sábado, 30 de janeiro de 2010

A INDECÊNCIA PODE SER SAUDÁVEL

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A INDECÊNCIA PODE SER SAUDÁVEL (D. H. Lawrence)


A indecência pode ser normal,
saudável;
na verdade, um pouco de indecência
é necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.


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E um pouco de putaria pode ser
normal, saudável.
Na verdade, um pouco de putaria é
necessário em toda vida
para a manter normal, saudável.
Mesmo a sodomia pode ser
normal,saudável,
desde que haja troca de sentimento
verdadeiro.


.


Mas se alguma delas for para o
cérebro, aí se torna perniciosa;
a indecência no cérebro se torna
obscena, viciosa,
a putaria no cérebro se torna
sifilítica
a a sodomia no cérebro se torna
uma missão,
tudo, vício, missão, insanamente
mórbido.


.


Do mesmo modo, a castidade na
hora própria é normal e bonita.
Mas a castidade no cérebro é vício,
perversão.
E a rígida supressão de toda e
qualquer indecência, putaria e
relações assim
leva direto a furiosa insanidade.
E a quinta geração de puritanos, se
não for obscenamente depravada,
é idiota. Por isso, você tem de
escolher.


.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010


'Quando acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era,
mas acho que já mudei muitas vezes desde então.
Lewis Carroll in Alice in Wonderland

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Sail to The Moon





Mais uma vez desnorteada.
Se alguém pudesse viver em mim
se perderia com essa sequência de acontecimentos,
de simples lances perturbadores…
Quando eu acho que acabou - ta dá - surpresinhas aqui e alí.
Caramba, como eu quero sair disso por completo..
Pelo menos não penso mais, não me abalo mais tanto quanto antes…
Mas mesmo assim, os sinais.
Os sinais! Continuam a me assombrar.
Get off me. I’m no longer sleeping with ghosts




Autor Desconhecido

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A pechincha




Por Truman Capote


Várias coisas no marido irritavam a sra. Chase. Por exemplo, a voz: ele sempre falava como se estivesse apostando num jogo de pôquer. Ouvir aquela fala arrastada e indiferente era exasperador, sobretudo agora, que, conversando com ele por telefone, ela própria falava de forma estridente de tanta empolgação. "Claro que eu já tenho um, sei disso. Mas você não entende, querido — é uma pechincha", explicou, enfatizando a última palavra, depois fazendo uma pausa para deixar a magia dela crescer. Só ouviu silêncio. "Puxa, você podia dizer alguma coisa. Não, não estou numa loja, estou em casa. Alice Severn vem para o almoço. É sobre o casaco de Alice que estou tentando lhe falar. Você deve se lembrar dela." A memória esburacada do marido era outra fonte de irritação, e, embora ela lhe lembrasse que lá em Greenwich Village eles tinham visto com freqüência Arthur e Alice Severn, chegaram até a receber o casal em sua casa, ele fingiu não conhecer aquele nome. "Não importa", ela suspirou. "Só vou dar uma olhada no casaco. Tenha um bom almoço, querido."

Mais tarde, ao se aborrecer com as ondas precisas de seu cabelo retocado, a sra. Chase admitiu que realmente não havia motivo para o marido se lembrar dos Severn com tanta clareza. Deu-se conta disso quando, com sucesso parcial, tentou evocar uma imagem de Alice Severn. Pois bem, quase conseguiu: uma mulher rosada e desengonçada, com menos de trinta anos, que sempre dirigia uma caminhonete, acompanhada por um setter irlandês e por duas bonitas crianças de cabelos louros avermelhados. Dizia-se que o marido dela bebia; ou seria o contrário? Além disso, eles eram considerados maus pagadores, ao menos a sra. Chase lembrou de certa vez ter ouvido falar de dívidas incríveis, e alguém, teria sido ela própria?, descrevera Alice Severn como simplesmente boêmia demais.

Antes de se mudarem para a cidade, os Chase mantiveram uma casa em Greenwich Village, que era um tédio para a sra. Chase, porque ela detestava os sinais de natureza dali e preferia o divertimento das vitrines de Nova York. Em Greenwich Village, em algum coquetel, na estação de trem, vez por outra encontravam os Severn, e não passou disso. Nem éramos amigos, ela concluiu, um tanto surpresa. Como costuma acontecer quando de súbito se ouve falar de uma pessoa do passado, e alguém conhecido num contexto diferente, ela fora induzida a uma sensação de intimidade. Mas, pensando melhor, parecia extraordinário que Alice Severn, a quem ela não via fazia mais de um ano, tivesse telefonado oferecendo à venda um casaco de vison.

A sra. Chase parou na cozinha a fim de pedir sopa e salada para o almoço: jamais lhe ocorria que nem todo mundo estava de dieta. Encheu um decantador de xerez e o levou consigo até a sala de estar. Uma sala verde-esmeralda, o mesmo gosto excessivamente juvenil das roupas dela. O vento fustigava as janelas, pois o apartamento ficava num andar alto, com uma vista de avião do centro de Manhattan. Colocou um disco do Linguaphone na vitrola e sentou-se em posição não relaxada, ouvindo a voz forçada pronunciar frases francesas. Em abril, os Chase planejavam comemorar o vigésimo aniversário de casamento com uma viagem a Paris; por essa razão, ela começara as aulas do Linguaphone, e, por essa razão também, cogitou no casaco de Alice Severn: seria mais prático, achou, viajar com um vison de segunda mão; mais tarde, poderia mandar transformá-lo numa estola.

Alice Severn chegou alguns minutos mais cedo, uma casualidade decerto, pois não era uma pessoa ansiosa, pelo menos a julgar por seus modos contidos e cautelosos. Usava sapatos comuns, um casaco de tweed que já vira dias melhores, e carregava uma caixa amarrada com um barbante puído.

"Fiquei encantada quando você telefonou esta manhã. Deus sabe, faz um tempão que não nos vemos, mas, claro, não vamos mais a Greenwich Village."

Embora sorrindo, sua visita permaneceu calada, e a sra. Chase, que assumira um tom efusivo, ficou um tanto sem graça. Quando as duas sentaram, os olhos dela apreenderam a mulher mais jovem, e ocorreu-lhe que, se tivessem se encontrado por acaso, poderia não tê-la reconhecido, não porque sua aparência tivesse se alterado tanto, mas porque a sra. Chase se deu conta de que nunca antes olhara atentamente para ela, o que parecia estranho, pois Alice Severn era alguém que chamava a atenção. Se fosse menos comprida, mais compacta, as pessoas poderiam ignorá-la, talvez reparando que era atraente. Mas, do jeito que era, com seus cabelos vermelhos, a impressão de distância nos olhos, o rosto sardento, outonal, e as mãos magras e fortes, havia nela certa peculiaridade difícil de ignorar.

"Xerez?"

Alice Severn assentiu com a cabeça, que, equilibrada precariamente sobre o pescoço fino, parecia um crisântemo pesado demais para seu talo.

"Cream-cracker?", ofereceu a sra. Chase, observando que alguém tão esguio e alongado devia comer feito um cavalo. Sua frugalidade de sopa e salada despertou-lhe um súbito receio, e ela contou a seguinte mentira: "Não sei o que Martha está preparando para o almoço. Sabe como é difícil, em cima da hora. Mas conte, querida, o que está acontecendo em Greenwich Village?".

"Em Greenwich Village?", ela disse, entrecerrando as pálpebras, como se uma luz inesperada refulgisse na sala. "Não tenho a menor idéia. Não moramos mais lá faz algum tempo, seis meses ou mais."

"Oh?", fez a sra. Chase. "Veja como estou desatualizada. Mas onde você está morando, querida?"

Alice Severn ergueu uma das mãos ossudas e desajeitadas e apontou para a janela. "Lá fora", respondeu, de forma estranha. Sua voz era clara, mas tinha um tom de esgotamento, como se ela estivesse pegando um resfriado. "Quer dizer, no centro. Não gostamos muito, sobretudo Fred."

Com a mínima inflexão, a sra. Chase perguntou: "Fred?", pois lembrava perfeitamente que Arthur era o nome do marido da visita.

"Sim, Fred, meu cachorro, um setter irlandês, você deve tê-lo visto. Está acostumado com espaço, e o apartamento é tão pequeno, só um quarto."

Dias difíceis deviam ter sobrevindo para que todos os Severn estivessem morando num único quarto. Por mais curiosa que fosse, a sra. Chase se controlou e não indagou a respeito do assunto. Provou seu xerez e disse: "Claro que me lembro do seu cachorro; e das crianças: todas as três cabecinhas vermelhas espiando pela janela da caminhonete".

"As crianças não têm cabelos vermelhos. São louras, como Arthur."

A correção, com tão pouco senso de humor, provocou na sra. Chase uma risadinha intrigada. "E Arthur, como vai?", perguntou ela, preparando-se para se levantar e conduzir a visita até o almoço. Mas a resposta levou-a a sentar-se de novo. Sem mudança alguma na expressão placidamente desornada de Alice Severn, consistiu apenas em: "Mais gordo".

"Mais gordo", ela repetiu após um momento. "A última vez que o vi, acho que só uma semana atrás, estava atravessando uma rua feito um pato. Se ele tivesse me visto, eu teria de rir: ele sempre foi tão preocupado com a aparência."

A sra. Chase pôs as mãos na cintura. ''Você e Arthur. Separados? É simplesmente incrível."

"Nós não estamos separados." Ela esfregou as mãos no ar como que para remover teias de aranha. "Eu o conheço desde criança, desde que nós dois éramos crianças: você acha", disse tranqüilamente, "que poderíamos algum dia estar separados um do outro, sra. Chase?"

O uso exato de seu nome pareceu afastar a sra. Chase; por um momento, ela se sentiu isolada, e, ao caminharem juntas até a sala de jantar, imaginou uma hostilidade circulando entre elas. Possivelmente foi a visão das mãos desajeitadas de Alice Severn tentando abrir um guardanapo que a persuadiu de que aquilo não era verdade. Exceto por algumas palavras corteses, elas comeram em silêncio, e ela começava a temer que não haveria nenhuma história.

Enfim Alice Severn disse abruptamente: "Na verdade, nos divorciamos em agosto passado".

A sra. Chase esperou; depois, entre a descida e a subida de sua colher de sopa, disse: "Que horrível. Por causa da bebedeira dele?".

"Arthur nunca bebeu", ela respondeu com um sorriso agradável mas espantado. "Ou melhor, nós dois bebíamos. Por prazer, não por vício. Era gostoso no verão. Costumávamos descer até o riacho, colher hortelã e preparar um coquetel de uísque com hortelã em enormes potes de frutas. Às vezes, nas noites quentes em que não conseguíamos dormir, enchíamos de cerveja gelada as garrafas térmicas e acordávamos as crianças, depois íamos de carro até a praia; é divertido beber cerveja e nadar e dormir na areia. Bons tempos; lembro que uma vez ficamos lá até o sol raiar. Não", disse, alguma idéia séria retesando sua face. "eu vou lhe contar. Sou quase uma cabeça mais alta que Arthur, e acho que isso o preocupava. Quando éramos crianças, ele sempre achou que me ultrapassaria, mas isso nunca aconteceu. Ele detestava dançar comigo, e olha que ele adora dançar. E gostava de um monte de gente ao redor, gente baixinha de voz alta. Não sou assim, preferia que ficássemos só os dois. Nesse aspecto eu não era agradável para ele. Pois bem, lembra de ]eannie Bjorkman? Aquela de rosto redondo e cabelo encaracolado, mais ou menos da sua altura".

"Lembro, sim", respondeu a sra. Chase. "Esteve no comitê da Cruz Vermelha. Horrorosa."

"Não", replicou Alice Severn, refletindo. "Jeannie não é horrorosa. Éramos ótimas amigas. O estranho é que Arthur costumava dizer que a odiava, mas tenho a impressão de que sempre foi louco por ela, com certeza agora é, e as crianças também. Eu queria que as crianças não gostassem dela, embora devesse estar feliz por gostarem, já que têm de viver com ela."

"Não acredito: seu marido casado com aquela horrorosa da Bjorkmanl"

"Desde agosto."

A sra. Chase, fazendo primeiro uma pausa para sugerir que fossem tomar o café na sala de estar, disse: "É deprimente você estar vivendo sozinha em Nova York. Pelo menos devia ter ficado com os filhos".

"Arthur quis ficar com eles", respondeu Alice Severn simplesmente. "Mas não estou sozinha. Fred é um de meus melhores amigos."

A sra. Chase gesticulou, impaciente: não gostava de fantasias. "Um cachorro. Loucura. A verdade é que você é uma tola: se algum homem tentasse me passar para trás, eu cortava os pés dele em pedacinhos. Vai ver que você nem exigiu", hesitou, "uma pensão."

"Você não entende, Arthur não tem dinheiro algum", disse Alice Severn com o desânimo de uma criança que descobriu que os adultos, afinal, não são muito lógicos. "Teve até de vender o carro, e vai e volta a pé da estação. Mas, sabe, acho que está feliz."

"O que você precisa é de um bom beliscão", disse a sra. Chase como se estivesse pronta para realizar o serviço.

"É Fred que me preocupa. Está acostumado com espaço, e, com uma única pessoa, não sobram muitos ossos. Você acha que, quando terminar meu curso, consigo arrumar um emprego na Califórnia? Estou estudando administração, mas não sou muito rápida, sobretudo na máquina de escrever, meus dedos parecem detestar aquilo. Deve ser como tocar piano, você tem de aprender quando é jovem." Ela olhou curiosa para suas mãos, suspirando: "Tenho aula às três; importa-se se lhe mostrar o casaco agora?".

A festividade de coisas saindo de uma caixa em geral alegrava a sra. Chase, mas, quando ela viu a tampa ser retirada, um mal-estar melancólico dominou-a.

"Pertenceu à minha mãe."

Que deve ter usado essa tralha durante sessenta anos, pensou a sra. Chase, encarando um espelho. O casaco dava nos seus tornozelos. Ela passou a mão pela pelagem opaca, quase sem pêlos: estava mofada, fedida, como se tivesse permanecido num sótão à beira-mar. Fazia frio dentro do casaco, ela estremeceu, ao mesmo tempo um rubor aqueceu-lhe o rosto, pois foi aí que notou que Alice Severn olhava sobre seus ombros e na expressão dela havia uma expectativa tensa, humilhante, antes inexistente. Quanto à solidariedade, a sra. Chase praticava a parcimônia: antes de oferecê-la, tomava a precaução de amarrar um barbante nela para, em caso de necessidade, pegá-la de volta. Quando ela fitou Alice Severn, porém, foi como se o barbante tivesse sido cortado, e dessa vez ela se confrontou com as obrigações da solidariedade. Hesitou mesmo assim, procurando uma escapatória, mas seus olhos colidiram com aqueles outros olhos, e ela percebeu que não havia nenhuma. A lembrança de uma palavra das aulas do Linguaphone facilitaram uma pergunta: "
Combien?".

"Isso não vale nada, não é?" Havia confusão na pergunta, não franqueza.

"Não, não vale", ela respondeu, cansada, quase irritada. "Mas pode ter alguma utilidade." Não repetiu a pergunta; estava claro que estipular o preço fazia parte de sua obrigação.

Ainda arrastando o incômodo casaco, dirigiu-se a um canto da sala onde havia uma escrivaninha e, com movimentos nervosos e ressentidos, preencheu um cheque da sua conta pessoal: preferia que o marido não soubesse. Mais que a maioria, a sra. Chase detestava o sentimento de perda; uma chave fora do lugar, uma moeda caída, despertavam sua consciência do roubo e das trapaças da vida. Sensação semelhante acompanhou-a quando entregou o cheque a Alice Severn. Esta, dobrando-o sem olhar para ele, enfiou-o no bolso do traje. Era um cheque de cinqüenta dólares,

"Querida", disse a sra. Chase, carrancuda com a falsa preocupação, "você tem de telefonar e contar como andam as coisas. Não deve se sentir solitária."

Alice Severn nem agradeceu, e na porta não disse "tchau". Em vez disso, segurou uma das mãos da sra. Chase e deu um tapinha nela, como se estivesse delicadamente recompensando um animal, um cachorro. Fechando a porta, a sra. Chase fitou sua mão, aproximou-a dos lábios. A sensação da outra mão ainda perdurava, e ela continuou ali, esperando que passasse: logo sua mão ficou bem fria de novo.


(1950)

A pitonisa






Autor: Zuleika dos Reis

A cantora que não sou
espera-me no palco
vazio de instrumentos
vazio de partituras
vazio de microfones
vazio de músicos
vazio de estantes
cenário de Beckett.


Deixa-me dizer-te ao pé do ouvido
(para que o nosso outro ouvido, mallarmaico, não nos ouça):
A pós-modernidade, às vezes,
dói-me tão terrivelmente
em fundo tal da alma careca
que, por abissais sejam os seus poderes,
nenhum adepto de Jung alcançaria, lá
onde o meu inconsciente coletivo
esteja a dançar um funk da periferia.


"Cair-me-ia a cara se no baile
o funkeiro vis-à-vis
começasse a falar de Mallarmé."


Que me comece a cair a cara
desde já
face à enorme probabilidade
da ocorrência efetiva do fato
mencionado de passagem e entre aspas
na estrofe anterior.


Eis que, repentina,
do mais fundo do fundo
do meu inconsciente coletivo
ergue-se a voz de Frida Khalo:
Lembra do nervo do tendão
da tua perna esquerda, aquele
atrofiado de nascença?
Nunca te houve tempo de rock
nem de quadra de samba.
Pela lógica do plano aqui embaixo
deveria, certamente, haver à tua espera
um baile funk, porém,
por mais que a vista force
me está sendo impossível vislumbrá-lo.
Assim, ainda que consigas
outorgar a teu self

 outra espécie de dias transgressores
cala para sempre a todo ouvido
teu destino malogrado
de Madame Bovary.

Todos os dias





Autor: Joel Borella
De todos os dias, eu escolho esses,
Que me fazem sentir dor, medo;
Sentir as lágrimas que buscam abrigo entre meus lábios.
Desses dias, posso caminhar pela chuva,
Pelo sol, em dia nublado;
Ou simplesmente caminhar.
Dias desses,
Que me esconde em seus ponteiros
E que me leva a mastigar meu suor,
Meu pranto e minha dor.
Quem desses, me rasga a pele,
Sangra o chão
E morre sentado a beira de algum lugar?
Nesses dias, eu brinco de ser alguém,
De ser um e de ser todo mundo;
Mesmo sabendo que é embriaguez sofrer;
Mesmo sabendo,
Que estou cansado e bêbado em ser.
Cace-me nessas noites sujas,
Roube-me de algum lugar
E coma dessa carne enrijecida pelo tempo.
Desses dias eu quero a lágrima,
O cheiro,
As coisas para me proteger,
Para me libertar e me prender
De todas essas buscas de apenas um céu.
Estou exausto de todos os dias, e,
Intensamente entorpecido pelos cansaços.

Annaïs




Autor: Gudrun Brangwen

Da primeira vez que a vi, julguei-a insuportável.
Já os cabelos ruivos anunciavam sua forte personalidade que, ao encontro com a minha, também forte, provocara-me uma certa repulsa, instantânea e gratuita. Acho que mútua.
Acontece que passada a tempestade da primeira impressão, veio a tempestade da segunda; e da terceira.
Foi quando percebi que a cada encontro, casual, claro, o incômodo que sua presença me causava crescia vertiginosamente.
Porém, este incômodo logo começava a se diluir em minha mente e, agora, esquentava meu peito, depois ardia, depois queimava e assim progressivamente, até o momento em que me surpreendi plenamente apaixonada.
Comecei então a dormir Caio, acordar Clarice, almoçar Rosa, lanchar Rachel, jantar Carlos e assim por diante.
Depois você já sabe, vieram os olhos brilhando, a alegria constante, a música romântica, a poesia e, certamente, as crônicas.
Nada aconteceu. Como sempre.
Ela nem ao menos soube. Mas durante certo tempo e ainda hoje, este amor que transformou meus dias e devolveu-me a crença de que um dia ele me seria possível, acompanha-me desde que cheguei a Paris.


segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Ânima

A minha alma
é uma mulher
que sonha


Por: Hamilton Faria
In: Haikuazes

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Despedida



Nós nos abraçamos
eu toco em tecido rico
Você em tecido pobre.
O abraço é ligeiro
Você vai para um almoço.
Atrás de mim estão os carrascos.
Falamos do tempo e de nossa
permanente amizade. Todo o resto
Seria amargo demais

Um homem jamais pode entender o tipo de solidão que uma mulher experimenta. Um homem se deita sobre o útero da mulher apenas para se fortalecer, ele se nutre desta fusão, se ergue e vai ao mundo, a seu trabalho, a sua batalha, sua arte. Ele não é solitário. Ele é ocupado. A memória de nadar no líquido aminótico lhe dá energia, completude. A mulher pode ser ocupada também, mas ela se sente vazia. Sensualidade para ela não é apenas uma onda de prazer em que ela se banhou, uma carga elétrica de prazer no contato com outra. Quando o homem se deita sobre o útero dela, ela é preenchida, cada ato de amor, ter o homem dentro dela, um ato de nascer e renascer, carregar uma criança e carregar um homem. Toda vez que o homem deita em seu útero se renova no desejo de agir, de ser. Mas para uma mulher, o climax não é o nascimento, mas o momento em que o homem descansa dentro dela.
Anais Nïn

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Respirar aliviado e por um instante não ser mais eu, que hoje não me suporto nem me perdôo de ser como sou e não ter solução.
Caio F.

sábado, 9 de janeiro de 2010

Uma saída é algo que se inventa. E cada um, inventando a sua prórpia saída, inventa a si mesmo. O homem é para ser inventado a cada dia.  

Por: Jean-Paul Sartre

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010



Sinto mil possibilidades nascerem dentro de mim. Sou sucessivamente travessa, alegre, lânguida e melancólica.
Tenho raízes mas flutuo. (...) Nasci para ser estilhaçada. Nasci para que se riam de mim. Estou destinada a andar à deriva,
entre os homens e mulheres de faces contraídas e línguas mentirosas, como um pedaço de cortiça num mar revolto.


Por: Virginia Woolf

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Manoel de Barros

Uma Didática da Invenção
do "O Livro das Ignorãnças" ed. Civilização Brasileira.




I
Para apalpar as intimidades do mundo é preciso saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com
faca
b) 0 modo como as violetas preparam o dia
para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas
vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência
num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre 2 jacintos carrega
mais ternura que um rio que flui entre 2
lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro.
Etc.
etc.
etc.
Desaprender 8 horas por dia ensina os princípios.

Química

terça-feira, 5 de janeiro de 2010


Como ciumento sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo de sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum.

Roland Barthes