domingo, 17 de maio de 2015

A SUPERFÍCIE DA CAPSULA





Sentiu-se mal naquela manhã e escureceu para o mundo. Só ouvia sussurros remotos – como formigas mágicas marchando sobre a ponte misteriosa – não queria acreditar que de fato tinha partido. – Então é isso? Um quarto sem ádito onde ouvimos às lamentações daqueles que vivem? Então tudo não passa de uma grande ilusão celestial nas costas espinhosas do desconhecido? Bah! O mundo e suas filosofias pueris. 
Aos poucos não conseguia lembrar mais do próprio nome. Não sentia mais qualquer tipo de dor. Desejo. Medo, qualquer substantivo abstrato lhe parecia um grande jogo de sinais ocultos, místicos e distantes na sua prosaica existência. A escuridão não dava espaço. Apenas ouvia o que nós chamamos de choro - alguns gritavam é verdade - não obstante, como um teatro às escuras, logo secavam sua voz e suas insânias.
– nem queiram estar onde estou – pensava ele, na era de gelo cinza onde - intrigantemente - encontrava-se..
- Por que não me esperastes para irmos juntos ao paraíso? Diziam sua mulher. Lembrava-se dela certamente. Era jovem. Trinta e poucos anos de juvenis reverberações. Tudo começou naquele corredor úmido onde embebiam a si mesmos como frascos inanimados, misturavam-se, nascendo fórmulas umbráticas de amanhã. Na inquietação medonha dos olhares cúmplices do porvir. Depois filhos. Ah, sempre rebeldes de sua própria condição. Orgulhosos por terem nascido. Reclamões exasperantes do destino. 


 – Querem destino? escava-me até encontrar o grande tesouro! Aquele que não deixei nos testamentos empoeirados. Carcomidos por traças peregrinas que alimentava a vaidade formigante dos consanguíneos na minha ausência.
Por falar em inquietação. Tudo agora desaguava nestes termos. Não poderia se mexer, apenas, imaginar.  Imaginar-se para fora na língua escaldante da insignificância. Dali seria enterrado em uma cova sobre às bênçãos das árvores milenares. Ouviria – como um tilintar anos luz – as últimas sombras dobrando a esquina daqueles que amou. E foram poucos de fato. 
– A vida? Termina onde todos terminam. As aventureiras realizações caleidoscópicas sobre o asfalto, os trilhos, as linhas que traçamos à margem dos litorais, os cálculos que jamais conseguiríamos completar. Qual, dentre as incertezas, escolheremos?


Fechava os olhos. Mas nem precisaria mais tamanho esforço febril. O mundo parece ter tantas palavras quanto às galáxias têm estrelas, entretanto, nenhuma cabe a vida. Apenas contornamos os meandros, as vielas, os becos, as saídas, o que chamam de portas. Perdoem-me poetas – trabalhadores não remunerados dos sentidos – perdoem nosso personagem por sua intransigente vontade de permanecer vivo. 
Vil homem que lamenta a libertação. Lamenta suas próprias lembranças. Lamenta o verme jantando suas unhas descoloridas. O percurso pode durar um átomo de segundo. 
Este segundo pode ser a eternidade de um simples passo. 

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Texto | João Roc
Fotografia | Dariusz Klimczak

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