontade de chorar.
Ali só fica a teimar
o juazeiro copado,
o resto é tudo pelado
da chapada ao tabuleiro
onde o famoso vaqueiro
cantava tangendo o gado.

V — Vivendo em grande maltrato,
a abelha zumbindo voa,
sem direção, sempre à toa,
por causa do desacato.
À procura de um regato,
de um jardim ou de um pomar
sem um momento parar,
vagando constantemente,
sem encontrar, a inocente,
uma flor para pousar.

X — Xexéu, pássaro que mora
na grande árvore copada,
vendo a floresta arrasada,
bate as asas, vai embora.
Somente o saguim demora,
pulando a fazer careta;
na mata tingida e preta,
tudo é aflição e pranto;
só por milagre de um santo,
se encontra uma borboleta.

Z — Zangado contra o sertão
dardeja o sol inclemente,
cada dia mais ardente
tostando a face do chão.
E, mostrando compaixão
lá do infinito estrelado,
pura, limpa, sem pecado
de noite a lua derrama
um banho de luz no drama
do Nordeste flagelado.

Posso dizer que cantei
aquilo que observei;
tenho certeza que dei
aprovada relação.
Tudo é tristeza e amargura,
indigência e desventura.
— Veja, leitor, quanto é dura
a seca no meu sertão.

Patativa do Assaré

sábado, 21 de novembro de 2009

Ah vai me diz o que é o sossêgo...


Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade.


Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam.


Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam antes de concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam




Martha Medeiros

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

"Meu caro Chico"






Entrevista antiga,mas que vale dá uma conferida :)


Por: José Rezende Jr.


Um dia, definiu o escritor Millôr Fernandes: "Chico Buarque é a única unanimidade nacional". Errou por pouco: Chico Buarque jamais agradou aos governantes, vestissem eles a farda estrelada dos generais ou o terno bem-cortado dos sociólogos. Os ex-presidentes Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, que não gostavam de críticas, censuraram; o presidente Fernando Henrique Cardoso, que não gostou de uma crítica, decretou em tom de censura: “Chico Buarque é repetitivo”.

Não sendo, nenhum de nós, presidentes da República nem responsáveis pela política econômica que deixou o artista injuriado, resta-nos reclamar do preço do ingresso _ este, sim, uma unanimidade inconteste, que surpreendeu ao próprio Chico Buarque. "Acho que eu não vou (ao show). Tá muito caro!", brincou Chico, em entrevista ao Correio Braziliense.

Mas uma vez superado o trauma de desembolsar de até R$ 160,00 (!!!) para ver e ouvir Chico Buarque, é hora da celebração que não tem preço: o encontro com o mais original de nossos artistas. Rara e já citada exceção, não há quem possa chamar de repetitiva a obra desse poeta em permanente construção, que foi buscar nos gritos dos mercados, no breu das docas, nas velas acesas nos becos deste país uma alma brasileira refletida em gente como o pedreiro que amou daquela vez como se fosse a última, a cabrocha mais bonita que trocou a pista pela galeria e nunca mais foi a mesma, o pivete que zanza na sarjeta e tem as pernas tortas e se chama Mané, as meninas de peitinhos de pitomba que vendem barato suas bugingangas, os malandros com gravata, diploma e capital.

De hoje até sábado, vai passar pela Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional o bloco dos que voam para a América e têm saudade (mas não muita), dos que plantam sonhos onde só vento se semeava outrora, dos poetas que a exemplo dos cegos podem ver na escuridão, e daqueles que, olhos nos olhos, compreendem e cantam o amor barato desse nosso suburbano coração _ como essa quase unanimidade brasileira chamada Chico Buarque.



entrevista/ Chico Buarque




 



Às vezes, ele estica a perna e já não consegue alcançar a bola. Mas parece ser esse o único efeito nocivo do tempo sobre o artista. Aos 55 anos, Chico Buarque compõe, grava e faz show quando quer. Cada vez menos, cada vez melhor.

Com 300 mil cópias vendidas do último CD, As Cidades, lançado depois de um silêncio de cinco anos, Chico não está muito interessado em fazer sucesso _ principalmente se isso incluir aparições nos programas do Faustão e do Gugu. "Caetano (Veloso) fez a opção dele. Eu quero fazer o que me dá vontade, o que eu acho bom", afirma, sem criticar o caminho escolhido pelo intérprete de Sozinho. Ausente da Marcha dos 100 Mil (protesto contra Fernando Henrique promovido pela CUT e por partidos de oposição, em agosto de 1999, em Brasília), o autor de clássicos da resistência como Apesar de Você eCálice (cujas metáforas, admite, ele próprio já não compreende) defende mudanças na política econômica e a investigação de alguns negócios do Governo FHC, como a privatização das teles. E critica o comércio, que tomou o lugar da ideologia, na participação dos artistas em campanhas políticas. "Hoje, cobra-se cachê para cantar não importa para quem."


Correio Braziliense - Há um intervalo de cinco anos entre Paratodos e As Cidades, seus dois últimos discos. Tempo e Artista, uma das faixas de Paratodos, diz: "Imagino o artista num anfiteatro/ onde o tempo é a grande estrela/ Vejo o tempo obrar a sua arte/ tendo o mesmo artista como tela". Hoje você grava menos discos, faz menos shows, compõe menos do que antes. O que o tempo fez com o artista Chico Buarque?

Chico Buarque - Sou hoje um músico mais completo, um compositor mais exigente que há 30 anos, menos prolixo e mais apurado. Em compensação, com o tempo você perde em fluência, em espontaneidade. Enfim, são
vantagens e desvantagens que o tempo traz.

Correio - Mais vantagens ou desvantagens?

Chico Buarque - O tempo acrescenta com uma mão e tira com a outra. Mas não tenho queixas.

Correio - Nem do fato de ter completado 55 anos?

Chico - Não. Quando eu tinha 20 anos, comecei a desconfiar que ia envelhecer (Risos). Mas o tempo vai passando aos poucos, não é assim de uma hora para a outra. Você nem se dá conta. É claro que se aborrece quando estica a perna e não alcança a bola...

Correio - Isso quer dizer que o tempo faz mal ao jogador de futebol Chico Buarque. E ao artista? Por que hoje você compõe tão pouco?

Chico - Por ter me tornado muito mais exigente do que era no início da carreira. Às vezes, quando ouço uma música que fiz aos 20 anos, penso: `Eu podia ter feito muito melhor'. No começo, tinha contratos com gravadoras que me obrigavam a lançar um disco por ano. Hoje, só assino contrato por um disco, que posso renovar ou não. E isso me faz muito bem: gravar quando tiver vontade, quando me sentir bem.

Correio - E para compor, você também precisa se sentir bem, ou é a inspiração que manda?

Chico - Pode acontecer de, num relance, eu ter uma idéia, uma inspiração. Mas, cada vez mais, sou em quem vai buscar a música, e não o contrário. Como tenho muitas parcerias, não costumo partir do nada _ parto das melodias dos parceiros. Ou de imagens, como no caso de A Ostra e o Vento, tema do filme do Walter Lima Jr., e de Assentamento, feita a partir do livro (Terra) do Sebastião Salgado. Pode até aparecer uma idéia de repente, mas isso acontece cada vez menos.

Correio - Por quê?

Chico - Porque, com o tempo, você fica cada vez menos disponível para esse tipo de centelha, perde o gesto espontâneo de sentar, tocar violão... Fica mais exigente: aos 50, você joga mais coisa fora do que aproveita. Você tem mais conhecimento do que tinha aos 20 anos. E como já conhece bem os caminhos, fica mais difícil encontrar um caminho pelo acaso.

Correio - Conhecendo os caminhos, fica fácil compor?

Chico - Não é bem assim. Eu sei como buscar, mas não necessariamente como encontrar. Às vezes, acontece de buscar, ralar, e não encontrar. Mas sei que mais cedo ou mais tarde vou conseguir. Na verdade, fácil, nenhuma música é. Mas para quem passa um ano escrevendo um romance, ficar uma semana tentando compor uma música não é tanto tempo assim.

Correio - Uma parte importante da sua obra foi composta no feminino. Mas no disco novo, apenas uma, A Ostra e o Vento, se enquadra nessa categoria. E no anterior, não há uma única sequer. O que houve com sua alma feminina?

Chico - Acho que ela anda meio adormecida. (Risos) Na verdade, quase todas as minhas músicas femininas foram feitas para cinema ou teatro, para personagens femininas, que precisavam ser cantadas no feminino. E eu tenho escrito menos para cinema e teatro do que antigamente, até porque, principalmente no caso do cinema, se produz menos no Brasil.

Correio - Mas você podia continuar compondo no feminino independente do teatro e do cinema, como no caso de Com Açúcar, com Afeto e Olhos nos Olhos, não?

Chico - É. Com Açúcar, com Afeto foi a primeira. A Nara (Leão) pediu que eu fizesse uma música no feminino para ela, e deu até o tema: ela queria que falasse dessas mulheres que sofrem em casa enquanto os maridos vão para a rua. Olhos nos Olhos, eu fiz para a Bethânia cantar. Temos cantoras maravilhosas no Brasil, e acho bom fazer canções para elas.

Correio - Então...?

Chico - Tudo bem. A qualquer hora minha alma feminina sai do armário de novo... (Risos)

Correio - E as músicas de protesto, quando saem do armário de novo?

Chico - De protesto mesmo, fiz poucas, talvez uma meia-dúzia. Sobre a realidade social, continuo fazendo, como Assentamento (sobre os sem-terra). A verdade é que a linguagem muda com o tempo. Se você pegar as canções do tempo da ditadura, vai ver que as tintas são mais fortes, há menos nuances, até os arranjos e o jeito de cantar eram diferentes.

Correio - E tinha que ter muita metáfora para driblar a censura, não?

Chico - Algumas tão obscuras que se tornaram incompreensíveis. Às vezes, eu mesmo não sei o que eu quis dizer com algumas metáforas de músicas como Cálice (parceria com Gilberto Gil), por exemplo.

Correio - Uma vez entrevistei uma ex-censora - sua fã - que se orgulhava de ter contribuído para a liberação de Mulheres de Atenas. Ela disse que bateu o pé, dizendo que a música falava apenas da submissão das mulheres, enquanto alguns colegas censores viam ali uma metáfora do Brasil oprimido pela ditadura militar. Quem tinha razão?

Chico - Mulheres de Atenas foi feita para uma peça do Augusto Boal, que falava de repressão sexual. Não era nenhuma alusão ao momento do país. Acontece que naquela época havia uma forçação de barra muito grande, tanto a favor quanto contra. Ambos os lados liam politicamente o que não era.

Correio - Por exemplo?

Chico - Já disseram que o verso "de muito gorda a porca já não anda", de Cálice, era uma crítica ao Delfim Netto, que era ministro. E gordo. (Risos)

Correio - E o que quer dizer "de muito gorda a porca já não anda"?

Chico - Não faço a mínima idéia. (Risos) Esse verso é do Gil.

Correio - Há quem diga que os versos do samba Injuriado ("Dinheiro não lhe emprestei/ Favores nunca lhe fiz/ Não alimentei o seu gênio ruim/ Você nada está me devendo/ Por isso meu bem não entendo/ Por que anda agora falando de mim") foram dedicados ao presidente Fernando Henrique, que o chamou de "repetitivo", em resposta a uma crítica ao governo dele...

Chico - Faço menos músicas dedicadas às pessoas do que as pessoas pensam. Falaram que Apesar de Você era endereçada ao Médici, quando dizia respeito à situação do país como um todo.

Correio - E aquele famoso verso "você não gosta de mim, mas sua filha gosta": há a versão de que você fez em homenagem à filha do Geisel, que comprava discos de Chico Buarque, enquanto o pai mandava censurar os discos de Chico Buarque...

Chico - O problema é que quando a versão é mais interessante do que o fato, não adianta você querer desmentir. Aquela música falava de uma situação que eu vivi muito: os caras do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) iam me prender e, enquanto me levavam para depor, pediam para eu autografar discos para as filhas, que gostavam de mim.

Correio - Então Injuriado não foi feita para o presidente Fernando Henrique?

Chico - Claro que não.

Correio - Mas o que você achou do Fernando Henrique ter te chamado de "repetitivo"?

Chico - Não li essa declaração. Mas às vezes eu sou repetitivo mesmo...

Correio - Como assim?

Chico - No sentido de que as pessoas me fazem as mesmas perguntas e este país muda tão pouco que eu sou obrigado a me repetir.

Correio - Por que você e outros artistas não participaram da Marcha dos 100 mil (protesto contra o governo FHC)?

Chico - Os artistas sempre se manifestaram nos momentos cruciais da história. Mas imagino que não era o caso de estarmos naquele palanque. Os artistas cantam em comício para atrair gente, o que no caso da Marcha não era necessário, porque as pessoas já estavam indo a pé, de ônibus... Foi até bom, porque deixou uma coisa bem clara: quem estava ali estava para protestar contra o governo, e não para ouvir música.

Correio - Então artista não deve participar de comício?

Chico - O problema é que o que antes era adesão voluntária, ideológica, hoje está se tornando um negócio. E esse comércio neutraliza a idéia que existiu nas campanhas pela Anistia, contra a Censura, pelas Diretas,
pelo Lula em 1989... Hoje, cobra-se cachê para cantar não importa para quem. Amanhã podem perguntar: "Quanto você cobrou para cantar no comício do Lula, na Marcha dos 100 mil?"

Correio - Já tentaram te contratar?

Chico - Nunca! E se tentassem, não existiria a menor possibilidade de eu aceitar. O que já aconteceu foi usarem indevidamente minha obra. Há uns cinco anos, um candidato do Acre usou Vai Passar como jingle. E está sendo processado por isso.

Correio - Só a direita usa indevidamente suas músicas, ou a esquerda também?

Chico - A esquerda também. Mas nunca processei ninguém da esquerda...

Correio - Se o cidadão Chico Buarque tivesse participado da Marcha dos 100 Mil, contra o quê ele estaria protestando? Estaria tão injuriado a ponto de pedir o impeachment de Fernando Henrique?

Chico - O impeachment eu acho um exagero. Mas acho legítimo que os cidadãos protestem contra a política econômica, contra a não transparência de alguns negócios, tipo a privatização das teles, contra tudo que tem que ser esclarecido ou modificado neste país.

Correio - As Cidades vendeu 300 mil cópias, e, embora muito elogiado pela crítica, está longe de ser uma espécie de "Grandes Sucessos de Chico Buarque"... Essa vendagem tão alta foi uma surpresa, não?

Chico - Hoje as pessoas gostam muito de compilações. E o mercado também. Uma amiga minha ouviu uma vendedora de uma loja de discos contando que uma freguesa pegou o meu CD, leu o repertório e comentou: "Ih, só tem música
nova". E não comprou. O engraçado é que eu sempre imaginei que um disco novo devesse ter música nova... (Risos)

Correio - O que você anda ouvindo?

Chico - Não tenho tido muito tempo para ouvir música, mas tem muita gente boa na nova MPB. Eu acho até chato citar alguns e esquecer outros. Mas gosto de Chico César, Lenine (um craque), Zeca Baleiro, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes (outro craque), o pessoal de Pernambuco, do movimento do Chico Science...

Correio - Já o Caetano Veloso anda ouvindo a Tiazinha, e diz que adora. Você gosta da Tiazinha?

Chico - Não ouvi o disco da Tiazinha. Já vi algumas fotos dela, claro, outro dia nos encontramos no aeroporto...

Correio - Bonita?

Chico - ...muito simpática, veio conversar comigo...

Correio - Ela pediu autógrafo?

Chico - Não, não. Mas o disco dela não sei se é bom, porque não ouvi.

Correio - Os dois maiores mitos da MPB parecem estar trilhando caminhos opostos. Caetano quer ser cada vez mais popular, vai ao Faustão, canta no Gugu, enquanto Chico praticamente se recolhe, faz poucos shows, fica anos sem gravar...

Chico - O Caetano fez a opção dele. Eu já fiz mais shows, já fui mais à televisão, mas hoje não tenho vontade. Em novembro, encerro a temporada de shows para fazer o trabalho de artista criador: vou compor música, escrever romance... (Budapest, publicado em 2004, cinco anos depois) Quero fazer o que me dá vontade, o que eu acho bom. É o que me interessa.

Correio - Em outras palavras: Chico Buarque quer ter prazer.

Chico - Mas com certeza!



terça-feira, 17 de novembro de 2009

O Peixe


Tendo por berço

o lago cristalino,

folga o peixe

a nadar todo inocente.


Medo ou receio

do porvir não sente,

pois vive incauto

do fatal destino.


Se na ponta de

um fio longo e fino

a isca avista,

ferra-a inconsciente,


ficando o pobre

peixe de repente,

preso ao anzol

do pescador ladino.


O camponês também

do nosso Estado,

ante a campanha eleitoral:

Coitado.


Daquele peixe tem

a mesma sorte.

Antes do pleito:

festa, riso e gosto.


Depois do pleito:

imposto e mais imposto…

Pobre matuto do

Sertão do Norte.

Patativa do Assaré

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Soneto do Só
(Parábola de Malte Laurids Brigge)

Depois foi só. O amor era mais nada
Sentiu-se pobre e triste como Jó
Um cão veio lamber-lhe a mão na estrada
Espantado, parou. Depois foi só.

Depois veio a poesia ensimesmada
Em espelhos. Sofreu de fazer dó
Viu a face do Cristo ensangüentada
Da sua, imagem - e orou. Depois foi só.

Depois veio o verão e veio o medo
Desceu de seu castelo até o rochedo
Sobre a noite e do mar lhe veio a voz

A anunciar os anjos sanguinários...
Depois cerrou os olhos solitários
E só então foi totalmente a sós.

Vinícius de Moraes


Antigamente, se morria
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.




Paulo Leminski

sábado, 14 de novembro de 2009

Queria enviar-te os meus versos
faço que chego pessoalmente
Aqui estou, querida, ouve:
- És linda! És sonho!
És a minha musa e a minha música!
Lê, eu deveria ter escrito -
mas, eu sei, amor
que em teu pensamento
a minha voz, mensageira,
de mansinho, dir-te-á mais
Não te assustes
com este meu modo de querer.
Só nós o sabemos.
Os outros pensarão
que meu verso é apenas
uma inspiração pobre e passageira...

Coisas de amor só podem ter valor para aqueles que amam,
e eu tenho quase certeza de que significo alguma coisa para ti!
Cassandra Rios

sexta-feira, 13 de novembro de 2009




'A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena
dessas que, quando apagam
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha
ninguém olhava para ela
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

A lua ficou tão triste
com aquela história de amor
que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!'


Paulo Leminski

Paganismo


capítulo de

"Caos, os Panfletos do Anarquismo Ontológico"

(parte um de "Z. A. T.")


CONSTELAÇÕES PELAS QUAIS orientar a barca da alma.

"Se o muçulmano entendesse o Islã ele se tornaria um idólatra" - Mahmud Shabestari


Eleggua, horrendo abridor de portais com um gancho em sua cabeça & búzios como olhos, negro charuto de santeria & um copo de rum — o mesmo que Ganesh, gorducho garoto dos Inícios, com cabeça de elefante, que cavalga um rato. O órgão que sente as atrofias numinosas com os sentidos. Aqueles que não podem sentir baraka não podem conhecer a carícia do mundo.

Hermes Poimandres ensinou a animação dos eidolons, a incorporação mágica de ícones por espíritos — mas aqueles que não podem realizar este rito em si mesmos & em todo o tecido palpável do ser material herdará apenas tristeza, lixo, decadência.

O corpo pagão torna-se uma Corte de Anjos que percebem todos este lugar — este mesmo arvoredo — como um paraíso ("Se há um paraíso, certamente é aqui!" — inscrição em um portão de um jardim Mughal). Mas o anarquismo ontológico é por demais paleolítico para escatologias — as coisas são reais, a feitiçaria funciona, espíritos da mata unos com a Imaginação, morte como uma desagradável imprecisão — a trama das Metamorfoses de Ovídio —, um épico de mutabilidade. A mitologia pessoal.

O Paganismo ainda não inventou leis — apenas virtudes. Sem sacerdócio, sem teologia ou metafísica ou moral — apenas um xamanismo universal onde ninguém atinge a real humanidade sem uma visão. Comida dinheiro sexo sono sol areia & sensmilía— amor verdade paz liberdade & justiça. Beleza. Dionísio o garoto bêbado em uma pantera — rançoso suor adolescente — Pã homem-bode abre caminho através da terra sólida até sua cintura como se estivesse no mar, sua pele incrustada de musgo & líquen — Eros se multiplica em uma dúzia de jovens caipiras nus com pés embarrados & limo de açude em suas coxas.

Raven, o embusteiro misterioso, às vezes um garoto, uma velha, pássaro que roubou a lua, agulhas de pinheiro flutuando em um açude, cabeça de totem Heckle/Jeckle, corvos coristas com olhos de prata dançando na pilha de lenha — o mesmo que Semar, o
corcunda albino hermafrodita marionete de sombras, patrono da revolução Javanesa.

Yemanjá, estrela azulada, deusa marinha & madrinha dos bichas — o mesmo que Tara, aspecto cinza-azulado de Kali, colar de crânios, dançando no rígido lingam de
Shiva, lambendo nuvens de monção com sua língua enormíssima — o mesmo que Loro Kidul, a deusa marinha verde-jaspe javanesa, que concede o poder de invulnerabilidade a sultões através de intercurso tântriko em torres & cavernas mágicas.

Sob um ponto de vista o anarquismo ontológico é extremamente vazio, desprovido de quaisquer posses & qualidades, pobre como o próprio CAOS — mas sob outro ponto de vista ele pulula com a mesma beleza barroca dos Templos da Foda de Katmandu ou de um livro de emblemas alquímicos — esparrama-se em seu divã comendo loukoum & acolhendo noções heréticas, uma mão dentro de suas calças frouxas.

Os cascos de seus navios piratas são laqueados de negro, as velas triangulares são vermelhas, bandeiras negras exibindo uma ampulheta alada.

Um imaginário Mar do Sul Chinês , próximo de uma costa coberta por uma floresta de palmeiras, apodrecidos templos dourados dedicados à deuses de bestiários desconhecidos, ilha após ilha, a birsa como úmida seda amarela na pele nua, navegando por estrelas panteístas, hierofania sobre hierofania, luz sobre luz contra a escuridão luminosa & caótica.


Mestre Hakim Bey