quinta-feira, 26 de maio de 2011

De fato nos últimos tempos, Tuda não passava nada bem.
Ora sentia uma inquientação sem nome, ora uma calma exagerada e repentina. Tinha frequentemente vontade de chorar, e o que em geral se reduzia à vontade apenas, como se a crise se completasse no desejo. Uns dias, cheia de tédio, enervada e triste. Outros, lânguida como uma gata, embriagando-se com os menores acontecimentos. Uma folha caindo, um grito, um grito de criança e pensava: mais um momento e não suportei tanta felicidade. E realmente não suportava, embora não soubesse prorpriamente em que consistia essa felicidade. Caía num choro abafado, aliviando-se com a impressão confusa de que se entregava, a não sei quem e não sei de que forma.

Clarice Lispector in A Bela E A Fera

segunda-feira, 9 de maio de 2011

[...] E é porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar do meu modo. É porque ainda não sei ceder. [...] É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. [...] Talvez eu tenha que chamar de "mundo" esse meu modo de ser um pouco de tudo.

(Clarice Lispector: Perdoando Deus - página 44 in Felicidade Clandestina)


quinta-feira, 5 de maio de 2011

Ironia


Comece - ironicamente - seguindo o conselho de quem deixou de te amar: Cuide de você.








Caio Fernando Abreu

VAGALUMEANDO

Por: Júlio Siqueira




Num instante solitário entre montanhas e estradas desertas, vou me debatendo chamando isso de segundos.
Atravessando os longos e frios descampados, pelos túneis das tardes, onde pequenas gotas de memórias são capazes de mergulhar as mais ocultas palavras.

o ser humano suspira, agarra-se em invisíveis constelações, na matéria e no imaterial delírio, depois o declínio da perda, a dor de parto pela saída, não do feto mas da lastimante concentração de afeto com o que se perdeu.
No distante olhar superficial das coisas, apenas podemos lamentar, mas, no núcleo visceral onde provavelmente está a alma - intacta - há milhes de vulcões que se cuspissem todos os sentidos, sentiríamos por toda a eternidade - tudo – ao mesmo tempo.


POEMAS PARA O LIVRO
“ONÍRICO PERCURSO POR DENTRO DO MOVIMENTO”

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Faço menos planos e cultivo menos recordações. Não guardo muitos papéis, nem adianto muito o serviço. Movimento-me num espaço cujo tamanho me serve, alcanço seus limites com as mãos, é nele que me instalo e vivo com a integridade possível. Canso menos, me divirto mais, e não perco a fé por constatar o óbvio: tudo é provisório, inclusive nós.



Martha Medeiros

terça-feira, 3 de maio de 2011

O chão é cama



O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a úmida trama.
E para reposar do amor, vamos à cama.


Carlos Drummond de Andrade

domingo, 1 de maio de 2011

E agora...


Andei amando loucamente, como há muito tempo não acontecia. De repente a coisa começou a desacontecer. Bebi, chorei, ouvi Maria Bethânia, fumei demais, tive insônia e excesso de sono, falta de apetite e apetite em excesso, vaguei pelas madrugadas, escrevi poemas (juro). Agora está passando: um band-aid no coração, um sorriso nos lábios – e tudo bem Ou: que se há de fazer.



Caio Fernando Abreu