quarta-feira, 28 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Sentimento estranho

"Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir.
Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância.
Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto."

Caio Fernando Abreu

sexta-feira, 16 de abril de 2010


Ultimanente estou com umas idéias que batem com as que esse cara mostrava...

"Acorde o líder que está dentro de você... Faça-o falar" (pelo menos)

Chico Science

Poema

Poema

A poesia está guadarda nas palavras - é tudo que 
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a reladidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossa).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Por: Manoel de Barros  
In: Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Carta à quem interessar possa....

"Penso de novo, nesse instante, a maneira de morte que o sono é sempre, e porque nele se esconde para além do tempo o desejo visível de estar sentindo a vida como se fora uma queda no abismo, penso a maneira de sono que somos todos porque escondemos sempre qualquer coisa para além dos gestos e das palavras..."
(MARCOS KONDER REIS)


P.s.: carta à mim mesmo.
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terça-feira, 13 de abril de 2010

Embora os cílios traiçoeiros
Te dêem esse ar esquisito,
Decerto a um anjo interdito,
Ó maga de olhos faceiros,

Eu te amo, minha selvagem,
Minha frívola paixão!
Com a mesa devoção
Que ama o padre sua imagem.

O deserto e o arvoredo
Perfumam-te as tranças rudes,
E tens na fronte atitudes
De mistério e de segredo.

Qual turíbulo envolvente,
Teu corpo esparge perfumes;
Da noite o encanto resumes,
Ninfa tenebrosa e ardente.

Não há poção mais bendita
Do que teu ócio, ó delícia,
E conheces a carícia
Que os defuntos ressuscita!

Por teu dorso e por teus seios
Teus quadris morrem de amores
E aos coxins causas rubores
Com teus lânguidos meneios.

Se urge às vezes ser domada
Tua raiva misteriosa,
Tu me cravas, respeitosa,
Além do beijo, a dentada.

Morena, tu me aniquilas
Com teu riso de acre efeito,
E depois banhas-me o peito
No luar de tuas pupilas.

A teus pés de talhe fino,
Pés graciosos de cetim,
Ponho tudo o que há em mim,
O meu gênio e o meu destino.

Por ti minha alma se cura,
Só por ti, que és luz e cor!
Fulguração de calor
Em minha Sibéria escura!

Canção da Sesta, Charles Baudelaire

domingo, 11 de abril de 2010

- Sou o antraz, a bactéria carniceira, devorando a vida
- Sou um mundo flutuando no espaço, alimentando a vida.
- Sou uma nova explodindo, cremando planetas.
- Sou o Universo abragente, todas as coisas abraçando toda a vida.
- Sou a antivida, besta do julgamento, sou a escuridão no fim de tudo, o fim de universos, deuses, mundos... de tudo. E agora, Lorde dos Sonhos, o que você é?
- Sou a esperança.
HQ: Sandman - Uma esperança no Inferno
De: Neil Gainman

p.s. Um pouco de Literatura do quadrinhos aqui

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O quinze


Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...

Quarenta anos, quarenta e cinco... Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações - todos dizem isso embora você, pessoalmente, ainda não as tenha descoberto - mas acredita.

Rachel de Queiroz

terça-feira, 6 de abril de 2010


O amor é uma espécie de preconceito. A gente ama o que precisa, ama o que faz sentir bem, ama o que é conveniente. Como pode dizer que ama uma pessoa quando há dez mil outras no mundo que você amaria mais se conhecesse? Mas a gente nunca conhece.

Charles Bukowski