domingo, 7 de fevereiro de 2010

Trottoir



Minhas fantasias eróticas, sei agora,
eram fantasias do céu...
Eu pensava que sexo era a noite inteira
E só de manhãzinha os corpos despediam-se.
Para mim veio muito tarde
a revelação de que não somos anjos.
O rei tem uma paixão - dizem à boca pequena -,
regozijo-me imaginando sua voz,
sua mão desvencilhando da fronte da pesada coroa:
'Vem cá, há muito tempo não vejo uns olhos castanhos,
tenho estando em guerras...'
O rei desataviado
com o seu sexo eriçável mas contido,
pertinaz como eu em produzir com voz,
mãos e olhos quase estáticos, um vinho,
um sumo roxo, acre, meio doce,
embriaguez de um passeio entre as estrelas.
A voz apaixonada mais inclino os ouvidos,
aos pulsares, buracos negros no peito,
rápidos desmaios,
onde esta coisa pagã aparece luminescente:
com ervas de folhas redondinhas
um negro faz comida à beira do precipício.
À beira do sono, à beira do que não explico
brilha uma luz. e de afoita esperança
o salto do meu sapato no meio-fio
bate que bate.



Autor: Adelia Prado

Um comentário:

D. Q. M. disse...

Adéliciosa poesia essa da Adélia.