quinta-feira, 19 de novembro de 2009

"Meu caro Chico"






Entrevista antiga,mas que vale dá uma conferida :)


Por: José Rezende Jr.


Um dia, definiu o escritor Millôr Fernandes: "Chico Buarque é a única unanimidade nacional". Errou por pouco: Chico Buarque jamais agradou aos governantes, vestissem eles a farda estrelada dos generais ou o terno bem-cortado dos sociólogos. Os ex-presidentes Emílio Garrastazu Médici e Ernesto Geisel, que não gostavam de críticas, censuraram; o presidente Fernando Henrique Cardoso, que não gostou de uma crítica, decretou em tom de censura: “Chico Buarque é repetitivo”.

Não sendo, nenhum de nós, presidentes da República nem responsáveis pela política econômica que deixou o artista injuriado, resta-nos reclamar do preço do ingresso _ este, sim, uma unanimidade inconteste, que surpreendeu ao próprio Chico Buarque. "Acho que eu não vou (ao show). Tá muito caro!", brincou Chico, em entrevista ao Correio Braziliense.

Mas uma vez superado o trauma de desembolsar de até R$ 160,00 (!!!) para ver e ouvir Chico Buarque, é hora da celebração que não tem preço: o encontro com o mais original de nossos artistas. Rara e já citada exceção, não há quem possa chamar de repetitiva a obra desse poeta em permanente construção, que foi buscar nos gritos dos mercados, no breu das docas, nas velas acesas nos becos deste país uma alma brasileira refletida em gente como o pedreiro que amou daquela vez como se fosse a última, a cabrocha mais bonita que trocou a pista pela galeria e nunca mais foi a mesma, o pivete que zanza na sarjeta e tem as pernas tortas e se chama Mané, as meninas de peitinhos de pitomba que vendem barato suas bugingangas, os malandros com gravata, diploma e capital.

De hoje até sábado, vai passar pela Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional o bloco dos que voam para a América e têm saudade (mas não muita), dos que plantam sonhos onde só vento se semeava outrora, dos poetas que a exemplo dos cegos podem ver na escuridão, e daqueles que, olhos nos olhos, compreendem e cantam o amor barato desse nosso suburbano coração _ como essa quase unanimidade brasileira chamada Chico Buarque.



entrevista/ Chico Buarque




 



Às vezes, ele estica a perna e já não consegue alcançar a bola. Mas parece ser esse o único efeito nocivo do tempo sobre o artista. Aos 55 anos, Chico Buarque compõe, grava e faz show quando quer. Cada vez menos, cada vez melhor.

Com 300 mil cópias vendidas do último CD, As Cidades, lançado depois de um silêncio de cinco anos, Chico não está muito interessado em fazer sucesso _ principalmente se isso incluir aparições nos programas do Faustão e do Gugu. "Caetano (Veloso) fez a opção dele. Eu quero fazer o que me dá vontade, o que eu acho bom", afirma, sem criticar o caminho escolhido pelo intérprete de Sozinho. Ausente da Marcha dos 100 Mil (protesto contra Fernando Henrique promovido pela CUT e por partidos de oposição, em agosto de 1999, em Brasília), o autor de clássicos da resistência como Apesar de Você eCálice (cujas metáforas, admite, ele próprio já não compreende) defende mudanças na política econômica e a investigação de alguns negócios do Governo FHC, como a privatização das teles. E critica o comércio, que tomou o lugar da ideologia, na participação dos artistas em campanhas políticas. "Hoje, cobra-se cachê para cantar não importa para quem."


Correio Braziliense - Há um intervalo de cinco anos entre Paratodos e As Cidades, seus dois últimos discos. Tempo e Artista, uma das faixas de Paratodos, diz: "Imagino o artista num anfiteatro/ onde o tempo é a grande estrela/ Vejo o tempo obrar a sua arte/ tendo o mesmo artista como tela". Hoje você grava menos discos, faz menos shows, compõe menos do que antes. O que o tempo fez com o artista Chico Buarque?

Chico Buarque - Sou hoje um músico mais completo, um compositor mais exigente que há 30 anos, menos prolixo e mais apurado. Em compensação, com o tempo você perde em fluência, em espontaneidade. Enfim, são
vantagens e desvantagens que o tempo traz.

Correio - Mais vantagens ou desvantagens?

Chico Buarque - O tempo acrescenta com uma mão e tira com a outra. Mas não tenho queixas.

Correio - Nem do fato de ter completado 55 anos?

Chico - Não. Quando eu tinha 20 anos, comecei a desconfiar que ia envelhecer (Risos). Mas o tempo vai passando aos poucos, não é assim de uma hora para a outra. Você nem se dá conta. É claro que se aborrece quando estica a perna e não alcança a bola...

Correio - Isso quer dizer que o tempo faz mal ao jogador de futebol Chico Buarque. E ao artista? Por que hoje você compõe tão pouco?

Chico - Por ter me tornado muito mais exigente do que era no início da carreira. Às vezes, quando ouço uma música que fiz aos 20 anos, penso: `Eu podia ter feito muito melhor'. No começo, tinha contratos com gravadoras que me obrigavam a lançar um disco por ano. Hoje, só assino contrato por um disco, que posso renovar ou não. E isso me faz muito bem: gravar quando tiver vontade, quando me sentir bem.

Correio - E para compor, você também precisa se sentir bem, ou é a inspiração que manda?

Chico - Pode acontecer de, num relance, eu ter uma idéia, uma inspiração. Mas, cada vez mais, sou em quem vai buscar a música, e não o contrário. Como tenho muitas parcerias, não costumo partir do nada _ parto das melodias dos parceiros. Ou de imagens, como no caso de A Ostra e o Vento, tema do filme do Walter Lima Jr., e de Assentamento, feita a partir do livro (Terra) do Sebastião Salgado. Pode até aparecer uma idéia de repente, mas isso acontece cada vez menos.

Correio - Por quê?

Chico - Porque, com o tempo, você fica cada vez menos disponível para esse tipo de centelha, perde o gesto espontâneo de sentar, tocar violão... Fica mais exigente: aos 50, você joga mais coisa fora do que aproveita. Você tem mais conhecimento do que tinha aos 20 anos. E como já conhece bem os caminhos, fica mais difícil encontrar um caminho pelo acaso.

Correio - Conhecendo os caminhos, fica fácil compor?

Chico - Não é bem assim. Eu sei como buscar, mas não necessariamente como encontrar. Às vezes, acontece de buscar, ralar, e não encontrar. Mas sei que mais cedo ou mais tarde vou conseguir. Na verdade, fácil, nenhuma música é. Mas para quem passa um ano escrevendo um romance, ficar uma semana tentando compor uma música não é tanto tempo assim.

Correio - Uma parte importante da sua obra foi composta no feminino. Mas no disco novo, apenas uma, A Ostra e o Vento, se enquadra nessa categoria. E no anterior, não há uma única sequer. O que houve com sua alma feminina?

Chico - Acho que ela anda meio adormecida. (Risos) Na verdade, quase todas as minhas músicas femininas foram feitas para cinema ou teatro, para personagens femininas, que precisavam ser cantadas no feminino. E eu tenho escrito menos para cinema e teatro do que antigamente, até porque, principalmente no caso do cinema, se produz menos no Brasil.

Correio - Mas você podia continuar compondo no feminino independente do teatro e do cinema, como no caso de Com Açúcar, com Afeto e Olhos nos Olhos, não?

Chico - É. Com Açúcar, com Afeto foi a primeira. A Nara (Leão) pediu que eu fizesse uma música no feminino para ela, e deu até o tema: ela queria que falasse dessas mulheres que sofrem em casa enquanto os maridos vão para a rua. Olhos nos Olhos, eu fiz para a Bethânia cantar. Temos cantoras maravilhosas no Brasil, e acho bom fazer canções para elas.

Correio - Então...?

Chico - Tudo bem. A qualquer hora minha alma feminina sai do armário de novo... (Risos)

Correio - E as músicas de protesto, quando saem do armário de novo?

Chico - De protesto mesmo, fiz poucas, talvez uma meia-dúzia. Sobre a realidade social, continuo fazendo, como Assentamento (sobre os sem-terra). A verdade é que a linguagem muda com o tempo. Se você pegar as canções do tempo da ditadura, vai ver que as tintas são mais fortes, há menos nuances, até os arranjos e o jeito de cantar eram diferentes.

Correio - E tinha que ter muita metáfora para driblar a censura, não?

Chico - Algumas tão obscuras que se tornaram incompreensíveis. Às vezes, eu mesmo não sei o que eu quis dizer com algumas metáforas de músicas como Cálice (parceria com Gilberto Gil), por exemplo.

Correio - Uma vez entrevistei uma ex-censora - sua fã - que se orgulhava de ter contribuído para a liberação de Mulheres de Atenas. Ela disse que bateu o pé, dizendo que a música falava apenas da submissão das mulheres, enquanto alguns colegas censores viam ali uma metáfora do Brasil oprimido pela ditadura militar. Quem tinha razão?

Chico - Mulheres de Atenas foi feita para uma peça do Augusto Boal, que falava de repressão sexual. Não era nenhuma alusão ao momento do país. Acontece que naquela época havia uma forçação de barra muito grande, tanto a favor quanto contra. Ambos os lados liam politicamente o que não era.

Correio - Por exemplo?

Chico - Já disseram que o verso "de muito gorda a porca já não anda", de Cálice, era uma crítica ao Delfim Netto, que era ministro. E gordo. (Risos)

Correio - E o que quer dizer "de muito gorda a porca já não anda"?

Chico - Não faço a mínima idéia. (Risos) Esse verso é do Gil.

Correio - Há quem diga que os versos do samba Injuriado ("Dinheiro não lhe emprestei/ Favores nunca lhe fiz/ Não alimentei o seu gênio ruim/ Você nada está me devendo/ Por isso meu bem não entendo/ Por que anda agora falando de mim") foram dedicados ao presidente Fernando Henrique, que o chamou de "repetitivo", em resposta a uma crítica ao governo dele...

Chico - Faço menos músicas dedicadas às pessoas do que as pessoas pensam. Falaram que Apesar de Você era endereçada ao Médici, quando dizia respeito à situação do país como um todo.

Correio - E aquele famoso verso "você não gosta de mim, mas sua filha gosta": há a versão de que você fez em homenagem à filha do Geisel, que comprava discos de Chico Buarque, enquanto o pai mandava censurar os discos de Chico Buarque...

Chico - O problema é que quando a versão é mais interessante do que o fato, não adianta você querer desmentir. Aquela música falava de uma situação que eu vivi muito: os caras do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) iam me prender e, enquanto me levavam para depor, pediam para eu autografar discos para as filhas, que gostavam de mim.

Correio - Então Injuriado não foi feita para o presidente Fernando Henrique?

Chico - Claro que não.

Correio - Mas o que você achou do Fernando Henrique ter te chamado de "repetitivo"?

Chico - Não li essa declaração. Mas às vezes eu sou repetitivo mesmo...

Correio - Como assim?

Chico - No sentido de que as pessoas me fazem as mesmas perguntas e este país muda tão pouco que eu sou obrigado a me repetir.

Correio - Por que você e outros artistas não participaram da Marcha dos 100 mil (protesto contra o governo FHC)?

Chico - Os artistas sempre se manifestaram nos momentos cruciais da história. Mas imagino que não era o caso de estarmos naquele palanque. Os artistas cantam em comício para atrair gente, o que no caso da Marcha não era necessário, porque as pessoas já estavam indo a pé, de ônibus... Foi até bom, porque deixou uma coisa bem clara: quem estava ali estava para protestar contra o governo, e não para ouvir música.

Correio - Então artista não deve participar de comício?

Chico - O problema é que o que antes era adesão voluntária, ideológica, hoje está se tornando um negócio. E esse comércio neutraliza a idéia que existiu nas campanhas pela Anistia, contra a Censura, pelas Diretas,
pelo Lula em 1989... Hoje, cobra-se cachê para cantar não importa para quem. Amanhã podem perguntar: "Quanto você cobrou para cantar no comício do Lula, na Marcha dos 100 mil?"

Correio - Já tentaram te contratar?

Chico - Nunca! E se tentassem, não existiria a menor possibilidade de eu aceitar. O que já aconteceu foi usarem indevidamente minha obra. Há uns cinco anos, um candidato do Acre usou Vai Passar como jingle. E está sendo processado por isso.

Correio - Só a direita usa indevidamente suas músicas, ou a esquerda também?

Chico - A esquerda também. Mas nunca processei ninguém da esquerda...

Correio - Se o cidadão Chico Buarque tivesse participado da Marcha dos 100 Mil, contra o quê ele estaria protestando? Estaria tão injuriado a ponto de pedir o impeachment de Fernando Henrique?

Chico - O impeachment eu acho um exagero. Mas acho legítimo que os cidadãos protestem contra a política econômica, contra a não transparência de alguns negócios, tipo a privatização das teles, contra tudo que tem que ser esclarecido ou modificado neste país.

Correio - As Cidades vendeu 300 mil cópias, e, embora muito elogiado pela crítica, está longe de ser uma espécie de "Grandes Sucessos de Chico Buarque"... Essa vendagem tão alta foi uma surpresa, não?

Chico - Hoje as pessoas gostam muito de compilações. E o mercado também. Uma amiga minha ouviu uma vendedora de uma loja de discos contando que uma freguesa pegou o meu CD, leu o repertório e comentou: "Ih, só tem música
nova". E não comprou. O engraçado é que eu sempre imaginei que um disco novo devesse ter música nova... (Risos)

Correio - O que você anda ouvindo?

Chico - Não tenho tido muito tempo para ouvir música, mas tem muita gente boa na nova MPB. Eu acho até chato citar alguns e esquecer outros. Mas gosto de Chico César, Lenine (um craque), Zeca Baleiro, Carlinhos Brown, Arnaldo Antunes (outro craque), o pessoal de Pernambuco, do movimento do Chico Science...

Correio - Já o Caetano Veloso anda ouvindo a Tiazinha, e diz que adora. Você gosta da Tiazinha?

Chico - Não ouvi o disco da Tiazinha. Já vi algumas fotos dela, claro, outro dia nos encontramos no aeroporto...

Correio - Bonita?

Chico - ...muito simpática, veio conversar comigo...

Correio - Ela pediu autógrafo?

Chico - Não, não. Mas o disco dela não sei se é bom, porque não ouvi.

Correio - Os dois maiores mitos da MPB parecem estar trilhando caminhos opostos. Caetano quer ser cada vez mais popular, vai ao Faustão, canta no Gugu, enquanto Chico praticamente se recolhe, faz poucos shows, fica anos sem gravar...

Chico - O Caetano fez a opção dele. Eu já fiz mais shows, já fui mais à televisão, mas hoje não tenho vontade. Em novembro, encerro a temporada de shows para fazer o trabalho de artista criador: vou compor música, escrever romance... (Budapest, publicado em 2004, cinco anos depois) Quero fazer o que me dá vontade, o que eu acho bom. É o que me interessa.

Correio - Em outras palavras: Chico Buarque quer ter prazer.

Chico - Mas com certeza!



Nenhum comentário: