quinta-feira, 26 de agosto de 2010

"E sem saber exatamente qual era sua falta, ele sentiu bem que viver não era extamente sua falta, ele sentiu bem que essa pena era em si mesma uma falta, exigindo outras penas e assim por diante, como se pudesse  haver outra coisa além da vida para os vivos."

(BECKETT, Samuel - Malone Meurt)

terça-feira, 24 de agosto de 2010


Porque minhas mãos e meus olhos só me fazem entender tudo errado,
fazem que eu perceba coisas que podem acontecer (e que não vão acontecer) no sorriso fácil, na conversa que só é amiga?
E só é amiga porque é comigo.


Junior Ratts in Sweet Dreams: o anão e o cachorro, o calmante e o formicida"

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O amor não conhece virtudes, não conhece mérito, a tudo perdoa e tudo suporta, porque o deve; nem pelo juízo somos guiados, nem pelas preferências nem pelos erros, que descobrimos, provocam nossa abnegação ou nos retraem. É um poder doce, melancólico, secreto, que nos impele, e acabamos por pensar, experimentar, querer, deixamos que nos atraia sem peguntar "para onde?".

Sacher-Masoch, in A Vênus das Peles.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Penetra-me


Letícia Marques

Penetra-me o corpo,

Rasga a alma,

Deflora o meu desejo,

E viola meu pensamento...

Vem, garganta travando o grito...

Tropeços e afagos

Do amor...

Penetra-me a vida,

Invade meu jardim,

Incendeia a minha cama,

Rasga os lençóis...

Vem, bota em mim o seu amor,

Segura forte,

Faz-me uivar de dor...

Penetra-me com teu calor,

Até o fundo,

Leva-me pra longe do mundo,

Faz chover lá fora,

Faz nascer amor aqui dentro,

Agora!





Dia dos Namorados

Pedro Braga


Contrariando o domingo, ela levantou-se cedo.

Além de ir ao cabeleireiro, à depiladora e à manicure, faltava ainda buscar o presente: um tênis raro, aquele que, quando foi tirado de circulação, causou ira na comunidade jovem masculina.

O namorado ia gostar do presente; deu um trabalhão danado para achar, ainda mais no número dele, 36, pequenino, um pé de menina o do homem da sua vida. Ela teve que importar da Argentina, pagou caro e esperou muito, mas valeria a pena. Ah, e como valeria a pena! Pensava ela, enquanto se olhava no grande espelho do quarto, e antevia a reação do namorado ao rasgar sem piedade, como boa criança que era, o embrulho bonito.

Melhor embrulhada estaria ela em seu vestido novo e, talvez, quem sabe desta vez, ela deixasse o namorado, como bom homem que era, desembrulhá-la também.

É quando a mãe bate à porta, chamando-a para sair. A menina vê seu rosto ruborizar: uma vergonha ser surpreendida pela mãe em meio a pensamentos tão impróprios para sua idade. Admira ainda mais uma vez seu corpo no espelho e pode jurar que ele se faz mais belo a cada instante. Então, enfia um vestido de flores desabrochadas pela cabeça, e sai assim, sem roupa debaixo, prenunciando no dia a ousadia da noite.


Ele acordou tarde.

Estava de bom humor e agüentou paciente as brincadeiras do pai e do irmão sobre o dia que se iniciava - para ele, já na metade. Tomou café com leite, sob protestos veementes da mãe, que insistia para que ele almoçasse de uma vez. Sentou-se preguiçoso na sala, perguntando quem estava em primeiro. Responderam que era o carro vermelho-fogo do brasileiro, assistiu o carro liderar duas voltas e rodar na terceira; “ta vendo, foi só você chegar”, disseram o pai e o irmão. Ele aproveitou a deixa e levantou-se.

No quarto, olhou para o presente ao lado da cama: um perfume sofisticado. Estava orgulhoso do pacotinho, que custou meses de economia, mais uma forcinha da mãe.

Difícil para um homem escolher uma coisa tão sofisticada e feminina, ainda mais para um homem de pouca idade como ele. Por isso não tinha hesitado em engolir o orgulho e pedir ajuda a meninas de antipatia tão grande quanto o bom gosto. Foi humilhante, mas conseguiu: tinha ali, ao lado da cama desfeita, um presente perfeito.

Sorriu, abriu a porta do armário e olhou-se no espelho. Ousou achar-se bonito, mas logo se assustou com a própria vaidade. Saiu do quarto espaventado e assistiu ao alemão ganhar a corrida.


Ela voltou da rua, entrou no banho apressada, saiu cantarolando, colocou um vestido novíssimo, a meia calça e só; “a calcinha ia marcar” justificou para si mesma. O cabelo, que não molhou no banho, ainda exibia a beleza de quando foi cortado e os cachos domados não esboçavam qualquer tentativa de rebelião. Estava realmente bela quando apanhou o presente. O taxista notou (e comentou), enquanto ela se sentava devagar para não amassar o vestido. 


Ele demorou-se a fazer uma barba quase imaginária. Se queria a pele lisa ou só justificar o uso da loção pós-barba não se sabe. Colocou a camiseta, a calça, levou muito mais tempo do que o de costume para amarrar os cadarços. Depois escutou um pouco de rock pesado e ficou olhando para o embrulho do presente, esperando a hora chegar.

Cansou-se de esperar, apanhou o pacote e saiu: a caminhada mataria o tempo para ele. O pai estranhou a dispensa da carona, mas preferiu assistir ao resto do jogo a questionar a decisão do filho.


Chegou à praça, feliz. Logo viu seu homem que balançava uma sacola, encostado no coreto. Ela andou com passos largos e vestido esvoaçante, e o abraçou apaixonadamente. O namorado estendeu-lhe a sacola de marca famosa e assistiu a ela abrir o plástico e rasgar o embrulho para encontrar uma blusinha, dois números maior, embaixo do papel de seda. “A moça falou que se não servir...”, disse o namorado, e sugeriu que se apressassem, para não perderem o filme. Seu embrulho abriria depois.


Sentado na fonte, ele já esperava há meia hora quando a namorada saltou do ônibus. Vinha chacoalhando uma grande sacola e parecia um pouco aborrecida. O presente chegou alguns segundos antes dela. Ele o abriu, rasgando o papel, e viu aparecer uma camiseta toda estampada, certamente apertada e que lhe causou um certo desconforto visual. “É daquela loja nova, mas se não gostou pode trocar”, ele ouviu e colocou um sorriso dolorido no rosto, vendo sua amada descolar, cuidadosamente, a fita adesiva da caixinha e abri-la só o suficiente para o rabo do olho poder entrar.


“Ah, brigado, o perfume que eu queria”, a namorada disse, e puxando a mão dele: “agora vamos que se não a gente perde a sessão”.


Tão baixo andavam os olhos dos dois, que acabaram por se cruzar em frente ao cartaz do disputado filme. Em poucos segundos perderam-se, na confusão da entrada, na vergonha do desejo ou na inadequação do dia, mas foi tempo suficiente para fazê-los passar o filme a perseguir vultos, na esperança de que o rosto do outro se tornasse evidente no tremeluzeio da tela.

Não se viram mais.

Tivessem oitenta anos ou fossem poetas românticos, teriam se matado. Mas eram jovens de prosa; foram para casa, guardaram os presentes e escreveram o mesmo conto, sob luzes diferentes.


E-Mail do autor : pedrobhscsp@yahoo.com.br


Nota 
Li este texto muito tempo atrás,nem sei se postei aqui,mas gostei tanto...

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A dor é uma coisa estranha.
Um gato que mata um pássaro,
um acidente de automóvel,
um incêndio...

A dor chega,
BANG,
e eis que ela te atinge.

É real.

E aos olhos de qualquer pessoa pareces um estúpido.
Como se te tornasses, de repente, num idiota.

E não há cura para isso,
a menos que encontres alguém
que compreenda realmente o que sentes
e te saiba ajudar...

Charles Bukowski

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Ócio necessário

“Um dos males da nossa época é essa pregação do trabalho intenso, que tira o ócio do espírito e nos afasta a todo o momento da nossa alma imortal e não nos deixa ouvi-la a todo o momento.”

Lima Barreto.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010




Mas há a vida



Mas há a vida
que é para ser
intensamente vivida,
há o amor.
Que tem que ser vivido
até a última gota.
Sem nenhum medo.
Não mata.


Clarice Lispector
O PRIMEIRO BEIJO



Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.

- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:



- Sim, já beijei antes uma mulher.



- Quem era ela? perguntou com dor.



Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.



O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.



E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.



E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.



A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.



E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.



Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.



O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.



De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.



Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.



E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.



Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.



Ele a havia beijado.



Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.



Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.



Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...



Ele se tornara homem.



(In "Felicidade Clandestina" - Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998)

todo meu amor



"Eu te amo, homem, amo teu coração, o que é, a carne de que é feito, amo tua matéria, fauna, flora...Te amo com uma memória imperecível."


Adélia Prado.