sexta-feira, 28 de maio de 2010

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Manifesto Utópico-Ecológico em Defesa da Poesia e do Delírio

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"Eu defendo o direito de todo ser Humano ao Pão e à Poesia.
Estamos sendo destruídos em nosso núcleo biológico,nosso espaço vital e dos animais está reduzido a proporções ínfimas quero dizer que o torniquete da civilização está provocando dor no corpo e baba histérica o delírio foi afastado da Teoria do Conhecimento e por essa razão a escola se coagulou em Galinheiro onde se choca a histeria, o torcicolo e repressão sexual,não existindo mais saída a não ser fechá-la e transformá-la em Cinema onde crianças e adolescentes sigam de novo as pegadas da Fantasia com muita bolinação no escuro".

(por: ROBERTO PIVA)

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sábado, 22 de maio de 2010


Na manhã em que me levantei para começar este livro tossi. Algo estava a sair-me da garganta, a estengular-me. Rasguei o cordão que o retinha e arranquei-o. Voltei para a cama e disse: Acabo de cuspir o coração. Existe um instrumento chamado quena que é feito de ossos humanos. Tem origem no culto que um índio dedicou à sua amante. quando ela morreu ele fez dos seus ossos uma flauta. A quena tem um som mais penetrante, mais persistente do que a flauta vulgar. Aqueles que escrevem sabem o processo. Pensei nisto enquanto cuspia o coração. Só que não estou à espera da morte do meu amor.

Anaïs Nin in Casa do Incesto

Anaiis definitivamente uma mulher admirável.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Distanciamento

-É que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria suficiente para modificar nossos roteiros.

(Silêncio)

-Mas não seria natural.
-Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.
-Natural é encontrar. Natural é perder.

Caio Fernando Abreu

Para alguém bem próximo, que talvez nem saiba que a gente tem esteja se perdendo, mas como você um dia você mesma me disse 'as coisas passam'.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Enfeite-se com margaridas e ternuras

E escove a alma com flores

Com leves fricções de esperança

De alma escovada e coração acelerado

Saia do quintal de si mesmo

E descubra o próprio jardim...


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 2 de maio de 2010

''Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. Todos os sucedidos acontecendo, o sentir forte da gente - o que produz os ventos. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor.
Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.''



Guimarães Rosa

Para desestressar:

"Quem sabe sim é o hoje o dia de desanuviar"
(Os Mutantes - 'Desanuviar').


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Tudo que era do esposo lhe atiçava o pranto: os chinelos de bolas, o pijama de baixo do
travesseiro, o espaço sem ele no espelho da penteadeira, o cheiro possoal dele em sua
própria pele. Abalou-se um pensamento vago: "As pessoas que a gente ama deveriam morrer
com todas as suas coisas"
[...]

Por: Gabriel García Marquez
in: O amor nos tempos do cólera