quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A pitonisa






Autor: Zuleika dos Reis

A cantora que não sou
espera-me no palco
vazio de instrumentos
vazio de partituras
vazio de microfones
vazio de músicos
vazio de estantes
cenário de Beckett.


Deixa-me dizer-te ao pé do ouvido
(para que o nosso outro ouvido, mallarmaico, não nos ouça):
A pós-modernidade, às vezes,
dói-me tão terrivelmente
em fundo tal da alma careca
que, por abissais sejam os seus poderes,
nenhum adepto de Jung alcançaria, lá
onde o meu inconsciente coletivo
esteja a dançar um funk da periferia.


"Cair-me-ia a cara se no baile
o funkeiro vis-à-vis
começasse a falar de Mallarmé."


Que me comece a cair a cara
desde já
face à enorme probabilidade
da ocorrência efetiva do fato
mencionado de passagem e entre aspas
na estrofe anterior.


Eis que, repentina,
do mais fundo do fundo
do meu inconsciente coletivo
ergue-se a voz de Frida Khalo:
Lembra do nervo do tendão
da tua perna esquerda, aquele
atrofiado de nascença?
Nunca te houve tempo de rock
nem de quadra de samba.
Pela lógica do plano aqui embaixo
deveria, certamente, haver à tua espera
um baile funk, porém,
por mais que a vista force
me está sendo impossível vislumbrá-lo.
Assim, ainda que consigas
outorgar a teu self

 outra espécie de dias transgressores
cala para sempre a todo ouvido
teu destino malogrado
de Madame Bovary.

4 comentários:

Anônimo disse...

Antes de tudo, venho agradecer pela publicação do meu poema A PITONISA, apenas com um pequeno reparo: o poema está incompleto. Assi, depois de "outorgar a teu self" gostaria, se possível que fosse acrescentado:
" outra espécie de dias transgressores
cala para sempre a todo ouvido
teu destino malogrado
de Madame Bovary."
Muito obrigada
Zuleika dos Reis.

Bruna disse...

Olá Zuleika! Nós que agradecemos :)
Postamos aqui textos de vários autores e eu adorei o seu,por isso postei aqui.
Vou reparar erro,é porque postar por aqui tem dado trabalho ultimamente,postagem apresentando erros,enfim...
Qualquer poema novo que quiser mandar pra gente postar por aqui é só avisar por email!
Abraços!!!

Anônimo disse...

Os agradecimentos são todos meus,Bruna; foi uma alegria ver este meu poema publicado e também "corrigido". Claro, será um prazer enviar novos poemas e também textos em prosa, se lhe aprouver ( pôxa, que castiço este "aprouver", saiu sem querer.
Grande abraço
Zuleika.

Bruna disse...

Quando quiser é só mandar para esse email: b.metal.heart@gmail.com
Em seguida eu posto aqui!
Abraços.