sábado, 6 de fevereiro de 2010

SOBREVOO RASO POR TRECHOS DO NOVO MILÊNIO








                          à memória de José Paulo Paes
Tabuleiro medieval.
As tochas iluminam a Morte e o cavaleiro
no jogo que prossegue...


Algumas torres se preparam para a morte
outras, não. Enquanto isso, desde o primeiro lance,
os peões tremem.

Sem os peões, o jogo não existe.

O morto no campo de batalha



olha o inimigo e pensa:
Esse está mais morto do que eu.

O outro morto:
Você se engana.

A seguir se quedam calados
sobre a terra.
É impossível dialogar
com o inimigo.

Atravessamos o milênio
e daí?
Não vejo qualquer diferença
no rio.

Eu vejo:
Acaba de passar
um cardume morto.

Se você pretende
atravessar comigo
neste barco
até o outro lado
da linguagem
é mais seguro ir nadando.

Você consegue ver
este outro lado
da linguagem?

Que nada!
Parece que o rio vai longe.

Talvez - ainda é tempo -
sábio seja
deletarmos rio
barco fazendo água
passageiros...

Ou permanecermos
no ínfimo do deus





                             tal os múltiplos
                             os tantos
                             ainda aqui
                             reinventando liras
                             reinventando perguntas
                             reinventando o pânico dos antigos.

Pelas ruas, o pânico dos velhos caminha lento...



Minha eternidade pelo reinado de um dia.
Só libélulas são felizes.

As diversas tribos, cada qual balançando
em seu ritmo próprio
vão puxando alegremente a passeata
por aumento de salários.



Meu corpo silicônico absoluto perfeito
não precisa de futuro. Identidade?
Excesso de bagagem, problemas na Alfândega.


Me vendo na TV, no cruzamento da Ipiranga
com a São João.
Na telinha também os meus guris
os demais companheiros
os nossos piolhos
os carros estacionados.
Que belo enquadramento! Estamos ótimos!


Zuleika dos Reis

2 comentários:

Anônimo disse...

Querida Bruna: refiz a diagramação de parte do poema, para que seu significado fique claro para algum possível leitor, a partir doverso"O morto no campo de batalha" até "passageiros ... do deus."
Lá vai:

O morto no campo de batalha
olha o inimigo e pensa:
Esse está mais morto do que eu.

O outro morto:
Você se emgana.

A seguir se quedam calados
sobre a terra.
É impossível dialogar
com o inimigo.

Atravessamos o milênio
e daí?
Não vejo qualquer diferença
no rio.

Eu vejo:
Acaba de passar
um cardume morto.

Se você pretende
atravessar comigo
neste barco
até o outro lado
da linguagem
é mais seguro ir nadando.

Você consegue ver
este outro lado
da linguagem?

Que nada!
Parece que o rio vai longe.

Talvez - ainda é tempo -
sábio seja
deletarmos rio
barco fazendo água
passageiros...

Ou permanecermos
no ínfimo do deus

A partir daí permanece como foi publicado.
Obrigada pelo espaço e pela atenção
Grande abraço
Zuleika dos Reis ( autora do poema em questão).

Bruna disse...

Querida,vê se ficou bom.