segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O apanhador de desperdícios


Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras fatigadas de informar.
Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas
Dou respeito às coisas desimportantes
e aos seres desimportantes.
Prezo insentos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis
Tenho em mim um atraso de nascença
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Por que eu não sou da informática:
eu sou da invencionática.
Só uso a palavra para compor meus silêncios.


















Por Manuel de Barros.

Um comentário:

Nádia C. disse...

Manoel de Barros!

poeta-delírio