domingo, 27 de junho de 2010

Bonecas Russas



Não me lembro como se chamam as tais bonecas folclóricas russas: são as que são ocas e abre-se a boneca maior e dentro dela há uma menor, e dentro dessa outra menor ainda, e depois outra e mais outra, até chegar à última, que é uma simples miniatura de boneca. No mesmo gênero, também é aquele conto de fadas: “Lá no mar tem uma ilha, dentro da ilha tem um castelo, dentro do castelo tem uma torre, dentro da torre tem um quarto, dentro do quarto tem uma arca, dentro da arca tem uma caixa, dentro da caixa tem um cofre, dentro do cofre tem um frasco, dentro do frasco tem uma pomba, dentro da pomba tem um ovo, dentro do ovo tem uma chave e é essa chave que abre a porta da prisão onde está a princesa encantada” .
Pois a gente também é assim. A princípio eu pensava que, com a passagem das diferentes idades do homem, o maior ia substituindo o menor, quero dizer, o menino ficava no lugar do nenê, o adolescente no do menino, o moço no adolescente, o homem feito no do moço, o de meia-idade no do homem feito, o velho no lugar do de meia-idade e por fim o defunto no lugar de todos. Mas depois descobri que os indivíduos passados não desaparecem, se incorporam, ou, antes, o indivíduo novo incorpora os superados como se os devorasse, e uns vão ficando dentro dos outros, tal como as bonecas russas do começo da história.
E assim, dentro de cada um de nós, a gente procurando sempre encontra os perfis superpostos, encartados um por dentro do outro, sem se misturarem. É só saber como esgaravatar e você descobrirá fácil no sentencioso senhor de cinqüenta anos o inseguro pai de família principiante que ele foi aos trinta anos ou o belo atleta descuidado que foi aos dezoito. Ali está cada um, aparentemente esquecido mas incólume. E estanques todos. Porque um não penetra no outro e aparentemente um não tem o mínimo em comum com o outro; nem sequer um influi no outro – as mais das vezes são antípodas e adversários.
Faça uma experiência: pegue um livro, uma foto, reveja um filme, encontre alguém, qualquer desses serve, contanto se refira especificamente a determinado tempo de sua vida. E então magicamente se suscita aquele instante perdido do passado, com uma força de momento atual. Espantado, você se indaga: então esse fui eu? Que tem em comum com o você de hoje aquele estranho que subitamente acordou ao apelo do seu nome, debaixo da sua pele? Terá em comum só mesmo o nome e a pele, porque o resto, no corpo e na alma, tudo é outro, deformado ou gasto, mas sempre diferente. Você é outro, outro. E quase não acredita ter sido você também aquele rapaz desvairado, ou sonso, ou bobo e terrivelmente inexperiente que de súbito emergiu de dentro dos seus ossos e das suas velhas lembranças.

Em sua avó venerável você também pode descobrir a rapariga inconseqüente que ela foi um dia, e no seu severo confessor de hoje o seminarista em crise religiosa de trinta anos atrás. É só saber procurar. A gente diz disso: “ águas passadas” . Mas talvez seja melhor dizer águas represadas, águas recalcadas. Porque basta bater na pedra, a fonte emerge, o que não aconteceria se as águas fossem passadas realmente.


Rachel de Queiroz In; As menininhas e outras crônicas (1976)

sexta-feira, 18 de junho de 2010


Vontade de não dar sentido algum às coisas, as palavras e à própria vida. Assim como é a vida na realidade ausente de sentido.



Hilda Hilst em Cartas de um sedutor

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Limite

A mulher está perfeita.
Seu corpo

Morto enverga o sorriso de completude,
A ilusão de necessidade

Grega voga pelos veios da sua toga,
Seus pés

Nus parecem dizer:
Já caminhamos tanto, acabou.

Cada criança morta, enrodilhada, cobra branca,
Uma para cada pequena

Tigela de leite vazia.
Ela recolheu-as todas

Em seu corpo, como pétalas
Da rosa que se encerra, quando o jardim

Enrija e aromas sangram
Da fenda doce, funda, da flor noturna.

A lua não tem porque estar triste

Espectadora de touca

De osso; ela está acostumada.
Suas crateras trincam, fissura.

Por: Sylvia Plath

sexta-feira, 11 de junho de 2010

What There?

.
There is a knife in my heart,
Fixing my devilish love.

There is a spear in my will,
Teaching my lost spirit.

There is a sickle in my life,
Singin a lonesome lullaby.

There is a bullet in my brain,
Revealing for me the mistery of the rain.

There is a atomic bomb in my desire,
Devastating my gorgeous and dirty empire.

There is a tasty hope in my dreams,
Feeding my hungry of accomplishment.

There is a hammer in the hand of my courage,
Hittin and breakin my Moral cage.


.

terça-feira, 8 de junho de 2010

Pulp

"Tinha o cartão Gold Visa. Estava vivo. Talvez. Começava até a me sentir como Nick Belane. Cantalorei um trechinho de Coats. O Inferno era o que a gente fazia dele." (pág. 16)

Por: Charles bukowski
Em: Pulp

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A parede e o sangue dela

A PROMESSA CONCRETA

Estás vendo as promessas?
O que dizias
que
ser ia?
Não foi.
Trago tanto sentimento
mas não trouxe
(eu não trouxe)
nenhum
(sentimento)
(caminho)
(morto)
Trouxe um caminho morto que é meu não cumprimento de mim mesmo.




Paco Bernardo

quinta-feira, 3 de junho de 2010



Fodamos, meu amor, fodamos presto.
Pois foi para foder que se nasceu.
E se amas o caralho, a cona amo eu;
Sem isto, fora o mundo bem molesto.
Fosse foder após a morte honesto,
"Morramos de foder!" seria o meu
Lema, e Eva e Adão fodíamos por seu
Invento de morrer tão desonesto.
É bem verdade que se esses tratantes
Não comessem do fruto traidor,
Eu sei que ainda fodiam-se os amantes.
Mas caluda e me enfia sem temor
Esse pau que à minha alma, em seus rompantes,
Faz nascer ou morrer, dela senhor.
                          E se possível for,
Quisera eu pôr na cona estes colhões
Que de tanto prazer são espiões.
Aretino

quarta-feira, 2 de junho de 2010


''Meu senhor homúnculo... 
- falou (claro que com outras palavras)
...esse jardim é meu?
E o figura respondeu:
- Não.
O seu virá quando amar...''



Guimarães Rosa